Manias

Uma das primeiras crônicas publicadas no jornal friburguense A Voz da Serra, em maio de 2011, “Minhas manias preferidas” é uma bem-humorada visão das nossas esquisitices diárias e que, em sua maior parte, nem notamos. Como muito tempo já se passou, a crônica foi devidamente remixada mas, para desespero da garotada, ainda continua um textão. Divirtam-se!

Manias… Quem não as tem? Até onde um mero hábito mecânico pode virar um perigoso TOC? E por falar nisso, o que é mesmo um TOC? Perguntas, perguntas e mais perguntas. Será que perguntar também é uma mania? Sem brincadeira, acho que uma das coisas que nos diferenciam dos demais habitantes vivos deste planetinha são as nossas manias, saudáveis ou não. Alguém já viu um cachorro angustiado quando saiu para passear, tentando se lembrar se deixou o gás ligado? É um exagero, claro, mas do jeito que estamos tratando os nossos pets, qualquer dia eles vão acabar maníacos compulsivos por osmose!

Segundo o Wikipédia, a palavra vem do grego mania (loucura), distúrbio mental caracterizado pela mudança exacerbada de humor, com alteração comportamental dirigido, em geral, para uma determinada ideia fixa e com síndrome de quadro psicótico grave e agudo característico, embora não exclusivo (mania secundária), do Transtorno ou Distúrbio Bipolar e se caracteriza por grande agitação, loquacidade, euforia, insônia, perda do senso crítico, grandiosidade, prodigalidade, exaltação da sexualidade e heteroagressividade.

Entendeu alguma coisa? Nem eu!

Vamos de novo: o Dicionário Houaiss define mania como “hábito extra, prática repetitiva, costume esquisito, peculiar, excentricidade como por exemplo deitar-se sempre do lado direito ou gosto ou preocupação excessiva por ou com algo”.

Melhorou, não é mesmo?

A questão da mania é tão fascinante que alguém, na internet, é claro, se deu ao trabalho de elaborar uma lista com todas as manias conhecidas, de A até Z. Ali encontramos coisas interessantes e inesperadas como a “dacnomania – mania de morder alguém ou a si mesmo”, “erotografomania – desejo de escrever cartas de amor”, “nudomania – mania de ficar nu”, “sofomania – mania de saber muito”, “odaxelagnia – desejo de mordiscar carinhosamente os outros”, “rinotilexomania – mania de colocar o dedo no nariz” e a mais conhecida e que acomete a classe política em geral, a “cleptomania – mania de roubar sem necessidade”.

Mas o que importa mesmo são as nossas próprias manias, aqueles toques que não causam danos a ninguém e, por que não, facilitam nossas rotinas. E sem mais delongas, aí vão algumas das minhas manias preferidas:

  • Ler jornais de trás para diante. Eu acho que isso vem de criança mesmo. Lembro que gostava dos quadrinhos do segundo caderno do jornal carioca O Globo, que ficavam na penúltima página. Depois passei a ler a seção de esportes, sempre na última página. Hoje, bode velho e leitor compulsivo (opa!), só sei ler da última para a primeira página (mas, atenção, é só com jornais, não faço isso com livros e revistas porque ainda não estou louco);
  • Nunca piso no chão sem estar calçado. Isso não sei explicar, já que nasci e cresci em Copacabana, indo sempre à praia de pé no chão. De repente, não consegui mais andar sem um chinelo, sandália, tênis, qualquer coisa, menos pé no chão. Acho que Freud explica. Ou então Jung… Será que pisei em cocô de cachorro e fiquei traumatizado? Vai saber!
  • Minhas roupas são todas arrumadas no armário por tipo e cor. É sério! Separo as camisas em mangas compridas, curtas e sem mangas e agrupo pelas cores. Calças e bermudas também. Mas isso deve ser porque sem óculos não enxergo nada e dessa maneira consigo visualizar facilmente a peça que vou usar. Ainda bem que não sou daltônico.
  • Detesto filas. Fila de banco, restaurante, cinema, teatro, INSS, vale transporte, vale idoso, vale gáz, correios, bolsa família, eleição, o que for. Se for preciso mudo de programa, chego mais cedo ou mais tarde, enfim, faço qualquer negócio para não ser obrigado a encarar uma fila.
  • Roer as unhas. Para falar a verdade, tecnicamente eu corto as infelizes com qualquer objeto cortante que caia nas minhas mãos, ou seja, não sou um “roedor”. Ansiedade, insegurança, falta de louça para lavar? O mais curioso é que agora, já na terceira idade, não tenho mais esse hábito. O que mudou? Não tenho a mínima ideia, deve ser esquecimento mesmo!
  • Pois é. Não, não é o fim da crônica não, é mania mesmo. Podem reparar que uso e abuso do “pois é”, escrevendo e falando, principalmente quando o raciocínio, já meio baleado, custa a fechar a ideia. Tá bom, isso não é mania, é pobreza de vocabulário mesmo…

Mais algum? Sem dúvida, mas acho bom parar por aqui. Algumas manias são tão nossas que fica até difícil explicar. Aliás, não conto nem por decreto! E você, querida leitora e caríssimo leitor, qual a sua mania preferida?

Celacanto provoca maremoto

Esta crônica foi publicada no Caderno Light do jornal A Voz da Serra, de Nova Friburgo, em 13 de julho de 2012. Partindo do caso de uma pichação que provocou uma comoção na cidade do Rio, falo sobre Arte Urbana, a eterna discussão “grafite x pichação” e como tudo isso é importante para as cidades onde ideias ainda fervilham. O texto estava completamente esquecido nos meus arquivos e nunca foi publicado aqui no blog.

A propósito, vocês sabem o que é um Celacanto?

oOo

Imagem: Carlos Emerson Junior

A Voz da Serra

Corria sem novidades o ano de 1977 quando, da noite para o dia, muros e fachadas de prédios acordaram pichados com esse aviso, de uma certa forma sinistro para quem mora à beira-mar. Maremoto, como assim? E o que é um celacanto? Se fosse hoje seria moleza, bastava dar uma googlada, mas na época só consultando a vetusta Enciclopédia Barsa e mesmo assim ainda ficaria a dúvida: celacantos realmente provocam maremotos?

A frase enigmática foi criada pelo hoje jornalista Carlos Alberto Teixeira, o CAT, uma das feras do falecido Caderno de Informática do jornal O Globo, junto com a Cora Rónai e B.Piropo. Ele tinha na época 17 anos e se inspirou em um episódio do seriado japonês “National Kid”, onde um cientista adverte um grupo de garotos para nunca se aventurarem nas profundezas do oceano, já que o celacanto, quando enfurecido, emite grandes ondas de ódio, podendo revolver o mar.

O sucesso da pichação foi tão grande que um hacker (talvez um dos primeiros do Brasil), invadiu o computador do Instituto Militar de Engenharia (IME), alterando a função raiz quadrada para a cada dez vezes, depois de efetuar o cálculo normalmente, imprimir a frase mágica: celacanto provoca maremoto. Imaginem o tamanho da onda na tradicional escola militar!

Aliás, muita gente não achou a menor graça na brincadeira, especialmente os proprietários dos imóveis pichados. Apesar do risco de pegar um processo por vandalismo e crime ambiental, ninguém nunca deixou de escalar fachadas de prédios para deixar sua assinatura nas paredes e, convenhamos, alguns edifícios chegam a dar pena, de tão riscados. O celacanto, sem dúvida, popularizou esse, digamos assim, crime.

Mas o assunto aqui não é pichação, celacantos ou maremotos—que hoje em dia viraram tsunamis—e sim Arte Urbana, com letras maiúsculas, é claro. Novamente o Google ensina que “arte urbana, urbanografia ou street art é a expressão que se refere a manifestações artísticas desenvolvidas no espaço público, distinguindo-se das manifestações de caráter institucional ou empresarial, bem como do mero vandalismo”. Sua expressão mais óbvia é o grafite, pelo baixo custo e facilidade para trabalhar sozinho.

No entanto, o uso dos espaços público e privado é muito complicado. É fácil citar a capital fluminense ou cidades europeias como Londres, Barcelona, Berlim, Buenos Aires e New Orleans, por exemplo, onde a arte nas ruas é uma atração turística. Evidente que não é do dia para a noite que a convivência será harmoniosa mas, sem tentar ou conversar, jamais iremos a lugar algum.

15112009001Há alguns anos atrás, acho que em 2009, fui surpreendido com uma instalação muito interessante ao lado da pracinha do Cônego. Alguém, ou algum grupo, simplesmente montou um banheiro ao ar livre, com um vaso sanitário, bidê, caixa de descarga e um suporte para o papel higiênico. Não tenho certeza se a intenção era um protesto, simples irreverência ou uma forma de expressão. Mas aquilo era, sem dúvida, arte urbana. E melhor ainda, audaciosa!

Outra intervenção impressionante, mas desta vez marcada pela dor e a indignação, foram as 2.000 cruzes de madeira fincadas nas areias da praia de Copacabana, em frente ao Copacabana Palace Hotel, simbolizando as vítimas das chuvas da Região Serrana em janeiro de 2011. Organizado por associações de moradores como um protesto, não deixou de cumprir sua função, impressionar e chamar atenção para a nossa tragédia.

GilsonAlguns tapumes de obras e os antigos quiosques da Alberto Braune foram premiados com versos do Gílson, poeta urbano que zanzava pelas cidades do estado do Rio, sempre escrevendo com giz. E ninguém apagava! Lembro dos Misantropos, aqui mesmo de Nova Friburgo, com suas tiradas irônicas e oportunas, destacadas em alguma parede isolada. E na capital um profeta genial nos ensinou que “gentileza gera gentileza”! Hoje, suas frases pintadas nos pilares da Avenida Perimetral estão tombadas.

A professora Sonia Jobim ensina que “cultura é o conjunto de atividades e modos de agir, costumes e instruções de um povo. Cultura é um processo em permanente evolução, diverso e rico. É o desenvolvimento de um grupo social, uma nação, uma comunidade; fruto do esforço coletivo pelo aprimoramento de valores espirituais e materiais. É um conjunto de fenômenos (língua, costumes, rituais, culinária, vestuário, religião, etc.) em permanente processo de mudança.”

Podemos pensar em uma cultura friburguense? Sem dúvida e digo mais, pela nossa formação histórica, onde se misturam povos tão distintos que vão dos suíços aos japoneses, muito rica. O que somos hoje, bem ou mal, vem daí. Lembro-me que a Nova Friburgo que conheci comemorava a data nacional de cada uma de suas colônias e era pródiga em festas temáticas, culturais, ambientais e religiosas, que atraiam visitantes de todo o Brasil.

Temos um teatro municipal, grupos e centros de artes, feiras de artesanato, biblioteca, duas bandas centenárias, jogos florais mas… Sabem do que sinto falta? Do artista de rua, o músico mostrando suas canções numa calçada qualquer, a trupe de palhaços encantando crianças em uma praça, um grupo de jovens fechando o trânsito repentinamente com um bem-humorado flash mob, um muro lindamente grafitado.

Quando ouço a garotada friburguense reclamando, com toda a razão, das pouquíssimas opções de lazer de nossa cidade, não tenho como não me lembrar de Mick Jagger cantando “mas o que um rapaz pode fazer, a não ser cantar em uma banda de rock, porque na cidade sonolenta de Londres, não há lugar para um lutador nas ruas”. Pois é, precisamos com urgência de um adolescente de 16, 17 anos, que acredite que o celacanto ainda pode provocar, vá lá, uma tsunami!

As cidades são vivas e, como os seres humanos, precisam se renovar. Os meninos do GAM e seus megafones têm feito um barulhão, mas precisam de companhia! Com boa vontade e muita criatividade, podemos imaginar uma Nova Friburgo remoçada e repaginada, um lugar onde moços e moças tenham, além de música, diversão e arte, prazer e orgulho de aqui morarem.

E aí pessoal, vamos para as ruas?

Fila do banco

A Voz da Serra

Dobrou o jornal, passou a mão na papelada, suspirou resignado e lá se foi para a primeira tarefa do dia: pagar um monte de contas, quase todas atrasadas. Bem feito, ia gastar mais e perder a manhã na agência bancária!

A fila até era pequena mas todos os três caixas estavam ocupados. Ignorando a proibição, tirou o celular do bolso para brincar com o joguinho de fé, a velha e boa paciência. E com o dedão no teclado se desligou do mundo.

Acordou, ou melhor, caiu em si quando uma das caixas levantou a voz para o cliente:

– Eu vou ter que repetir? O senhor não fez reserva e assim não dá pra liberar essa quantia. Não é uma questão do banco ter ou não numerário, acima desse valor só com reserva. O senhor sabe muito bem disso.

– Escuta aqui, moça, eu sou cliente antigo, preciso sacar agora mesmo e não vou sair daqui enquanto não receber meu dinheiro.

– Não, o senhor tem que subir e falar com a gerente de sua conta. Eu não tenho sequer esse valor disponível.

– Não subo e não saio enquanto meu dinheiro não sair!

Caramba, a coisa estava descambando. Os dois discutiam em voz alta e a funcionária digitava alguma coisa nervosamente em pé. Seu cliente, um tipo comum, baixinho, já por volta dos cinquenta, encostou-se no balcão sem a menor intenção de arredar o pé.

Guardou o celular, afinal, aquilo estava mais interessante do que a paciência. Um segurança e uma supervisora juntaram-se à discussão que já chamava a atenção de todo mundo dentro da agência.

O baixinho continuava irredutível: a gerente da conta que viesse até ele!

– O senhor sabe muito bem que é norma do Banco Central. Saques muito altos tem que ser solicitados de véspera. Aliás, na sexta-feira o senhor cumpriu os procedimentos sem nenhum problema. Não podemos fazer nada.

– Daqui não saio, daqui ninguém me tira. Conhece a música ? Claro que não. E nem adianta vir se chegando com esse segurança feioso aí que eu chamo a polícia!

Impasse total. Coçou a cabeça e começou a considerar a ideia de procurar outro banco para fazer os pagamentos. Aquilo estava ficando estranho. Os outros caixas, envolvidos na discussão, não pareciam notar na fila que crescia, formada por pessoas cada vez mais irritadas.

Até que…

Bom, de repente, do nada, surge uma senhorinha, dessas bem pequeninas que andam pelo centro de Nova Friburgo, conhecem todo mundo, sempre com um sorriso no rosto. Nas mãos trazia três rosas vermelhas e um pacotinho verde. Pediu licença, passou para a frente da fila e, como uma figura de filme cabeça italiano, entregou as rosas, uma para cada funcionária dos caixas. Parou em frente ao baixinho e colocou o pacotinho em suas mãos, falando:

– Meu querido, o dia está lindo, o sol brilha, não está frio, uma beleza, e você perdendo seu tempo aqui dentro, discutindo com essa jovem bonita por uma bobagem! Olhe seu rosto, está cheio de rugas, um rapaz tão distinto. Notou que os olhos da mocinha que está lhe atendendo estão marejados de lágrimas?

– Eu acho que a senhora não enten…

– Entendi sim, meu filho, estou vendo uma pessoa boa com ódio de uma outra pessoa que só está trabalhando. Você está esquecendo que ela não é a dona do banco. Vamos conversar, vá lá falar com a gerente e, por favor, nunca se esqueça que um bom dia e um sorriso abrem mil portas.

O baixinho olhou sem graça para a caixa, como que pedindo ajuda. A moça, visivelmente emocionada pediu que ele a acompanhasse até a gerência, no segundo andar. E, para satisfação de todos, a fila finalmente andou.

Pois é… algumas histórias só tem final feliz em crônicas.

Pedras que rolam

Foto: Carlos Emerson Junior

A Voz da Serra

Quando Muddy “Mississipi” Waters”, o genial bluesman norte americano escreveu, em 1950, os versos de uma canção, contando que sua mãe, antes dele nascer, dizia que “I got a boy child’s comin, he’s gonna be a rollin stone, sure ‘nough, he’s a rollin stone” (vou dar à luz um menino, ele será um rollin stone, com certeza, ele será um rollin stone), jamais pensou que batizaria uma das maiores bandas de rock que já existiu.

A expressão “rollin stone”, nesse caso, não deve ser traduzida ao pé da letra e sim como alguém sem rumo, moradia, um vagabundo ou até se preferirem, revolucionário. Os Rolling Stones, ou melhor Keith Richards, Mick Jagger, Brian Jones, Byll Wyman e Charlie Watts, com sua atitude completamente rock de ser e sua música de raízes negras, sempre fizeram jus ao seu nome.

Os anos 60 mal tinham começado e o rock era a grande novidade, o contraponto à guerra fria que dividiu o mundo entre bons e maus. Os Beatles, é claro, eram seus astros principais. Por volta de 63 ou 64, nem lembro mais, comprei meu primeiro compacto duplo (para a garotada de hoje, era um disquinho de vinil, com quatro músicas, duas de cada lado) do grupo de Liverpool. A estreia do seu filme “A Hard Day’s Night”, infamemente traduzido como “Os Reis do Iê-iê-iê”, catalizou todas as atenções da juventude da época.

Conheci os Rolling Stones através de uma prima que ganhou e detestou o álbum “12×5”, lançado nos States em outubro de 1964. Aliás, também foi o meu primeiro contato com o então chamado “disco importado” e seu vinil com com quase o dobro da espessura dos Lps fabricados pela extinta Odeon. Sua qualidade de som era brilhante mas, o que me pegou mesmo foram preciosidades como “Around and Around” do Chuck Berry e a pungentes “Time Is On My Side” e “If You Need Me”.

Para melhorar, Mick Jagger declamava parte de algumas canções, sem perder o ritmo ou soar estranho. Caramba, aquilo era muito melhor que os Beatles! Musicalmente talvez fossem até parecidos, mas aqueles rocks tinham alma, não eram simples canções tolas de amor, como o próprio Paul McCartney confessaria mais tarde.

Daí para a frente a paixão pelos Stones foi num crescendo. Minha prima ganhava os Lps e nem ouvia mais, passava direto para mim. Assim comecei minha discoteca com “Out of Our Heads” e a inacreditável “Satisfaction” ao até hoje mal compreendido “Their Satanic Majesties Request”, de 1967, com a foto da capa em três dimensões, atualmente um item de colecionador.

Nem preciso falar das confusões que arrumava com esse – digamos assim – lado “Stone”. Para começar, dizia para quem quisesse (ou não) ouvir, que os Rolling Stones eram muito melhores que os Beatles. Lembro que o Laerte, um grande amigo da escola, beatlemaníaco de carteirinha, brigou feio e quis acabar a amizade quando afirmei que “Satisfaction” era muito melhor que “Help!”.

Os Stones foram uma abertura para mim. Através deles descobri uma música negra americana efervescente, conheci o R&B, Blues, Soul e, por consequência, o Jazz. Aprendi a tocar violão, baixo e alguma coisa no piano. Comecei a compor melodias para letras dos amigos e, é claro, entrei em um dos centenas de conjuntos musicais que tocavam rock nos apartamentos de classe média de Copacabana.

Mas infelizmente, a vida não é só música e com a escalada da guerra do Vietnã, o crescente inconformismo diante do status quo e a situação política do Brasil cada vez mais complicada, o foco da minha geração foi mudando. Todos nós, principalmente os estudantes, estávamos diante de uma ruptura que marcaria para sempre nossas vidas, de uma maneira ou outra As canções agora eram cantadas em português, sempre com um recado nas entrelinhas.

No dia 3 de julho de 1969, o guitarrista Brian Jones foi encontrado morto em sua residência, na Inglaterra, por motivos até hoje meio obscuros. O controle da banda passou para a dupla de compositores, Jagger e Richards. Os trabalhos seguintes, ainda com gravações antigas de Jones renderam bem mas, após “Exile On Main St.”, de 1972, alguma coisa se perdeu e a graça se foi. Mudaram os Stones, eu mudei, o mundo mudou.

Em 1967 quatro rapazes de Cambridge entravam no lendário Abbey Road Studios, em Londres, sob a liderança de um maluco genial para gravar seu primeiro e antológico álbum, “The Piper at the Gates of Down”, com forte influência da música psicodélica dos últimos trabalhos dos Beatles e Rolling Stones. O sucesso e o prestígio que o Pink Floyd conseguiu com seu disco de estreia, abriu caminho para um novo tipo de rock, cerebral, introspectivo e técnico, que exigia ótimos músicos, criatividade e muitas horas em bons estúdios de gravação.

Nascia ali o Rock Progressivo, minha próxima paixão. Já os Rolling Stones continuam até hoje a sua saga, mesmo (ou apesar de) setentões e bem castigados pelos excessos. Mas cinquenta anos depois, seus concertos ao vivo pelo mundo todo, com uma energia inacreditável, provam que o poeta gaulês Dylan Thomas sabia o que estava falando, quando um dia cantou que as pedras que rolam não criam limo! Muddy Waters, com certeza, aprovaria.

Foto: Carlos Emerson Jr.

Fiat Elba

A Voz da Serra

– Não foi por causa de uma Fiat Elba que aquele presidente foi afastado?

– Hum… Na verdade foi um problema com corrupção, falta de apoio no Congresso Nacional e…

– Não, não, a acusação que vingou mesmo, o motivo técnico para a cassação foi a Fiat Elba!

– Bom… É, tem razão, mas isso foi apenas um detalhe, a coisa era maior.

– Tinha uma Fiat Elba, é o que importa.

– Mas importa como, foi uma comoção nacional, esqueceu?

– Importa prá mim! Prova que existiu uma praga em cima dos donos desse carro.

– Ah, para com isso. Onde já se viu “praga de automóvel”?

– Existe sim. Eu mesmo nunca acreditei nessas coisas e olha que já tive latas velhas até da Lada, você lembra, não é mesmo?

– Lembro sim, mas aí não foi praga e sim burrice…

– Foi mesmo, confesso. Mas garanto que o único carro de que me desfiz com prazer foi a Fiat Elba. Aliás, minto, com prazer não, apavorado.

– Caramba!

– O pior é que foi meu primeiro carro zero quilômetro. Comprei logo que foi lançado, no final da década de 80. Era uma bela perua prata, com tudo o que tinha direito. E o motor não era essa coisa tosca de 1000 cilindradas não, era um bom e forte 1.5 a gasolina.

– Mas…

– Espera e ouve: ela nunca deu um defeito sequer. Valente, andava rápido e macio. Quebrava o maior galho, já que minhas filhas ainda eram pequenas e qualquer saída era aquela tralha para transportar. Em resumo, era o veículo ideal. Mas meu amigo, o bicho pegou.

– Tô ouvindo.

– Logo de cara, com uns dois dias de uso, minha mulher estacionou na garagem da clínica, como habitual. Uma meia hora depois apareceu o responsável pelo estacionamento, apavorado. Um advogado foi manobrar um Opalão e entrou em cheio na lateral da Elba. Tá bom, o homem arcou com todas as despesas e ficou novinho. Mas já era um aviso.

– Pera lá, acidentes acontecem e outra coisa, você não faz seguro?

– Claro que faço, pô! Mas a história ainda não acabou. Um mês depois, de novo minha mulher tranquila no ambulatório e entra o mesmo zelador do mesmo estacionamento. Acontece de novo, só que desta vez não foi um advogado e sim um engenheiro.

– Oquié isso, sô?

– Pois é! A seguradora bancou o conserto e nós começamos a ficar com um pé atrás… Uns quinze dias mais tarde fomos passear no interior de São Paulo e aí foi comigo: numa rua tranquila de uma cidadezinha, em plena reta, bati com a roda dianteira do lado direito na única pedra do meio-fio que estava desalinhada, sei lá porque motivo. Perdi o pneu, a roda e ainda tive que consertar a suspensão daquele lado. Não chovia, não tinha ninguém na rua ou algum carro perto e juro que não dormi ao volante, até porque a Elba estava cheia de crianças fazendo a maior algazarra.

– Tô pasmo…

– Tem mais. Depois de morrer numa roda, pneu e oficina voltamos para Nova Friburgo por Petrópolis para almoçar num restaurante do tipo alemão, cujo nome já nem me recordo. Era um dia de semana e o local estava completamente vazio. Bem na entrada havia uma vaga enorme, acho que dava para uns cinco veículos, sem exagero.

– E…

– E… enfiei a lateral da desgraçada da perua no único poste que tinha na calçada. Levei um baita susto, custei a entender o que tinha acertado. Puxa vida, até hoje fico me perguntando o que aquele poste foi fazer ali! O para-lama da parte traseira afundou, tal o impacto.

– A maior barbeirada, cara, não sabe colocar o carro numa vaga?

– Muito engraçado! No final de semana seguinte meu cunhado precisou do carro para levar alguma coisa para algum lugar, sei lá.

– Você contou essas histórias para ele?

– Sem dúvida. No dia seguinte ele aparece lá em casa com uma cara horrorosa, agradecendo a gentileza e contando mais uma de amargar.

– Bateu?

– Pior, quase morreu! Quando chegava em casa, um ônibus colou na traseira da Fiat. Ele achou estranho, já que só tinham os dois na rua. E continuaram assim, em alta velocidade até o final da rua, quando ele conseguiu escapar um pouco do maluco e virou para a direita de qualquer maneira. Subiu na calçada, cantou pneu, foi um escândalo, mas escapou do maníaco do ônibus. Depois de terminar de tremer, foi me devolver a bomba, digo a Elba.

– E aí?

– Aí? Ficamos com medo, acabamos vendendo a infeliz e juramos nunca mais sequer olhar para uma outra. Logo depois, em 90, 91, sei lá, o presidente cai por causa dessa perua. Vê se pode!

– Mas o problema do presidente não foi esse…

– Não interessa. Quem mandou se meter com uma Fiat Elba?

Casos cariocas, segunda parte

A Voz da Serra

– Motorista este ônibus tem banheiro?

– Tem sim, minha senhora, fica lá no fundo…

– Tem que ter banheiro. Eu paguei a passagem e quero meus direitos, o banheiro e… cadê o ar condicionado, não tem ar no ônibus? Eu paguei!

– O ar só pode ser ligado quando o carro sair da plataforma, dona, são ordens da prefeitura.

– É bom que seja isso mesmo, senão vou dar queixa na empresa. Isso é um absurdo. A
gente já embarca tensa, tendo que reclamar de tudo.

– Tá certo e boa viagem, dona!

– E mais essa… Minha filha quais são as poltronas?

– A dois e a quatro, mãe.

– Então por que esse sujeito está sentado no meu lugar? Sai daí seu enxerido.

– Opa, essa aqui é a poltrona um, minha senhora.

– Eu não estou falando? Minha filha, quer dizer que você comprou assentos separados e ainda por cima ao lado desse grosseirão?

– É mãe, comprei…

– Minha senhora, não seja por isso. Eu troco de lugar com sua filha e vocês duas ficam
juntas.

– Ora, ora, o grosseirão até que é esclarecido. Então sai daí, moço!

– Dona, grosseirão é a sua… Deixa prá lá, com licença.

– Motorista, eu estou morrendo de calor, esse ônibus sai ou não sai? E liga o ar!

– Só ao meio-dia, dona, aí eu ligo, já falei.

– Puxa mãe, está frio, as pessoas estão de casaco, não vai nem precisar de ar
condicionado…

– Cala a boca, coisa inútil. É uma questão de direito: eu paguei e exijo usar. E vai logo ver se tem banheiro mesmo nesta porcaria.

– Mas mãe…

– Vai lá, não discute.

– Dona, tem banheiro sim, mas ainda dá tempo da senhora usar o da rodoviária.

– Não pedi sua opinião!

– Eita!

– Por que será que aquela inútil da minha filha está demorando?

– Mãe, tem banheiro sim. E acabei de me lembrar de que não comi nada. Será que dá tempo para almoçar ali no barzinho?

– Senta aí sua desnaturada. Para de falar besteira. Se eu sair daqui vem outro grosseirão rouba o lugar ou a minha mala. Fica quieta. E você está muito gorda para ficar comendo toda hora. Motorista, olha a hora. E vê se liga essa droga do ar condicionado logo que eu não aguento mais de calor!

A viagem prometia…

oOo

A festinha infantil seguia animada e alegre no salão de festas do prédio de um casal amigo. A criançada assanhadíssima corria para cá e para lá e, quando um deles arranjou uma bola de futebol, a coisa ficou meio caótica. A dona da casa, querendo salvar o que ainda restava de suas mesas decoradas com o tema da festinha, implorava para que um dos pais tomasse qualquer providência.

De repente, alguém desvia a bola em nossa direção. Para nosso espanto o Rui, um modelo de elegância, discrição e sobriedade, faz o improvável, dá um bicão de direita e sai gritando: – Goooollllll!!!!! Gooolllllll! MEU SAPATO! Alguém pega o meu sapato! Isso mesmo, seu impecável mocassim de couro, caro prá burro, decolou do playground e aterrissou aos trambolhões no telhado da casa ao lado.

Meus queridos, um gol de placa! Já o Rui… Bom, os moradores da casa só voltariam no dia seguinte. Pular o muro e subir no telhado estava fora de cogitação, vai que algum vizinho chamasse a polícia… O remédio era torcer para não chover e que nenhum gato gostasse de morder mocassim. Alguém gentilmente cedeu um par de havaianas e o aniversário seguiu sem maiores problemas. Uma sapatada para não ser esquecida.

Foto: Carlos Emerson Junior

E o desapego, como fica?

 

Desapego. Substantivo masculino, nos dicionários significa falta de apego, afeição, desamor, desinteresse, indiferença. Desprendimento diante das coisas superficiais, das vaidades em detrimento de fatos importantes e que fazem sentido a vida. Saber dividir e compartilhar.

Pois é, mas… sei lá, essa definição é muito econômica! O budismo ensina que “quem a tudo renuncia jubiloso, alcança, já agora, a mais alta paz do espírito; mas quem espera vantagem das suas obras, é escravizado pelos seus desejos”. É aquela velha questão, o problema não é ter uma Ferrari na garagem e sim achar que precisa de uma!

Vivemos tempos onde o único objetivo parece ser o consumo, fonte de prazer disponível em cada shopping do bairro ou nas lojas eletrônicas da internet, convenientemente parcelado em 12 vezes sem juros. E piorou depois que o Steve Jobs nos convenceu que seus gadgets são essenciais, mesmo que ninguém realmente precise deles.

Pois é, aqui estou eu tentando falar de desapego mas é bom vocês saberem que já tive três carros na garagem, uma coleção com mais de mil bolachões de vinil nas estantes, aparelhos de som de todos os tipos, montanhas de livros e o péssimo hábito de trocar de celular a cada lançamento, o que deixava a coitada da minha mulher preocupadíssima, esperando virar a bola da vez.

Nem tanto e como gosto de falar, um dia a gente aprende que não dá para nos medir pelos bens materiais a que nos apegamos. Saber viver com o que temos, sem entrar nessa paranoia que a sociedade e a economia ocidental literalmente nos vende diariamente já é um bom começo. Não somos monges ou ascetas mas é importante ter em mente o que realmente vale.

*****

Se conhecemos o caminho para praticar o desapego material, o mesmo não podemos afirmar do desapego ao poder. Para começar, basta um olhar mais atento para o nosso quadro político e perceber que, apesar do regime democrático, ignoramos ou permitimos a criação de mecanismos que perpetuam os nomes e grupos de sempre. Políticos desapegados existem, sem dúvida, mas são tão poucos que chegam a ser considerados figuras excêntricas.

O poder é inebriante, contagia e vicia. Aliás, sejamos sinceros, qualquer poder, não apenas o político! De novo a filosofia oriental ensina que todos nós somos líderes: se não temos uma empresa, temos uma família. Se não temos uma família, temos a nossa própria vida e, em última instância, o relacionamento com nós mesmos. O segredo é como fazemos isso.

Desapego ao poder não é se afastar do fato e sim reconhecer que temos o nosso momento e apenas ele. O grande lance é saber a hora de seguir em frente sem prejudicar ninguém Afirmar, como os políticos adoram, que já fez muito pela população não passa de bravata populista e conversa fiada! Solidariedade não é moeda de troca ou ação marqueteira, é obrigação de qualquer ser humano.

*****

E o lado emocional, fica de fora? Para o Dalai Lama, amor requer desapego, saber que não possuímos ou somos propriedade de outrem. O verdadeiro amor não é apenas um jogo a ser jogado ou uma relação que pode ser contratada em uma escritura de posse. Paixão, respeito, amizade e muita cumplicidade são os ingredientes de uma relação estável e feliz.

*****

Conversando com uma amiga comentei que com a idade a gente fica naturalmente mais desapegado, mas aí bateu a dúvida, será que não são as coisas que não querem mais se apegar a nós? É, confesso que muito vivi e sei muito bem que, ao contrário dos faraós e nobres do Egito antigo, não vou levar ouro, vinhos, joias e escravas nuas para uma sepultura numa pirâmide qualquer, pelo contrário.

Quer um conselho? Desapegue-se!

Antes de sair correndo para comprar um carro novo, pense bem se vale a pena trocar de carro. Aliás, será que você realmente precisa de um carro? E aquele closet cheio de roupas e sapatos, sem uso há pelo menos um bom par de anos, que tal doar para quem necessita? As estantes de sua casa estão abarrotadas de livros, juntando mofo e poeira? Biblioteca neles! A namorada ou namorado controla até a hora do seu banho? Hummm… Desapego nela. Ou nele!

Desapego de verdade é doar uma parte de seu tempo e ler um livro para um cego ou passear com um idoso. Participar de um mutirão de limpeza, como fez o pessoal lá de Nova Friburgo, depois das chuvas de 2011. Manter a capacidade de se indignar com injustiças e não ter medo de defender quem está sofrendo com elas.

Desapego é simplesmente uma questão de humanidade, é ubuntu, como ensinam os africanos. Desapego pode ser até pescar na companhia de uma garça. Desapego é o caminho para a felicidade.

A Voz da Serra, 15/6/2012

Foto: Carlos Emerson Junior

Medo

Quando o escritor moçambicano Mia Couto, um dos mais importantes nomes da moderna literatura na língua portuguesa, leu seu texto “Murar o Medo”, nas Conferências do Estoril, realizadas em Portugal em 2011, tocou na maior ferida da humanidade. Temos medo desde as nossas origens, quando sem luz procuramos abrigo dentro de cavernas contra inimigos reais e imaginários.

A humanidade evoluiu, foi ao espaço, aumentou seu conhecimento e o medo continua lá, sempre a nossa espera. O poder está sempre com quem tem a capacidade de provocar o medo, seja ele físico, moral, espiritual ou psicológico. O medo vence porque ele não tem medo. O medo se basta, é intangível e presumo, infinito. Talvez seja essa a nossa sina, para viver, precisamos temer.

oOo

Existe uma saída contra o medo? Segundo José Saramago, outro grande escritor português, vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 1998, em um artigo publicado na Folha de São Paulo, em 1991, é possível, mas só depende de nós mesmos: basta dizer não!

“A palavra de que eu gosto mais é não. Chega sempre um momento na nossa vida em que é necessário dizer não. O não é a única coisa efetivamente transformadora, que nega o status quo. Aquilo que é tende
sempre a instalar-se, a beneficiar injustamente de um estatuto de autoridade. É o momento em que é necessário dizer não. A fatalidade do não – ou a nossa própria fatalidade – é que não há nenhum não que não se converta em sim. Ele é absorvido e temos que viver mais um tempo com o sim.”

oOo

Texto extraído da crônica publicada no jornal A Voz da Serra, edição de 7 de dezembro de 2012.

Uma queda olímpica

A crônica é antiga, foi publicada no jornal A Voz da Serra, de Nova Friburgo, exatamente no dia 7 de setembro de 2012, mas não fala do nosso ‘Independence Day’ e sim de tombos, quedas, tropeções, escorregadas e tudo o que nos joga no chão, no sentido literal da expressão e sem direito a nenhuma medalha.

Muito pelo contrário…(Carlos Emerson Jr.)

oOo

Uma queda olímpica

Meu sogro, talvez influenciado pelos recém-encerrados Jogos Olímpicos de Londres, esqueceu que está com 80 e muitos anos e resolveu saltar sobre um balde de água que a faxineira esqueceu na porta da cozinha do seu apartamento. O resultado da proeza foi um tornozelo fraturado, quinze dias de molho com um trambolho na perna jocosamente apelidado de robocop e, é claro, sem direito a uma medalha qualquer.

Um grande amigo nosso, médico e professor de primeira linha, gostava de alertar, com a voz grave e a expressão bem séria que, o que mata velho mesmo é um bom tombo. Um belo dia ele mesmo, também idoso, escorregou na escada de casa, quebrou uma clavícula e lá se foi para o hospital. Não é que ele sabia o que estava falando?

Minha mãe, já com quase noventa anos, saiu do boxe após o banho, ignorou o piso molhado e se esborrachou no chão! Para sua sorte, minha irmã estava por lá e correu para ajudar. Incrivelmente ela não fraturou um ossinho sequer e as sequelas foram alguns hematomas e a dignidade profundamente ferida. Imagina se a velha senhora ia aceitar que tinha caído porque não usou o tapete de borracha do banheiro?

Eu também não posso falar nada: após terminar um trabalho no notebook de uma de minhas filhas, resolvi guardar o aparelho. Como a cachorra da casa estava dormindo no corredor, fui tateando no escuro para não acorda-la. A idiotice não deu em outra: pisei em um dos brinquedos da peluda, perdi o equilíbrio e cai de cara no chão. Não me machuquei e nem quebrei o computador, mas tive que aturar dores no corpo e gozações por alguns dias. E olha que eu ainda nem era oficialmente um idoso!

Pois é, casos como esses se sucedem em todos os lugares e todo mundo tem uma ou várias histórias para contar, uma grande parte com um final bem mais triste.

Segundo o Sistema Único de Saúde – SUS, 75% dos acidentes sofridos por pessoas com mais de 65 anos acontecem dentro de casa, sendo as quedas as mais comuns. De fato, 30% dos idosos caem pelo menos uma vez por ano e 75% dentro de sua própria casa. Infelizmente, as quedas também são as maiores causadoras de óbitos, chegando a 70% na faixa etária acima de 70 anos. É importante frisar que 46% das fraturas provocadas por esse tombos acontecem durante a noite, no trajeto quarto-banheiro.

As causas dessas quedas são inúmeras, já que à medida que a idade avança, perdemos nossos reflexos e agilidade, mas em alguns casos, a imprudência também faz suas vítimas. Meu sogrão, logo depois de seu tombo olímpico, cismou que a poltrona do seu computador era mais adequada que a cadeira de rodas recomendada, se empolgou e… caiu novamente, felizmente, desta vez, sem mais nenhum dano físico!

O renomado Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia – INTO publicou o artigo “Queda de Idosos”, (que pode ser lido na internet, no endereço http://bvsms.saude.gov.br/bvs/dicas/184queda_idosos.html), abordando o assunto de forma didática e deixando uma série de sugestões e cuidados para minimizar ou até mesmo evitar os tombos.

Confira algumas:

No quarto:

  • Coloque uma lâmpada, um telefone e uma lanterna perto de sua cama;
  • Durma em uma cama na qual você consiga subir e descer facilmente (cerca de 55 a 65 cm);
  • Os armários devem ter portas leves e maçanetas grandes para facilitar a abertura, assim como iluminação interna para facilitar a localização dos pertences;
  • Dentro do seu armário, arrume as roupas em lugares de fácil acesso, de preferência evitando os locais mais altos;
  • Instale algum tipo de iluminação ao longo do caminho da sua cama ao banheiro;
  • Não deixe o chão do seu quarto bagunçado.

Na sala e corredor:

  • Organize os móveis de maneira que você tenha um caminho livre para passar sem ter que ficar desviando muito;
  • Mantenha as mesas de centro, porta revistas, descansos de pé e plantas fora da zona de tráfego;
  • Instale interruptores de luz na entrada das dependências de maneira que você não tenha que andar no escuro até que consiga ligar a luz. Interruptores que brilham no escuro podem servir de auxílio;
  • Ande somente em corredores, escadas e salas bem iluminadas;
  • Mantenha fios de telefone, elétricos e de ampliação fora das áreas de trânsito, mas nunca debaixo de tapetes;
  • Coloque nas áreas livres tapetes com as duas faces adesivas ou com a parte de baixo não deslizante;·.

Na cozinha:

  • Limpe imediatamente qualquer líquido, gordura ou comida que tenham sido derrubados no chão;
  • Armazene a comida, a louça e demais acessórios culinários em locais de fácil alcance;
  • As estantes devem estar bem presas à parede e ao chão para permitir o apoio do idoso quando necessário;
  • Não suba em cadeiras ou caixas para alcançar os armários que estão no alto;
  • A bancada da pia deve ter de 80 a 90 cm do chão para permitir uma posição mais confortável ao se trabalhar.

Na escada:

  • Não deixe malas, caixas ou qualquer tipo de bagunça nos degraus;
  • Interruptores de luz devem estar instalados tanto na parte inferior quanto na parte superior da escada. Outra opção é instalar detectores de movimento que fornecerão iluminação automaticamente;
  • A iluminação deverá permitir a visualização desde o princípio da escada até o seu fim, assim como as áreas de desembarque;
  • Remova os tapetes que estejam no início ou fim da escada;
  • Coloque tiras adesivas antiderrapantes em cada borda dos degraus;
  • Instale corrimãos por toda a extensão da escada e em ambos os lados. Eles devem estar em uma altura de 76 cm acima da escada.

No banheiro:

  • Coloque um tapete antiderrapante ao lado da banheira ou do box para sua segurança na entrada e saída;
  • Instale na parede da banheira ou do box um suporte para sabonete líquido;
  • Instale barras de apoio nas paredes do seu banheiro;
  • Mantenha algum tipo de iluminação durante as noites;
  • Use dentro da banheira ou no chão do box tiras antiderrapantes;
  • Ao tomar banho, utilize uma cadeira de plástico firme com cerca de 40 cm, caso não consiga se abaixar até o chão ou se sinta instável.

*****

Já estava colocando o ponto final na crônica quando minha irmã telefonou para contar que a mãe de uma amiga, uma senhorinha simpática e independente, foi atender o interfone do apartamento, se enroscou com o cachorrinho de estimação e caiu no chão, fraturando o fêmur. Como diziam antigamente nos filmes de suspense, o perigo está sempre à espreita e vem de onde menos se espera.

Como prevenção não custa nada, que tal dar uma checada na sua casa? A turma da terceira idade agradece.

A Voz da Serra (7/9/2012)
Fotografia: Eddie Keogh/Reuters

Vamos ler um livro

 

Os números divulgados pelo Instituto Nacional do Livro são desalentadores: o brasileiro lê, em média, quatro livros por ano, mas só consegue levar apenas dois até o fim! A pesquisa feita pelo Ibope Inteligência mostra que as mulheres (57%) leem bem mais do que os homens (43%) e que 75% dos entrevistados nunca entrou em uma biblioteca.

Ao contrário do que acreditamos, a maior parcela de não leitores são adultos, na faixa dos 30 aos 69 anos. Assistir televisão continua sendo a atividade preferida e foi escolhida por 85% dos entrevistados. Em seguida vem escutar música ou rádio (52%), descansar (51%) e reunir-se com amigos e a família (44%). A leitura aparece no sétimo lugar dessa lista.

Enquanto o percentual de entrevistados que declara gostar de ler cai, o grupo dos que aproveitam o tempo ocioso para acessar a internet subiu de 18% para 24%. A pesquisa também identificou um novo comportamento que não estava no estudo anterior: o acesso às redes sociais, indicado por 18% como atividade frequente.

A principal razão apontada por aqueles que diminuíram o volume da leitura foi o desinteresse (78%), o que inclui a falta de tempo, a preferência por outras atividades e a “falta de paciência para ler”. Apenas 4% apontaram a dificuldade de acesso aos livros como motivo para ler menos, o que inclui o preço do livro, a falta de bibliotecas perto de casa ou de livrarias.

Entre os participantes, 64% concordaram totalmente com a afirmação “ler bastante pode fazer uma pessoa vencer na vida e melhorar sua situação econômica”. Ao mesmo tempo, a maior parte diz que não conhece ninguém que tenha progredido na vida por ler muito. Essa doeu…

Entre os livros mais lidos, a Bíblia foi citada por 42% e manteve-se no primeiro lugar, mesma posição ocupada na edição anterior da pesquisa, em 2007. Os livros didáticos foram nomeados por 32%, os romances por 31%, os livros religiosos por 30% e os contos por 23%. Cada entrevistado selecionou em média três gêneros.

Bom, até aí morreu o Neves, como se dizia antigamente. Afinal, pelo que me lembro, nunca tivemos mesmo a fama de bons leitores. Mas confesso minha surpresa ao saber que 70% dos entrevistados nunca ouviram falar dos livros eletrônicos ou digitais, que podem ser lidos em computadores, tablets e até em smartphones.

Aliás, nesse setor, praticamente ainda nem demos a partida: dos 30% que já ouviram falar em e-books, 82% nunca leram um livro eletrônico. De acordo com o levantamento, as pessoas que têm acesso aos livros digitais ou leram pelo computador (17%) ou pelo celular (1%). A maioria dos leitores (87%) baixou o livro gratuitamente pela internet, enquanto outros 38% piratearam os livros digitais, um péssimo sinal…

Os livros digitais são mais populares entre o público de 18 a 24 anos. A maioria dos leitores de e-books pertence à classe A e tem nível superior completo. De acordo com a pesquisa, 52% dos leitores são mulheres e 48% homens.

Pois é, a pesquisa é importante e útil, mas não explica porque estamos lendo cada vez menos. O escritor Affonso Romano de Sant’Anna, em um artigo para a UNESCO/PUC-Rio, acredita numa crise do livro, cujos principais aspectos seriam editoriais (disputa de um mercado mínimo com vinte ou trinta milhões de leitores,), livrarias (temos uma para cada 64.255 habitantes, quando a UNESCO recomenda uma para cada dez mil pessoas), ensino, autores e bibliotecas (o mesmo problema das livrarias, apesar dos recentes esforços para colocar pelo menos uma em cada município).

Não é uma questão puramente econômica, afinal, o poder aquisitivo do brasileiro melhorou e o consumo disparou. Ironicamente, talvez essa riqueza e a inclusão digital que colocou 200 milhões de celulares nas mãos dos brasileiros e permitiu a abertura de um sem número de lan houses pelo Brasil afora, possa ser um alento, atraindo novos leitores e, principalmente, autores.

O professor de Língua Portuguesa Sérgio Nogueira afirma que o melhor a fazer é incentivar o hábito da leitura o mais cedo possível. Para colocar isso em prática, o papel dos pais é fundamental, já que o exemplo dado em casa é o mais importante. Atividades como ler juntos, levar o filho à livraria e apresenta-lo a uma biblioteca, para que ele mesmo possa escolher os livros que quer ler, são simples e deixam raízes.

Hoje em dia, além de ser mais fácil publicar um livro, você ainda pode contar com os blogs, redes sociais e sites literários para compartilhar suas ideias e trabalhos. Novas editoras têm procurado formas ousadas e rentáveis de bancar livros de todos os gêneros, a um custo razoável. Alias, tem até quem julgue que um dos problemas seria o excesso de autores, uma maldade, é claro!

Devemos sempre ter em mente que o crescimento do cidadão passa obrigatoriamente por uma boa educação. Os livros, sejam em que formato for, são essenciais para a transmissão de conhecimento e aprendizado. Manter viva sua função e disponibiliza-los para todos os brasileiros é o nosso grande desafio. Afinal, quanto mais pessoas tiverem acesso e interesse nos livros, melhor será a nossa sociedade.

A Voz da Serra, 20/4/2012

A crônica da semana

Publicado no A Voz da Serra

Escrever dá trabalho. Aquela famosa frase de Albert Einstein (também atribuída a Thomas Edson, Pablo Picasso ou Paul Valéry) de que a criação é 10% inspiração e 90% transpiração está certíssima. Dependendo do trabalho, os números podem variar entre 5 e 95% ou 1 e 99%, mas com certeza qualquer pessoa que resolva escrever alguma coisa, nem que seja uma simples redação, vai transpirar muito.

Aliás, dizem que o cientista e inventor austríaco, Nikolai Tesla fez uma blague a respeito: “se o senhor Edison tivesse trabalhado de forma mais inteligente, não teria de suar tanto”. Será possível que Tesla não suava? O homem foi o pai da engenharia eletrônica! Brincadeiras à parte, se boas ideias são raras, difícil mesmo é colocá-las em prática. Escrever não diferente.

Uma vez um amigo perguntou qual a minha receita para escrever as crônicas que são publicadas aqui no A Voz da Serra. Ora, meu caro, não existe receita de bolo, cada um tem os seus próprios métodos. Gosto de deixar a imaginação fluir, usar a memória, ler, conversar e, principalmente, prestar muita atenção ao que acontece à minha volta. A propósito, Ernest Hemingway dizia que “se um escritor deixa de observar, está liquidado”.

Uma simples crônica, como esta aqui, tanto pode nascer de uma palavra solta, ao acaso, fluindo de maneira perfeita entre o cérebro e o teclado do computador ou surgir lentamente, desde a escolha do assunto, o seu interesse, a elaboração e fluidez do texto, o uso da gramática correta até, é claro, a sua inteligibilidade. Depende do momento, sei lá.

Escrever exige pesquisa, tempo, atenção, disciplina e honestidade. Para mim significa basicamente ver, processar e informar. Aliás, informação, meus caros, nas mãos erradas pode ser uma arma muito perigosa. É bom lembrar que quem vence as guerras escreve a sua verdade e não necessariamente a verdade, não é mesmo?

Não podemos nos esquecer que liberdade de expressão é o suporte vital de qualquer democracia, bem como o direito à informação. Esconder, mentir, ou sonegar informações, ainda mais envolvendo a segurança do cidadão e seu patrimônio, deveria ser um crime hediondo. E falando nisso, muito cuidado com meias verdades, a arma dos covardes.

*****

Crônica é um gênero narrativo. O escritor e jornalista Moacir Amâncio garante que a crônica, oficialmente, não existe e qualquer tentativa de enquadrá-la, não é recomendável. Inconstante, descompromissada e libertária, a crônica é avessa a regras e incompatível com camisas-de-força. Quando perguntaram a Rubem Braga, um dos maiores escritores do gênero, o que era a crônica, ele respondeu: “Repare bem, se não é aguda é crônica!”

Sempre gostei de ler crônicas. Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Joel Silveira, Nélson Rodrigues, Carlos Heitor Cony, Carlos Eduardo Novaes, Ivan Lessa, Cora Rónai, Luiz Fernando Veríssimo, Martha Medeiros, Otto Lara Resende, Sérgio Porto e o nosso saudoso Augusto Muros, entre tantos outros, tem sido ótimos companheiros nas aventuras e desventuras do dia a dia.

O cronista é um contador de casos, verídicos ou não. Alguns acham que não passa de um palpiteiro, o que não deixa de ser verdade. Eu mesmo me policio para não sair metendo o bedelho por aí, mas é uma tentação, confesso! De qualquer maneira, a crônica não é jornalismo e sim uma visão pessoal das notícias que você lê no mesmo jornal ou revista onde é publicada e se você tiver credibilidade, logo estará criada a empatia com o seu leitor.

*****

Escrever é um dom? Se você estiver pensando em alguém tipo um Mozart, que aos quatro anos de idade já havia composto uma sinfonia, pode esquecer. Gênios são raros. É claro que a habilidade é importante mas sem muito estudo e uma grande convivência com a escrita, nada feito. Infelizmente o mais comum é a alegação da falta desse dom para deixar de colocar boas ideias no papel.

Qualquer pessoa sempre tem algo a dizer, mas poucos se atrevem a escrever e se expor. Afinal, como ensinava Clarice Lispector, “escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada”.

Supersticioso, eu? Imagina!

Publicado no A Voz da Serra

Foi só contar na crônica “Bobagens”, publicada na coluna do Light da semana retrasada, que quase embarquei em um avião com um livro sobre acidentes aéreos embaixo do braço e logo chegaram comentários e mensagens, a maioria indagando o que é que eu tenho na cabeça. Pois é, meus caros leitores, a essa altura da vida, acho melhor nem pensar nisso. No entanto, concordo com vocês, superstição é uma coisa muito séria.

A querida amiga Yvone Dimanche puxou o assunto em uma rede social: “- pois vou te contar uma. Minha mãe faleceu há dez anos. Até hoje eu não consigo ver um chinelo virado que eu fico aflita. Não sei se você conhece a superstição, mas chinelo virado é morte certa para a mãe. Vá entender.” Credo, essa realmente eu não conhecia!

Superstição, ensina a internet, é a crença baseada na ideia de que determinadas atitudes, números ou palavras trazem azar ou sorte. Pode ser pessoal, religiosa ou cultural e todo mundo tem a sua, mesmo que não admita publicamente. Se deixar a bolsa no chão vai perder dinheiro, nunca passe por baixo de uma escada, quebrou um espelho ganha sete anos de azar e ficar se admirando em um espelho quebrado, aí danou tudo, perde a própria alma.

Tem mais, muito mais. Nunca abra o guarda-chuva dentro de casa, não acenda três cigarros com o mesmo palito (aproveite e pare de fumar, é mais saudável), crianças que montam em vassouras serão infelizes e nunca varra a casa durante à noite, você vai espantar a tranquilidade. Nunca entre em qualquer ambiente com o pé esquerdo, jamais misture leite com manga e lembre-se, só saia da cama com o pé direito.

O mais curioso é que, apesar da aparência repugnante e do medo que provocam, aranhas, grilos e lagartixas representam boa sorte para o lar. Aliás, matar uma aranha causa infelicidade no amor, sabiam? Os coitados dos gatos pretos também foram reabilitados. Se um deles entrar em sua casa, é sinal que você vai ganhar uma bolada (de dinheiro, que fique bem entendido).

As empresas de aviação, como todas as outras grandes corporações, também tem suas manias, embora nenhuma delas admita. A holandesa KLM, por exemplo, além de não ter a fileira de poltronas número 13 em nenhum de seus aviões, não usa a letra J em suas matrículas. A Gol faz o mesmo, só que com a letra S mas a grande vilã é a letra K, presente nos aviões envolvidos em pelo menos 9 acidentes gravíssimos no Brasil, desde 1948. Isola!

E por falar em letras, o mega empresario Eike Batista batiza todas as suas empresas com a letra X no final do nome e o velho lobo Zagalo é, ao contrário de toda a civilização ocidental, fã incondicional do número 13. Sua vida bem sucedida e suas vitórias no futebol provam que a superstição funciona muito bem em sentido contrário.

Eu não sou supersticioso. Aliás, não entendo porque os amigos morrem de rir quando faço essa solene e importante afirmação. O fato de torcer para o Botafogo não significa nada e nunca ninguém conseguiu provar que uso a mesma camiseta em todos os jogos ou desligo o som original da transmissão da partida pela TV (ouço pelo rádio). Isso é intriga de flamenguistas e vascaínos, só pode!

Mas para ser sincero, durante algum tempo só viajava do Rio para Nova Friburgo com um velhíssimo relógio digital no pulso que, por algum motivo, evitava que eu enfrentasse aqueles terríveis congestionamentos na Ponte Rio-Niterói e na infeliz da Avenida do Contorno. A alegria durou até o dia que precisei trocar sua bateria. O encanto simplesmente sumiu, os engarrafamentos voltaram e até hoje me arrependo de ter mexido onde não devia. Tento me iludir afirmando que só escrevo as crônicas nas segundas para aproveitar os assuntos do final de semana mas quem garante que não é só porque está dando certo?

Pois é, como alguém muito bem lembrou, superstição não tem 13 letras e se levada muito à sério, acaba virando um ritual e tomando conta de sua vida. Mas o que seria de nós se ela não existisse? De qualquer maneira, deixo a pergunta no ar: vocês são supersticiosos? Cartas para a redação.

Eu não pago IPVA

A Voz da Serra (2013)

Minha irmã foi uma das primeiras a reclamar: – “o IPVA está pela hora da morte!” Coitada, com dois carros na garagem, estava justamente furiosa com o valor do imposto criado no final da década de 60 pelos militares para renovar nossas estradas, com o pomposo nome de Taxa Rodoviária Única. Rebatizado em 85 como IPVA, ninguém viu melhora alguma, é verdade, mas isso é outra história.

Antes de prosseguir, é bom deixar bem claro que não vou pagar o tal do IPVA, DPVAT, licenciamento, vistoria, seguro, multas ou qualquer outro tributo dessa natureza por um simples motivo: não tenho carro desde 2005 e Nova Friburgo foi uma das maiores responsáveis. Morando em uma cidade onde o clima é ameno, não chove em boa parte do ano, o visual é maravilhoso e, pelo menos do ponto de vista de quem morou ( e ainda mora) no Rio de Janeiro, tudo é pertinho, ficou fácil tomar essa decisão.

Na realidade, sempre usei transporte público, mesmo quando cheguei a ter três carros na garagem! O caso carioca é exemplar e mesmo longe da perfeição, lá você tem ônibus, metrô, trem e barcas para qualquer lugar. No entanto, depois de alguns anos gastando uma fortuna com gasolina, estacionamentos e remédios para manter a saúde e a sanidade em engarrafamentos intermináveis, resolvi dar um basta e vendi o automóvel. Aliás, sequer renovei minha carteira de habilitação.

De cara senti uma enorme diferença no bolso. Melhor ainda foi redescobrir que é possível andar a pé pela cidade! Conheci pessoas que cada vez mais consideram que morar longe do trabalho e guiar em congestionamentos como os de São Paulo, batendo nos 300 quilômetros diários, é um completo estorvo. Minha mulher, um ano após, aderiu e hoje somos um feliz casal sem carro.

Bob Lutz, ex-vice-presidente de BMW, Ford, Chrysler e General Motors, garante que a queda do interesse por automóveis é uma tendência mundial: “a sedução do carro não faz mais sentido e dirigir será um lazer excluído das cidades, como andar a cavalo.” Os depoimentos a seguir, recolhidos em publicações recentes, mostram que esse fenômeno veio para ficar:

“Eu sou mais feliz desde que parei de guiar. Eu sou mais leve, não tenho de me preocupar onde parar o carro, não penso em multas. Na hora do congestionamento falo no celular e ouço música”. (Raí, ex-jogador de futebol, Diário de São Paulo)”

“Claro que numa metrópole muitas pessoas não podem viver sem o carro. Moram longe. O trabalho exige. Ou um parente idoso precisa ser constantemente deslocado. Mas cheguei à conclusão que: 1) estou bem servido de ônibus e metrôs 2) um táxi eventual fica mais barato que um estacionamento 3) não pagar IPVA e seguro automobilístico é uma delícia 4) estou caminhando mais, com mais saúde e menos stress 5) o metrô me dá a chance de almoçar na Pompeia e tomar um café na avenida Paulista. Hoje, sou um feliz sem carro.” (Dagomir Marquezi, jornalista)

“Fui deixando o carro aos poucos, mais parado no estacionamento do que andando. Acostumei-me a fazer a maior parte das coisas de que preciso a pé e descobri que é possível, sim, viver sem carro. Em último caso, pego um táxi ou chamo a ambulância. Tenho 35 mil motoristas à minha disposição em São Paulo, sem falar em ônibus, metrô…” (Ricardo Kotscho, jornalista).

“Não quero mais carro. É uma encrenca. O trânsito vai ficar cada vez mais uma loucura. Estou super feliz. Atendo a meus clientes sem carro e não tenho estresse” (Mônica Nobre, designer de interiores).

Gostaram? No entanto, é bom ter em mente que o transporte público, coração desse estilo de vida, ainda tem que melhorar muito. Precisamos de ônibus, trens e metrôs confortáveis, pontuais e baratos, circulando as 24 horas do dia, táxis com tarifas mais acessíveis, ciclovias e ciclofaixas corretamente implantadas. Se em Nova Friburgo é possível se deslocar para o trabalho simplesmente andando, que o seja em calçadas bem conservadas, praças arborizadas e vias limpas, sinalizadas e seguras.

Decididamente, não haverá lugar para automóveis nas cidades do futuro.

Filó

Ontem foi aniversário da cachorra Filó. Nove anos. Reza a lenda que cada ano vivido pelo nossa amiga peluda equivale a sete anos dos nossos, humanos. Claro que complicaram essa história com um novo cálculo, mas como a diferença não é tão relevante assim, ela tem 63 anos, quase a minha idade.

Pois é… Os presentes já foram todos comidos, é claro. Aí me lembrei da crônica que publiquei no A Voz da Serra, de Nova Friburgo, no final de 2011, contando sua importância na vida de um casal que nunca imaginou ter como companhia uma daschund barulhenta, preguiçosa, arredia, gulosa, amorosa, dedicada, inteligente e extremamente apegada. Um barato!

Filó, parabéns para você, ontem, hoje e sempre.

oOo

FILÓ

A Voz da Serra

A cachorra estava só na dela. Deitada no sofá, ignorava solenemente a família reunida na mesa de jantar. Bocejava de vez em quando e com os olhos semicerrados, deixava o sono modorrento da noitinha tomar conta do corpo.

No entanto, o cheiro de comida… nossa, que delícia. Levantou ligeiramente a cabeça para avaliar o que acontecia. Caramba, os quatro bípedes da casa estavam realmente devorando um bife! Avaliou a situação e percebeu que não adiantava pedir, iam lhe jogar um pedacinho bem mixuruca ou pior, ração para cachorros!

Virou o corpo na direção da mesa, se espreguiçou e lentamente caminhou para junto da humana que considerava sua dona. Percebendo que ela segurava um pedaço de carne em uma das mãos e deixara um naco no prato, correu e rápida como um raio, saltou em seu colo, abocanhou inteirinho o filé e saiu lépida para devorar a delícia.

Ah, os prazeres de um bom prato!

Mas Filó, em sua gula, acabou se esquecendo completamente do “não”, um comando que homens e cães conhecem há mais de dez mil anos, quando começaram a conviver juntos. E lá se foi para o castigo e ainda por cima sem a sua presa. Tudo bem, pensou, cachorros tem a uma grande vantagem, vivem apenas o presente.

*****

Filó foi invenção da minha filha mais nova quando foi morar sozinha. Um ano depois voltou e tivemos que aprender como conviver com um animal de estimação em um apartamento. A cachorra agora já estava grande e se mostrou muito carinhosa com todos da família. Nunca mais tive um minuto de solidão: basta entrar em casa e lá vem ela dizer que me ama aos pulos, latidos, lambidas e choros.

Segundo os sites especializados, pelo seu porte pequeno os daschunds ou salsichas são uma excelente opção para quem mora em apartamentos, aprendendo com facilidade os hábitos de higiene. Inteligentes, espertos e brincalhões, são excelentes cães de vigia. Convivem bem com crianças e outros animais, mas não costumam fugir de uma briga, caso sejam provocados.

É isso aí! Filó não é uma cachorra bagunceira. Fica sozinha em casa sem reclamar, latir ou destruir móveis. Em compensação, se passar pela frente de uma lata de lixo cheia de comida, não tem perdão, só sossega quando consegue esvaziá-la. O seu único e grande medo é o banho semanal!

Não sei como, mas a danada sabe que terça-feira é dia de banho e aí, por volta das nove da manhã simplesmente desaparece. Toda a semana é a mesma ladainha. Com a coleira na mão, fico bem quieto para ver se a pego de surpresa. Aí procuro na caminha, no sofá, na poltrona velha e até mesmo dentro de algum guarda-roupas.

Checo embaixo das camas, atrás dos armários, da geladeira, do freezer, do fogão e da máquina de lavar. Grito. Ameaço. Imploro. Já sem saber mais o que fazer ofereço comida. Matou! Basta falar em biscoitinho e a sua cabeça peluda surge com a expressão curiosa de um local completamente improvável. Aí fica fácil, coleira nela e rua para o banho.

*****

Filó já passou duas temporadas aqui em Nova Friburgo, quando sua mãe, perdão, dona, viajou a trabalho. Estranhou muito o frio e empacou na escada que leva aos quartos. Subia sem problemas mas na hora de descer… Por algum motivo, talvez as patinhas curtas da raça, sentia-se insegura e ficava parada lá no alto, piando e chorando até que alguém a levasse para baixo no colo.

Agora imaginem isso, duas, três, dez vezes por dia, inclusive no meio da noite, em pleno mês de julho, quando sair da cama é um sacrifício para qualquer friburguense. Pois é, felizmente, depois de alguns dias e algum treinamento, a peluda se acostumou e passou a descer a escada sozinha.

Só mesmo parodiando os versos do Poema Enjoadinho do Vinícius de Morais, “cachorros, melhor não tê-los! Mas se não os temos, como sabê-lo?”… Essa mocinha vai passar um ano morando aqui conosco, com escada, frio e todo o sossego da serra. Minha filha vai estudar no exterior e achou conveniente deixar uma lembrancinha de quatro patas conosco.

Por mim tudo bem, Filó adora quando eu leio para ela os textos que acabei de escrever. E sem jamais reclamar!

Casos cariocas

A Voz da Serra

A essa altura da vida, acho que todo mundo concorda que o assunto recorrente dos cariocas é a violência urbana. Eu mesmo, morador de Nova Friburgo, ainda não consegui me livrar desse hábito e cada encontro com meus queridos conterrâneos é sempre uma oportunidade para compartilhar alguns casos, todos rigorosamente verídicos, é claro!

Esse aqui, por exemplo, aconteceu com uma amiga que prestava serviços voluntários em uma organização de educação e orientação aos pacientes de doenças crônicas. Ela estava mudando de residência e, após a reunião mensal do grupo, recolheu várias caixas de papelão e alguns jornais velhos para “embalar a louça”, como gostamos de falar. Pôs tudo em um daqueles sacos pretos de lixo de 100 litros, amarrou a ponta e pegou o ônibus para casa.

Cansada, amarrotada e descabelada, adormeceu. De repente, despertou com os já tradicionais gritos de guerra dos marginais:

— Perdeu! Perdeu! Tia, passa o celular, a bolsa e o relógio, rápido, rápido!

Um assalto! Ainda atordoada pelo sono e agarrada ao saco preto cheio de papelada, ficou olhando para cara do bandido, incapaz de esboçar qualquer reação. Para sua surpresa, o outro comparsa se aproximou e falou para o colega:

— Deixa a tia em paz, agora vai roubar uma catadora de lixo ? Tá maluco ? Não perde tempo com ela não.

E assim foi. Limparam os passageiros, o trocador, o motorista e saíram correndo rua afora. Nossa amiga quase desmaiou de tanto medo, mas ficou quietinha, só na dela. Seu celular, relógio, dinheiro, documentos e a bolsa estavam dentro do tal saco preto.

Estão vendo o que acontece quando julgamos os outros pela aparência?

oOo

E tem mais um outro, desta vez com uma cirurgiã de plantão em um hospital da rede pública. O serviço seguia devagar, quase parando e até a turma do ambulatório estava tranquila: uma dor de barriga aqui, uma febre acolá e um bêbado para distrair.

Repentinamente foi chamada na emergência: chegara um garoto, com mais ou menos uns 18 anos, magro e esperto. Sangrava bastante e um exame rápido constatou três tiros, um no mão, outro no abdome e o terceiro no ombro. A médica, experiente com esse tipo de ocorrência, logo verificou que as três balas atingiram de raspão, sem provocar grandes danos. Mas ele tinha que ser atendido imediatamente.

O policial de serviço se aproximou, indagando o que tinha acontecido. O moloque, lúcido e esperto, chorava copiosamente:

— Doutora, eu não estava aprontando nada, juro! Estava na laje soltando pipa lá na comunidade quando fui atingido por essas balas perdidas.

— Pô, cara, fala sério, três balas perdidas? Sua comunidade deve ser no Iraque, não é? Tá bom, moleque, vamos consertar esse estrago. Depois você se entende aí com os homens.

Esse ganhou na loteria e não sabe!

oOo

O último caso não aconteceu comigo, não conheço os personagens e nem sei se é verdade, mas como foi motivo de muitas gargalhadas em uma roda de bar, vamos lá!

No meio da noite o cidadão acordou com alguém andando sorrateiramente no quintal de sua casa. Levantou e ficou atento aos ruídos que vinham de fora, até levar um baita susto com uma silhueta passando pela janela do banheiro.

Correu para o celular e ligou para a polícia explicando a situação. Perguntaram se o ladrão estava armado ou no interior da casa. Respondeu que não e foi informado que não havia nenhuma viatura por perto para ajudar, mas que mandariam ajuda assim que fosse possível.

Pensou um pouco e ligou novamente:

— Olá, eu telefonei agorinha mesmo pedindo ajuda porque tinha um pessoa rondando no meu quintal. Não precisa mais ter pressa. Eu já matei o ladrão com um tiro de uma escopeta calibre 12, que fez um estrago danado no sujeito!

Três minutos depois surgiram cinco viaturas da polícia, um helicóptero, duas equipes de TV e uma ambulância de resgate dos bombeiros. O ladrão foi preso assustadíssimo, sem entender absolutamente nada. O oficial que comandava a operação chamou o morador da casa e indagou:

— Pensei que o senhor tivesse dito que tinha matado o ladrão.

— E eu pensei que o senhor tivesse dito que não havia ninguém disponível.

Pano rápido!

Um VLT em Amsterdam

A Voz da Serra

Um assunto recorrente em Nova Friburgo ainda é a implantação do trem urbano, VLT ou bonde, como queiram. É caro, não é caro, é útil, é inútil, enfim, o projeto provocou discussões acirradas e acabou indo embora com as águas de janeiro.

Algumas cidades do mundo, principalmente na Europa, adotam o sistema com enorme praticidade e baixo custo mas, não custa nada lembrar, a cultura ferroviária no velho continente é muito arraigada e por lá obras publicas não costumam andar na velocidade do metrô do Rio, por exemplo, onde uma estação demora quase 10 anos para ser construída.

Mas isso é assunto para cronistas políticos e técnicos em transportes. A introdução é a deixa para contar como foi meu primeiro contato com um legítimo VLT europeu, na bela e civilizada Amsterdam, Holanda.

Barato, o Tram, como lá é chamado, circula por quase toda a cidade, tal qual um metrô ao ar livre. Nas paradas, todas cobertas e com bancos para você esperar sentado, um aviso luminoso informa a linha que vai chegar e o horário previsto, rigorosamente obedecido. As passagens são compradas em lojas e bancas de jornais e no caso de bilhetes múltiplos, você ganha um desconto.

Resolvemos conhecer o Museu Van Gogh, que acabou sendo um dos pontos altos da viagem. Com o maior acervo do mundo de quadros do genial e atormentado pintor, é uma instalação moderna e funcional. As telas são dividas em ordem cronológica, cobrindo cinco períodos, cada um representando uma diferente fase da sua vida e trabalho: Países Baixos, Paris, Arles, Saint-Remy e Auvers-sur-Oise. Recomendadíssimo!

Embarcamos no ponto inicial, na Centraal Station, onde vários holandeses gentilmente nos ensinaram onde comprar as passagens e o caminho até o Museu, que foi transcorrido sem problemas. Para voltar ao hotel, mais fácil ainda: o ponto fica bem em frente ao museu e aí basta sentar e aguardar.

Logo, logo o painel luminoso informou que o linha 5 chegava em uns cinco minutos, o que infalivelmente aconteceu. Bom, aí ele parou, nós nos encaminhamos para a porta de entrada e… nada. Ficamos esperando, esperando e o trem foi embora! Mas que droga! Por que não abriu as portas?

O próximo era o linha 2, que também servia. De novo o coletivo não abriu as portas. Ficamos os três, eu, minha mulher e a filha mais velha sem saber o que estava acontecendo!

Entrou um da linha 4. Do nada surgiu uma senhorinha parecida com personagens de filmes europeus. Foi até o trem, apertou um botão ao lado da porta que… milagrosamente abriu! Então era isso! Para entrar no VLT tem que apertar um botão ao lado da porta! Nem foi preciso gritar “Abre-te Sésamo” em holandês, como já pensávamos em fazer!

Vivendo e aprendendo e se não pagar um mico, a viagem não tem graça, não é mesmo? Depois dessa cruzamos Amsterdam de cima a baixo de VLT. A cidade é muito bonita e sinalizada. A língua holandesa é complicada, mas como todo mundo fala inglês, fica quase impossível se perder.

A experiência com esse tipo de transporte público é interessante: existe uma boa quantidade de linhas e onde o VLT não passa ônibus circulam trazendo os passageiros. O intervalo entre as composições é pequeno e os carros, mesmo estreitos e sujeitos a alguns solavancos, oferecem conforto, inclusive calefação. Como circulam em uma via exclusiva, as viagens são bem rápidas. De ruim mesmo só o barulho das rodas nos trilhos que, imagino, deve incomodar quem mora nos apartamentos de frente.

Aliás, curiosamente, assim que chegamos no hotel, fomos alertados para tomar cuidado com VLT e bicicletas. É meus amigos, Amsterdam tem uma das maiores redes de ciclovias do mundo e milhares de pessoas, literalmente, se deslocam de bicicletas. Os pedestres tem que obedecer os sinais específicos ou serão, inevitavelmente, atropelados por centenas delas!

Pois é, estimados leitores, vocês gostariam de ter um VLT com ar condicionado, calefação, barato, rápido, confortável, não poluente e sempre cumprindo o horário pelas ruas de Nova Friburgo? Será que isso deve ficar para um futuro mais propício ou o melhor a fazer é esquecer de vez essa ideia?

Vocês decidem.

O cemitério dos americanos

Publicado no A Voz da Serra

— Por favor, bom dia! Será que algum de vocês sabe informar como eu chego no Cemitério dos Americanos?

Corria a década de 90 e eu estava em Americana, no estado de São Paulo, voltando para o Rio de Janeiro, após uma viagem até Porto Alegre, com mulher e filhas pequenas. Animado, resolvi conhecer as origens da família e visitar o tal cemitério, onde existe um monumento aos imigrantes norte-americanos que vieram para o Brasil a partir de 1865, fugindo da Guerra de Secessão que acabou com o sul dos Estados Unidos.

— É melhor você se informar nos correios. Afinal naquela região tem gente morando e eles recebem cartas, não é?

— Claro, sem dúvida. E lá fui procurar uma agência.

Pois é, um carteiro me ensinou parte do caminho: o cemitério ficava na zona rural, na direção de Santa Bárbara d’Oeste. De lá era só me informar que o caminho não era difícil.

– Mas só tem cana!

Foi o que todos falamos nesse pequeno lugarejo, cujo nome não recordo. Um canavial enorme, a perder de vista, um espanto para quatro cariocas pouco acostumados com o campo. Nunca tinha visto um de longe quanto mais assim, bem do lado da janela do carro.

— O Cemitério dos Americanos? O melhor caminho daqui é por dentro do canavial.

— Pelo canavial? Mas como que eu vou…

Bom, um simpático senhor na porta de uma birosca acabou me convencendo de que eu estava muito perto e, melhor ainda, era muito fácil: bastava contar as entradas à esquerda e à direita das plantações de cana-de-açúcar que não tinha como errar. E, sem pensar duas vezes, lá fomos nós em direção ao desconhecido.

Alguém aqui já dirigiu dentro de um canavial ? É uma loucura. O piso de terra até é bem razoável por causa do trânsito de caminhões e tratores, mas você só consegue ver para a frente. Os enormes pés de cana-de-açúcar criam uma barreira impenetrável, dando a nítida impressão de que você está em um túnel sem o teto.

Seguimos. Andamos. Esquerda, em frente, direita e não chegávamos a lugar algum. Só cana, cana e mais cana. De repente, pendurada em um poste de madeira surge uma placa de ônibus, bem velhinha. Opa! Se tem ônibus tem gente. Estamos perto da civilização. E estávamos. Logo em frente vimos o vilarejo de onde saímos, o ponto de partida da aventura.

— Ai, ai, ai, estamos andando em círculos! Onde nós erramos?

Voltei à birosca, onde o simpático senhor, com ar superior sentenciou:

— Ah, mas você não não pode dobrar na primeira à esquerda. Vá em linha reta e siga as instruções para não se perder.

Partimos para a segunda tentativa, sempre em frente, como recomendado. Cada vez mais as plantações aumentavam e o tempo fechava. Nuvens carregadas se aproximavam pelo sul e alguns trovões se ouviam à distância.

— Olhem só o tempo! Será que vem algum tornado por aí, igual ao do filme Twister ?

É claro que o tempo fechou completamente, só que dentro do carro, uma senhora tempestade:

— Pai, volta, se vier um tornado nós estamos perdidos!

— Amor, vamos voltar logo. Aliás, perdidos nós já estamos!

— Eu quero voltar, quero minha casa…

— Pessoal, no Brasil não existe tornado. É só a paisagem é que é parecida! Vamos lá, já estamos quase chegando!

— Que chegando que nada! Olha só a placa do ponto de ônibus de novo aí na frente. Trata de voltar logo para a cidade antes que chova ou que a gente nunca mais saia desse canavial.

Era verdade. A maldita placa de ônibus estava ao lado do carro. Tínhamos voltado ao ponto de partida. Ou eu era incapaz de entender instruções e guiar dentro de um canavial ou o simpático senhor tinha ódio de americanos e tentava me fazer andar em círculos para o resto da vida.

Retornamos tão chateados que fomos direto para Campinas, onde ainda fui obrigado a passar em um shopping center para tomar um banho de civilização. A tentativa de conhecer as origens da família virou motivo para boas gargalhadas e acabou rendendo uma história.

oOo

O Cemitério dos Americanos ou Cemitério do Campo faz parte do município de Santa Barbara D’Oeste e é preservado pelos descendentes dos antigos Confederados que imigraram do sul dos Estados Unidos para o Brasil, no final da guerra civil norte-americana.

O Reverendo Willian C. Emerson veio na primeira leva com mulher e filhos de Meridian, no Mississipi, em 1865. Deu origem a nossa família e está enterrado lá. Por sinal, este ano comemoram-se os 150 anos da imigração, mas isso é assunto para uma próxima crônica.

101 / Braunes

A Voz da Serra

O ônibus chegou lá no alto das Braunes e encostou no ponto para sua parada técnica de cinco minutos.

— Ô Paulinho, como é que se chama uma fechadura com infravermelho?

— …

— Ô Paulinho, você está me ouvindo?

— Claro que sim. Você fala tão alto que todo o bairro ouviu. E eu sei lá o que é isso? Sou motorista de ônibus e não chaveiro, pô!

— Você quer saber o que é?

— Não, não quero mas tenho a impressão de que vou acabar ouvindo besteira!

— Paulinho, é uma maçaneta!!

— Ah meu Deus, maçaneta, Seu João? Maçaneta não é fechadura e sim aquela bolinha que serve para abrir portas e gavetas.

— Paulinho, olha pra mim, Paulinho, acho que você nunca ouviu falar de maçaneta

— O senhor é que não tem noção. E maçaneta não tem nada a ver com infravermelho. Seu João, o senhor andou tomando umas por aí?

— Ô menino desaforado, você sabe muito bem que não posso beber por causa dos diabetes. Você está sem graça porque não sabia que maçaneta é uma fechadura com infravermelho!

— Mas infravermelho onde, criatura?

— Então, Paulinho, segue meu raciocínio: qual é a cor da maçã?

— Maçã é vermelha, mas o que é que tem uma co…

— Então, se a maçã é vermelha ela é infravermelha. E a maçaneta não deixa de ser uma parte de uma fechadura. Então uma fechadura com infravermelho é uma maçaneta!

— Eu mereço! Seu João, só não expulso o senhor do ônibus porque sou seu amigo. Mas essa é de lascar. Vamos voltar pro Centro e não quero ouvir um pio dentro do ônibus.

— Ô Paulinho, eu acho que você não entendeu nada. A maçã é..

— Seu João, a maçã é vermelha, o ônibus é branco e azul e na sua cabeça só tem titica. Maçaneta infravermelha, só faltava essa.

Ainda bem que saltei logo ali no Sans Souci. Vai que me perguntassem se a maçaneta era vermelha mesmo… Pera lá, a dúvida não era essa! O infra é que era vermelho e a maçaneta tinha fechadura. Ou não?

Foto: Gabriel Mertz

Cavaleiro andante

“Eu cavaleiro andante de outras eras,
caçador só de quimeras,
cruzado de outras jornadas,
cruzo o espaço, cruzo o nada,
cruzo os braços,
só quero você.”
(Ivens Cuiabano Scaff)

oOo

Com acordes em ré menor e uma levada no estilo toada, como o pessoal mais antenado dos anos 70 tanto apreciava, começava a canção “Cavaleiro Andante”, composta quase que numa brincadeira para concorrer no II Festival Universitário da MPB, em 1970.

Quando li o poema do Ivens, imediatamente senti vontade de cantar. A música foi feita em apenas uma noite, sem precisar alterar nenhuma palavra, rima ou métrica. Pode parecer pretensão, mas diria que foi um casamento perfeito e, o mais gostoso de tudo, é que a turminha que sempre nos acompanhava adorou o resultado.

Os festivais da canção estavam na moda e logo os amigos nos convenceram que “Cavaleiro Andante” tinha que participar de algum deles. Dito e feito, fizemos a inscrição no Universitário e lá fomos nós gravar nos estúdios da TV Tupi, na Urca. Foi quando percebemos que não tínhamos a menor chance.

Enquanto aguardávamos, vimos compositores como o Gonzaguinha, Ruy Maurity, Aldir Blanc, Ivans Lins, Ronaldo Monteiro de Souza, Eduardo Gudin, César Costa Filho, Arthur Verocai, Alberto Land e Belchior, só para ficar nos mais conhecidos, entregando suas fitas com músicas maravilhosas interpretadas por Clara Nunes, Maysa, Maria Creuza, Golden Boys, Antônio Adolfo, Nana Caymi, MPB-4 e por aí vai.

Mas chegou a nossa vez de gravar e um bocado tenso, acabei errando tudo na primeira sessão. Na seguinte, talvez entusiasmado pelo interesse que técnicos de som e organizadores mostraram pela música, caprichei no violão e na interpretação. O problema é que nunca fui cantor e minha voz, um fiapo meio desafinado, desvalorizou completamente todo o nosso trabalho.

Saímos da Tupi, no entanto, realizados e felizes. Participar de um festival, naquela época, dava um status danado, mesmo não sendo classificado. Combinamos ali mesmo, enquanto esperávamos o ônibus 512, compor uma nova música para o festival do ano seguinte, convidar uma cantora famosa (ou quase), encomendar um arranjo da pesada, gravar em um estúdio profissional e ganhar o primeiro lugar, iniciando uma longa carreira como compositores de sucesso da MPB!

É claro que nada disso aconteceu.

oOo

Mas afinal, o que é um cavaleiro andante? Segundo a onipresente Wikipédia, eram uma espécie de cavaleiros errantes, guerreiros obstinados e solitários perseguindo objetivos específicos como resolver injustiças, proteger os pobres e oprimidos, a honra das moças e defender a religião.

Bom, tem cara de literatura e deve ser mesmo. Dom Quixote, o “Cavaleiro da Triste Figura”, magistralmente criado pelo escritor espanhol Cervantes, possivelmente seria trucidado por bandidos assim que entrasse em alguma floresta ou vendido como escravo para o senhor feudal mais próximo. Não, decididamente, o mundo nunca foi um bom lugar para idealistas, românticos e ingênuos, não necessariamente nessa ordem.

O mais provável é que na confusão que reinava na Europa medieval, centenas de ex-combatentes e nobres falidos andassem para lá e para cá, vendendo sua espada para o senhor que pagasse melhor. Em outras palavras, meros mercenários. Para não me chamarem de cético, talvez um ou outro salvasse uma donzela de um dragão, mas tenho sérias dúvidas se esses seres míticos existiram em qualquer tempo de nossa história…

oOo

Cavaleiros andantes são tão anacrônicos que acabaram virando super-heróis de histórias em quadrinhos. Como vivemos em uma era tecnológica, seus feitos não são mais cantados por menestréis e suas violas da gamba, nas noites claras de luar, ao redor de fogueiras. Hoje nos divertimos com os jogos para smartphones ou tablets, videogames, filmes em 3D e séries para a televisão.

No entanto, se pararmos para pensar, no fundo estamos sempre esperando a vinda de um desses guerreiros para nos redimir. Aliás, se não fosse um solitário ministro do Supremo, com sua toga negra e palavras afiadas, os 40 ladrões não seriam trancados nas masmorras do castelo e nós não estaríamos discutindo Lei e Ética.

Pois é, de repente, uma antiga lenda pode ter o seu momento de realidade, não é mesmo?

A Voz da Serra, Nova Friburgo

Uma história de terror. Ou quase…

A Voz da Serra

Terminou de ler o capítulo do livro, coçou a cabeça, bocejou com gosto e ia se preparar para dormir quando o telefone tocou. Era de sua casa, lá no Rio.

— Oi amor, já está com saudades ? A gente se falou não tem nem uma hora…

— Amor, tem uma barata enooorme no banheiro!

— No banheiro ? Caramba, mas tem certeza, você viu ?

— Não vi não, foi a Mari que achou. Disse que ela é enorme, parece um besourão.

— Vai ver é um besouro mesmo. Basta apagar a luz que ele vai embora.

— Nãaaooo, ela jura que é uma barata voadora. E o pior é que está dentro do armário. O que eu faço agora ?

— Puxa vida, sei lá. Só me ocorre chamar um táxi, descer aí pro Rio, matar a bicha e voltar para Friburgo. A essa hora nem ônibus tem mais.

— Eu sei, mas como é que vamos dormir sabendo que tem uma coisa nojenta no banheiro ?

— Olha só, sua filha é exagerada. Outro dia ela me chamou para matar uma bruxa que tinha entrado no quarto dela e era apenas uma maripozinha ordinária que eu tirei de casa com a mão. Tenta ver se a tal barata godzilla é isso tudo mesmo e mete uma chinelada nela. Amanhã a faxineira recolhe o cadáver.

— Não sei não… acho que vou aceitar sua oferta de vir aqui no Rio matar a barata!

— Pelamordedeus, você está falando sério ? Isso vai custar uma fortuna! Pede para o porteiro ver o que está acontecendo.

— Ah não, o porteiro está dormindo e o vigia noturno não pode abandonar a portaria.

— E seu pai ?

— A essa hora ele vai levar o maior susto, coitado!

— Já pensou em chamar a Defesa Civil ?

— Debocha vai, não é você que vai dormir sabendo que tem um baratão zanzando pelos corredores escuros!

— Gente, que drama. Solta a Filó em cima da barata. Afinal, os salsichas são cães caçadores e muito persistentes.

— De jeito algum. Imagina se vou deixar a cachorra morder uma barata! Que coisa horrível.

— Puxa amorzinho, está difícil. Faz o seguinte: tranca o banheiro e deixa um bilhete prá coitada da faxineira fazer o serviço de carrasco.

— O banheiro já está trancado e as saídas vedadas. A Mari queria encher tudo com veneno de aerosol mas não deixei, afinal sou alérgica e ainda podia fazer mal para a Filó. Acho que não tem jeito, vou ter que passar uma noite horrorosa. Essas coisas só acontecem quando você não está aqui, incrível.

— Amor, relaxa. Faz isso mesmo e qualquer coisa você me telefona. Tem certeza que vai ficar bem ?

— Claro que não, quem fica bem sabendo que tem um baratão em casa, ô manezão ?

— Desculpe, desculpe, falei por gentileza. Mais alguma coisa ?

— Não, vou dormir. Amanhã telefono, tá bom ? Um beijão.

— Um beijão pro cê também.

Suspirou fundo e foi tomar um leite. O mais engraçado é que nunca lhe perguntaram se tinha medo de baratas, besouros, bruxas e outros insetos do gênero. Simplesmente tinha de resolver a situação, tivesse nojo ou não.

Tudo bem, desta vez escapara! Ia dormir tranquilo.

Foto: Carlos Emerson Junior