O caso dos doze comprimidos

Aconteceu comigo. Minto, ainda acontece e faço questão de contar. 

Infelizmente sabemos que tirando as curas milagrosas de Jesus, ainda não existe um meio eficaz de curar uma doença sem utilizar algum tipo de remédio, qualquer um, mesmo que seja um placebo! O pior é que dependendo da gravidade de seu estado, mais medicação será recomendada, com e apesar dos famosos “efeitos colaterais”. 

Ao contrário de muita gente boa, nunca fui muito “amigo” de pílulas, cápsulas, comprimidos, xaropes, poções, pomadas, cremes, sublinguais, injeções, supositórios e afins, não necessariamente nessa ordem. Acredito sim que temos grande dificuldade de aceitar que um algum dia deixaremos de ser eternamente jovens e receberemos a conta dos anos de descaso com nossa saúde física e mental.

Por alguma razão passei grande parte da vida praticamente incólume neste quesito: uma gripe aqui, outra dor de barriga ali, uma indisposição acolá e stress, esse sim, sempre. Nunca quebrei um ossinho e tampouco fui internado em um hospital. Mas, mesmo sem querer enxergar o óbvio, o tempo corre inexorável e tive que aprender a usar óculos e remédios diários para controlar a pressão arterial, ansiedade e dores de cabeça. 

Para resumir, hoje tomo exatos e obrigatórios doze comprimidos por dia: 7 da quimioterapia, 3 da hipertensão, um para a gastrite e é claro, um para  manter a sanidade num país completamente insano. Eventualmente tenho a postos um para dor nas costas, outro para regular o intestino, um colírio e um outro com um gosto horrível para azias. Deve ser por isso que sou tão bem recebidos nas farmácias. 

Mas o que me incomoda mesmo (e aí não tem remédio que cure) é o descaso com a saúde pública, em todos os níveis. A pandemia é cruel até por isso, ao expor de maneira crua e mortal a incompetência e a desonestidade das autoridades em todos os níveis, algumas incapazes de atitudes coerentes com a gravidade  do momento e outras mais preocupadas com o lucro de transações criminosas, imorais e escusas.

Enquanto isso, vamos driblando nossas próprias deficiências, tentando viver sem trabalho, saúde e o pior de tudo, sem nenhuma esperança de dias melhores. Meus doze comprimidos não tem culpa de nada e se Deus quiser vão me deixar curado. No entanto, com certeza, para mim serão sempre o símbolo de dias confusos, angustiantes e cheios de incertezas.  

Aprendemos alguma coisa? Tomara que sim, afinal seremos todos sobreviventes. E sinceramente, espero nunca mais ver um hospital de campanha que custou 60 milhões de reais aos cofres públicos, ser abandonado em plena pandemia. Ninguém merece…

Corvus oculum corvi non eruit

Google Imagem

Um corvo não arranca o olho de outro corvo, enquanto ambos são coniventes e convenientes, enquanto precisarem um do outro. A expressão em latim serve muito bem para o momento político que estamos vivendo nos últimos dias. Supremo, Congresso, Executivo, Judiciário, cheios de corvos unidos para manter a esbórnia existente desde o final da década de 90. Infelizmente, são muitos, frustrante. Corvus oculum corvi non eruit. Os romanos tinham razão.

A glória é efêmera

Quando um general da Roma Antiga retornava vitorioso, era homenageado publicamente desfilando com suas legiões pelas ruas da cidade. Nesse dia, ele usava uma coroa de louro e vestia-se com uma toga bordada de roxo e ouro. Em uma quadriga, carruagem com quatro cavalos, desarmado, vinha a frente dos soldados, prisioneiros e despojos de suas batalhas. Entretanto, durante toda a cerimônia, na mesma carruagem e bem atrás do general, um escravo sussurrava em seus ouvidos o tempo todo: “olhe para trás. Lembre-se de que és um homem e toda a glória é efêmera”.

Pois é! A historinha é de Roma mas reparem, serve muito bem para o Brasil.

A tragédia do Brasil

Foto: Andre Penner/AP Photos

Os números falam por si: 121 mortos, 205 desaparecidos, um rio morto, plantações, casas, vidas destruídas, centenas ou talvez milhares de animais de todos os tipos perdidos para sempre e um enorme desalento e desesperança com mais uma tragédia anunciada que sacudiu o nosso país em Brumadinho, Minas Gerais.

É inconcebível que o mesmo tipo de desastre tenha se repetido com a mesma empresa, no mesmo estado, quatro anos depois. O que nos leva a outra reflexão, a impunidade, a morosidade da justiça, o desinteresse das autoridades responsáveis, a certeza de que o assunto será esquecido dentro de mais uns dez dias, como bem disse o colunista Ricardo Boechat em seu editorial de hoje, na Band News.

Pois é… Torço para que desta vez estejamos todos errados e a justiça será feita, doa a quem doer, sem ver cara, cor, títulos e poder. Em algum momento, o Brasil vai ter qie dar um basta nessa postura imperial, onde uns são melhores e mais imprescindíveis do que os outros. Que esse basta seja agora!

O petróleo é nosso. E daí?

Foto: Edison Luiz

De toda essa confusão que a greve dos caminhoneiros está provocando – incluindo aí a merecida desmoralização do governo federal – dois pontos me deixam profundamente triste e, se é que isso é possível, cada vez mais desanimado com o futuro do Brasil. Estou falando da nossa completa dependência do petróleo e do transporte rodoviário, como se ainda vivêssemos em pleno século passado.

Amigos, não vivi 50 anos no século XX para ser testemunha da nossa incapacidade de sair dos anos 60, 80, sei lá! Enquanto aí fora se produz realidade virtual, fontes alternativas de energia, as cidades são devolvidas às pessoas, a ciência avança em todas as frentes e a saúde é realmente para todos, continuamos na mesma vidinha de todo o sempre, vivendo de lembranças e glórias que nunca chegaram à população.

Desculpem o mau humor, mas o Brasil está um saco!

Lugar nenhum

Os dados abaixo, levantados pelo jornalista Luiz Ruffato para o seu certeiro artigo “Um país apático, rumo a lugar nenhum”, publicado na edição eletrônica do jornal espanhol El País mostram, de forma resumida, é claro, como anda (?) o nosso país na área social. Vamos lá:

“O Brasil figura entre os 10 países mais desiguais do mundo – 5% dos ricos detêm renda igual a 95% da população, segundo estudo da ONG britânica Oxfam. Além disso, enquanto os pobres gastam em impostos 32% de tudo o que recebem, os ricos despendem apenas 21%. A taxa de analfabetismo chega a 8% do total da população, enquanto o analfabetismo funcional chega a 17,1%, segundo dados do IBGE – ou seja, um em cada quatro brasileiros não sabe ler e escrever ou não compreende textos simples. Na faixa entre 15 e 17 anos, 22% dos jovens estão fora da escola, número que permanece mais ou menos o mesmo desde 2000. Enquanto isso, segundo o Atlas da Violência 2017, em 2015 foram assassinadas 59 mil pessoas, o que equivale a 28,9 mortes por 100 mil habitantes, e outras 47 mil pessoas perdem a vida no trânsito todo ano, conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).”

E piora:

“Segundo o IBGE, em agosto existiam 26,3 milhões de brasileiros desempregados ou subocupados, estatística que pode ser aferida pelo aumento significativo de famílias inteiras morando nas ruas. O Brasil, que tinha em 2014 deixado o Mapa da Fome – acima de 5% da população ingerindo menos calorias que o recomendado – pode voltar e ele este ano.”

Pois é… Esses números explicam o medo nosso de todos os dias, a apatia, a desesperança. O silêncio das ruas soa como um aval ensurdecedor para políticos, bandidos (ou as duas coisas) e seus negócios escusos, seus esquemas, seu poder ilimitado. O Ruffato tem razão, estamos parados, indo para lugar nenhum…

Editorial

Já havia prometido a mim mesmo que não ia mais tocar, escrever, falar ou insinuar qualquer coisa – inclusive gracinhas – sobre lava-jato, corrupção, política, lula, dilma, aécio, temer, pt, pmdb, psdb, pp (e todos os 30 e não sei quantos partidos), justiça (lenta, partidária, obsoleta, corrupta também), rio de janeiro (pezão, cabral, paes, crivella, garotinho, rosinha e por aí vai), futebol, olimpíadas, sei lá, tudo isso que envergonha o Brasil.

Resumindo, o que eu queria (e deveria) fazer era dar um pulo no futuro (se é que ele existe), pegar uma nave interestelar até uma galáxia qualquer, hibernar uns 150 anos, dar um rolê por lá e voltar para nosso planetinha, dormindo de novo por mais 150 anos. Aí sim, se o Brasil ainda existisse, talvez (eu disse talvez), valesse a pena continuar morando nesta terra de clima quente, rica em recursos naturais, com uma flora e fauna únicas e um povinho que vem estragando tudo desde que cabral (o português) baixou por essas bandas.

Infelizmente as viagens tripuladas ao espaço não vão mais sequer à Lua, mas o que eu quero deixar claro é que tempos piores ainda podem vir se todo mundo resolver deixar prá lá e apenas sobreviver (o que, aliás, já é uma coisa muito complicada aqui no Rio). Não entendo como a população gasta tanta energia com somenos e é incapaz de demonstrar (pelo menos) alguma indignação pública com tudo e todos que aí estão enrolados até a alma, alguns presos, é verdade, mas contando com a eleição do ano que vem para retornarem triunfais com seus esquemas, roubos, canalhices e a pouca (ou nenhuma) vergonha de sempre.

Sei lá. Na França, em 1789, por causa de um brioche, cortaram (literalmente) um monte de cabeças coroadas. Na Rússia, em 1917, mais outro tanto. Por aqui, nem um pio. Pois é, daí lembro que alguém falou que o brasileiro é um povo pacífico. Que nada, somos apenas um povo passivo.

Pintura: Tomada da Bastilha, de Jean-Pierre Louis Houël

Quase um blues

O computador toca uma balada de Miles Davis. Na verdade, quase um blues, o que não faz a menor diferença, vindo de quem vem. Fosse uma valsa, um xote, um funk, um rock ou uma ópera completa, com libreto e tudo, seria sempre um Miles Davis. Mas o assunto de hoje não é jazz, nem o fantástico músico e compositor americano que deixou como legado uma obra extensa, genial e inspiradora. Não, infelizmente, sou obrigado a ficar no plano terreno e lembrar que o Brasil virou uma “tragédia mexicana” de péssimo gosto.

O nosso legado é triste, lamentável, indigno até. Regredimos, sem o menor exagero, uns bons 50 anos e não estou falando só de políticos. Perdemos o rumo na economia, educação e saúde. Falimos. A pesquisa científica definha, as artes agonizam, o esporte patina, a cultura se perde.

Somos todos corruptos? Não, claro. Mas nosso silêncio acaba por nos tornar cúmplices de toda essa corja que assaltou os cofres públicos, fraudou eleições, vendeu a constituição, inventou e superfaturou obras, em sua grande maioria inúteis e tratou os brasileiros como um bando de babacas.

Pois é. No fundo somos mesmos otários, discutindo pelas redes sociais que fulano, beltrano e sicrano são isso e os outros são aquilo, como se não soubéssemos que todos eles, todos mesmo, não passam de um bando de ladrões, merecedores de todo o nosso desprezo e vergonha.

O blues surgiu no final do século 19, com o canto dos escravos que colhiam algodão nas fazendas norte americanas. Segundo o escritor e historiador britânico Paul Oliver, “o blues é um estado de espírito e a música que dá voz a ele. O blues é o lamento dos oprimidos, o grito de independência, a paixão dos lascivos, a raiva dos frustrados e a gargalhada do fatalista. É a agonia da indecisão, o desespero dos desempregados, a angústia dos destituídos e o humor seco do cínico”.

Lamentos, paixão, raiva, agonia, desespero, grito de independência. Que nada… Infelizmente, por aqui, ainda não passamos da ilusão e todo o sofrimento sequer é quase um blues. Na verdade, não é nada mesmo. Um dia, quem sabe, a gente acorda, consegue se unir, botar essa canalhada para correr e construir um novo Brasil, desta vez prá valer. É isso, nossa única reação é sonhar.

Desenho: Jano

A tragédia do Brasil

Um bar carioca, algum dia em março de 2117:

“Já se passaram tantos anos que nem sei se consigo me lembrar direito dessa história. O transatlântico Brasil, um navio bonito, moderno, zarpou para mais um cruzeiro, completamente lotado. Tudo ia bem até que a noite que os organizadores da viagem ofereceram um festão, com políticos, artistas, intelectuais, cantores, celebridades e buffet liberado. A alegria era tanta que ninguém notou que, por volta da meia noite, os motores pararam.

O comandante, furioso, mandou os mecânicos resolverem o problema com urgência. No horizonte, uma tempestade se aproximava. O tempo passava e, completamente à deriva, o Brasil seguia indefeso ao sabor da maré. A borrasca, de proporções descomunais, atingiu os infelizes em cheio. A tripulação, temendo um naufrágio, baixou os botes salva-vidas para, digamos assim, salvar a própria pele.

Os passageiros, tardiamente perceberam que estavam sendo abandonados, mas, sem iniciativa e liderança, entraram em pânico e alguns até mesmo se atiraram ao mar para a morte certa. Inacreditavelmente o Brasil suportava a terrível tempestade, jogado para cima e para baixo pelas ondas como uma simples folha de papel. Um operador de rádio, um dos poucos remanescentes da tripulação ainda a bordo, tentava desesperadamente enviar pedidos de socorro. Alguns foram captados, embora quase ininteligíveis. Um deles dizia mais ou menos assim: “… Brasil à deriva, fazendo água, sem comandante e oficiais, passageiros em pânico, caos total. Socorro. Latitude…”

Para encurtar o caso, o Brasil nunca mais foi visto, outro sinal jamais foi enviado, nenhum destroço sequer foi encontrado. Todos a sua população, perdão, passageiros e tripulantes desapareceram. Mais de cem anos depois, até seu sumiço foi esquecido e nem ao menos um navio fantasma ele virou. Uma tragédia, o Brasil ainda tinha um futuro pela frente.”

PS: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança como nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.