Retrato de Copacabana

Posto 6, Copacabana

por Carlos Emerson
Correio Popular, 1961

Copacabana é um pedaço da Guanabara que não se aperta de jeito nenhum. Talvez devido o fato de sua população viver comprimida numa estreita faixa de terra e entocada em apartamentos, a solução é sempre uma: desapertar.

O carioca de Copacabana tem fama de rico. Entretanto, o grosso de Copacabana é a classe média. Barnabés & Cia. Gente de orçamento limitado que luta para se manter no limite de suas posses.

Mas o habitante de Copacabana, habituado a viver espremido entre o mar e as montanhas sabe resolver os seus problemas sem se incomodar com a opinião dos outros

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Uma das coisas típicas de Copacabana são as festas carnavalescas. São organizadas em determinadas ruas para a criançada se divertir. Algumas dessas festas contam com meia dúzia de músicos barulhentos e outras festas com possantes “Hi-Fi”.

Disso resulta que não há preocupação para os pais que não podem comparecer aos bailes infantis das sociedades. A rua está transformada num clube ao ar livre, muito mais saudável que um recinto fechado. A rua está ornamentada e o local onde as crianças se divertem, dançam, pulam e cantam está isolado por madeiras. Há ordem e disciplina. E os adultos zelam para que os garotos tenham o seu carnaval.

Esse tipo de carnaval de rua para crianças foi iniciado pela “turma” de rapazes da rua Miguel Lemos, a qual era encabeçada pelo saudoso vereador Cristiano Lacorte.

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No interior, as festas juninas tem grande animação dado o fato de todas as casas terem quintal ou jardim onde podem armar fogueiras, queimarem fogos dos mais variados e, para alegria da garotada, fazerem subir os balões.

Mas a turma de Copacabana, nesse ponto, resolve também o seu problema. Na véspera de São João ou na noite de São Pedro, é grande o número de pessoas que vai para a praia carregando caixotes, caixas, sarrafos, madeiras, paus, jornais velhos e enfim tudo de velho e imprestável que tiver em casa e que sirva para fazer fogueira.

Pouco importa ao morador de Copacabana que o vejam carregando tudo isso nos ombros ou na cabeça. Ele vai se divertir com a família. E a criançada entra no regime da algazarra porque sabe que sua fogueira está garantida.

Vê-se então, surgindo ao longo da praia de Copacabana, fogueiras grandes e pequenas, onde são queimados fogos e soltos balões a despeito de toda a proibição policial.

Posso garantir que esses são os dias do ano em que eu e meus filhos mais nos divertimos.

Não resta dúvida que a praia toma mesmo um aspecto pitoresco. Deve, mesmo, apresentar o quadro assustador de uma série de incêndios para os passageiros dos navios que nesse momento venham entrando no Rio de Janeiro.

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Os balões juninos trazem-me a recordação de caso acontecido numa companhia seguradora européia, onde trabalhei durante muito tempo. Havia caído um balão numa fábrica segurada nessa companhia. Houve incêndio e prejuízo grande. No ano seguinte, por excesso de azar cai outro balão com incêndio e prejuízo. Recebemos então uma carta enérgica da Europa, onde perguntava aos funcionários do Brasil o que estavam fazendo que permitiam cair balões incendiários nas firmas seguradas.

Publicado no jornal Correio Popular, Campinas, SP, edição de 15 de agosto de 1961

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Carlos EmersonCarlos Emerson foi meu pai. Começou como ajudante nas redações dos jornais de Campinas e logo estava escrevendo. Gostava de lembrar que como jornalista cobria qualquer área. Trabalhou nos jornais “Diário do Povo”, onde aprendeu tudo o que sabia sobre jornalismo e contabilidade, “Gazeta de Campinas” e “Correio Popular”, todos de Campinas. Foi correspondente dos jornais “O Imparcial” e “O Paiz” e colaborador do “Correio da Manhã”, no Rio de Janeiro. Escreveu para as revista “Palmeiras” e “Mensagem de Campinas”, bem como para o “Jornal de Campinas”. Apesar de ter se afastado da imprensa para atuar na área contábil, continuou escrevendo e publicando suas crônicas até falecer.

Foto: Carlos Emerson Junior

 

O casarão da Vila Amélia

Já vi esse filme antes e não gostei: o imóvel é utilizado por um órgão público, não é devidamente conservado e, um belo dia, é devolvido aos antigos donos em estado tão deplorável, que torna proibitiva a sua manutenção. É o que está acontecendo com a casa que abrigou durante não sei quantos anos a delegacia de polícia de Nova Friburgo e acabou sendo interditada pela Defesa Civil, dada a precariedade de suas instalações.

O governo do estado não tinha a obrigação, como qualquer inquilino, de devolver o imóvel em boas condições? E agora, vão esperar a casa cair de podre ou ser consumida em um incêndio qualquer?

Pois é!

Velhos jornais

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Uma coisa eu tenho certeza, aprendi a ler através dos jornais. Meu pai, antigo jornalista de Campinas, em São Paulo, não perdia os velhos diários cariocas um dia sequer e assim cresci tendo como companhia o Correio da Manhã, Diário de Notícias, O Globo, Jornal do Brasil, a Tribuna da Imprensa, Jornal do Commércio, Ultima Hora, Jornal dos Sports, O Fluminense e tantos outros que apareciam lá em casa.

O mais triste é que dos jornais citados, apenas o Globo continua na ativa. O Rio de Janeiro, que era a vitrine do jornalismo brasileiro, hoje é representado por apenas um jornal de nível nacional, nem sempre traduzindo o gosto ou a opinião dos cidadãos cariocas e fluminenses. É sempre bom lembrar que a imprensa é essencial para qualquer regime que se considere democrático.

O que é indiscutível é que a decadência dos jornais do Rio acompanhou a da cidade, que não soube se reinventar quando deixou de ser a capital do país. Hoje, com o advento da internet, a grande questão é saber se o atual formato impresso sobreviverá ou se leremos nossas notícias de todos os dias em notebook ou desktop qualquer.

Querem saber? Tomara que não. Afinal, “filar” as notícias do dia em uma banca de jornal, é um dos meus esportes favoritos!

Foto: Carlos Emerson Junior

Bicicletas também pegam ônibus

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As fotos são da Denise Emerson, nossa correspondente internacional no Canadá, que aproveita e deixa a dica: em Vancouver, os ônibus tem capacidade para levar até duas bicicletas e o ciclista só paga a sua passagem.

Para quem, como eu, mora em em cima de um morro aqui em Nova Friburgo, seria uma mão na roda. Bastaria pegar o ônibus, descer para o centro, ir para as ciclovias e voltar para casa da mesma forma. É por isso que defendo a implantação das ciclovias e ciclofaixas junto com uma mudança radical no nosso transporte público. A adoção de ônibus do tipo BRT, por exemplo, ou até mesmo um VLT (como o de Macaé), tiraria uma quantidade enorme de carros da cidade e reduziria o custo de locomoção dos moradores.

Um dia a gente chega lá.

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Crack


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por Carlos Emerson Jr.

Antigamente, mas bem antigamente mesmo, a palavra “crack” servia para designar um atleta fora de série, geralmente um grande jogador de futebol do tipo do Heleno de Freitas, Garrincha, Zizinho, Pelé e tantos outros. Meu pai chegava até a usa-la em seus artigos para os jornais lá de Campinas. Bons tempos…

Hoje crack e cracolândia estão em qualquer dicionário e com um significado sombrio e mortal. O crack finalmente se espalhou pelo Brasil e volta e meia somos surpreendidos com cenas deprimentes mostrando uma multidão de viciados, crianças, adultos e velhos aglomerados em um ponto abandonado qualquer, tal qual zumbis de filmes de terror, completamente à mercê de seu vício.

Assaltos, prostituição, furtos e demais atos violentos são cometidos por pessoas destruídas pela droga, sem se importar com as consequências de seus atos. Uma tristeza só.

Mas o que é exatamente o crack e quais os seus efeitos ?

A droga é uma mistura de cocaína em pó, bicarbonato de sódio ou amónia e água destilada, que resulta em pequeninos grãos, fumados em cachimbos. Estimulante seis vezes mais potente que a cocaína, o crack provoca dependência física e leva à morte por sua ação fulminante sobre o sistema nervoso central e cardíaco.

O crack leva 15 segundos para chegar ao cérebro e já começa a produzir seus efeitos: forte aceleração dos batimentos cardíacos, aumento da pressão arterial, dilatação das pupilas, suor intenso, tremor muscular e excitação acentuada, sensações de aparente bem-estar, aumento da capacidade física e mental, indiferença à dor e ao cansaço.

E mais: o crack eleva a temperatura corporal, podendo levar o usuário a ter um acidente vascular cerebral. A droga também causa destruição de neurônios e provoca no dependente a degeneração dos músculos do corpo, o que dá aquela aparência esquelética ao indivíduo: ossos da face salientes, braços e pernas ficam finos e costelas aparentes. Normalmente um usuário de crack, após algum tempo de uso utiliza a droga apenas para fugir da sensação de desconforto causado pela abstinência e outros desconfortos comuns à outras drogas estimulantes: depressão, ansiedade e agressividade.

Mas, se os prazeres físicos e psíquicos chegam rápido com uma pedra de crack, os sintomas da síndrome de abstinência também não demoram a se fazer notar. Em apenas 15 minutos, surge de novo a necessidade de inalar a fumaça de outra pedra, caso contrário surgirão inevitavelmente o desgaste físico, a prostração e a depressão profunda.

Os danos à saúde são tão grandes que o farmacologista Dr. F. Varella de Carvalho assegura que “todo usuário de crack é um candidato à morte”, porque ele pode provocar lesões cerebrais irreversíveis por causa de sua concentração no sistema nervoso central.

É um problema sério. Segundo a própria Agência Brasil, o uso do crack é considerado com uma espécie de fim de linha no trajeto da dependência química, o que reforça o preconceito contra quem consome essa droga, por muito tempo associada à população de rua. Pesquisadores, usuários e traficantes ressaltam este aspecto do vício, que pode se configurar como um agravante para a recuperação.

Os traficantes do Rio, durante muito tempo, resistiram a comercializar o crack por acharem que ele destruía rapidamente a saúde e, também, pela imagem dos usuários. O dependente de crack é considerado uma pessoa sem valores, no qual não se pode confiar, ele é o ponto mais baixo em uma escala de degradação humana.

Meus caros amigos, a hora da sociedade encarar essa tragédia é agora, sem hipocrisia, politicagem ou preconceito. Esse artigo foi escrito em 2010 e, de lá para cá, o consumo dessa droga se expandiu, enquanto ficamos todos nós metidos em um inútil e interminável blá-blá-blá. O problema é mundial e requer uma abordagem séria e audaciosa. Mas antes de mais nada, precisamos olhar para dentro de nós mesmos, sem hipocrisia e assumir uma posição.

Ficar simplesmente de braços cruzados é falta de humanidade.

Fontes:
Antidrogas.com 
Oficina Ciência Viva 
Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas – SENAD
Foto: Agência Estado

Home Office

A Voz da Serra

Você trabalha em casa? Se a sua resposta for um não, é bom ficar preparado, porque algum dia você vai embarcar nessa, engrossando o time dos mais de 30 milhões de brasileiros que, segundo o Censo 2010, realizado pelo IBGE, possuem um pequeno escritório em casa para efetuar total ou parcialmente suas tarefas do trabalho, simples assim!

Essa modalidade de atuação profissional é uma tendência irreversível que já vinha sendo praticada por muitos profissionais liberais. A novidade, pelo menos aqui no Brasil, ficou por conta da aprovação da Lei 12.551, que modificou o artigo 6º da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), determinando que não há “distinção entre o trabalho realizado no estabelecimento do empregador, o executado no domicílio do empregado e o realizado à distância, desde que estejam caracterizados os pressupostos da relação de trabalho.”

Em seu único parágrafo, informa ainda que os “meios telemáticos e informatizados de comando, controle e supervisão se equiparam, para fins de subordinação jurídica, aos meios pessoais e diretos de comando, controle e supervisão do trabalho alheio”. A nova legislação era necessária, afinal pesquisas mostram que 31,2% das empresas brasileiras já adotam o Home Office.

Grande parte de meu trabalho, como administrador e escritor, é feito em casa. Com o aumento da oferta dos serviços telefônicos e banda larga, ficou bem mais fácil você permanecer diretamente conectado ao escritório central da empresa onde trabalha. O uso de smartphones e tablets garante a sua mobilidade. Para quem precisa de um certo isolamento para escrever, como eu, é uma mão na roda.

Um dos nossos quartos foi transformado em escritório, com uma grande bancada, estantes, armários e gaveteiros, tudo muito bem planejado para que documentos, livros, contas e demais informações fiquem bem à mão. Tenho uma boa iluminação natural, as essenciais poltronas confortáveis e, no meu caso, um indispensável monitor de TV, além de dois notebooks, no-break, impressora multifuncional com escâner e fax, telefone sem fio e demais acessórios.

Um bom Home Office, antes de mais nada, deve atender às suas necessidades e completamente adaptado ao seu tipo de trabalho. No entanto, nada disso terá muita utilidade se não houver disciplina, concentração e organização. Ninguém está pedindo para você colocar terno e gravata ou um terninho para trabalhar em casa mas sem esses pré-requisitos, nada feito.

Não existe uma bula mas, por experiência própria, sei que quem trabalha com palavras, por exemplo, precisa de isolamento e silêncio. Não tem nada mais desesperador do que você estar fechando um artigo em cima do prazo e a cachorrada da casa iniciar uma disputa para ver quem late mais alto no seu ouvido! Ou a filharada aumentar o som a níveis estratosféricos, tremendo todas as paredes!

Em Nova Friburgo, até já comentei isso em outro artigo, temos problemas constantes com o fornecimento de luz, telefone e banda larga, em parte agravados pelas redes aéreas que cortam todo o município. Apesar da boa vontade das concessionárias, volta e meia nos vemos irremediavelmente desconectados ou no escuro. Foi por essa deficiência que passei a usar notebooks, que me garantem algumas horas de funcionamento quando a luz acaba, além de um modem 3G para acessar a internet nessas emergências.

Algumas dicas de publicações especializadas no assunto, como a Você S/A e a Catho Online, são simples e valiosas, vejam só:

Defina um horário

O maior problema relacionado ao Home Office é o que envolve a disciplina. Em casa existem muitas tentações para ameaçar a produtividade, mas nada disso deve interferir na concentração. É preciso criar um horário como se estivesse no escritório.

Discipline a família

Estando perto, os familiares provavelmente vão achar que o profissional “está em casa”. Dentro do seu espaço profissional e de seu horário no Home Office, esposa ou marido, filhos e demais parentes, terão de fazer de conta que a pessoa está ausente. Comunicar a nova rotina é fundamental.

Crie uma rotina

A flexibilidade de horário é uma faca de dois gumes. A vantagem é conciliar sua atividade profissional com a vida pessoal. A grande desvantagem é começar a trabalhar às 7h e ir até as 22h, sem fazer pausas nem para as refeições. A solução é estipular uma rotina diária, com horário para começar e encerrar o expediente

Evite o isolamento

Dificilmente os clientes irão visitar o empregado, a menos que trabalhe com atendimento à pessoa física. Assim, o único perigo é ficar durante muito tempo sem contato com pessoas e empresas. O programa semana de visitas a clientes em perspectivas é uma boa solução para evitar esse isolamento.

Fuja do estresse

Já que você não terá de se deslocar até o escritório, aproveite o tempo extra para fazer exercícios, ler jornal ou conversar com a família. Tome um bom café da manhã, antes de inciar os serviços, saia de vez em quando para um restaurante ou um shopping, vá arejar a cabeça e dar um descanso para as pessoas da casa.

Transporte alternativo

Se você, como eu, mora perto do centro, planeje seu horário e não tire o carro da garagem, caminhe ou melhor ainda, pegue a bicicleta, um meio rápido, barato, prático e saudável de visitar seus clientes e fornecedores. Uma pena que Nova Friburgo ainda não tenha sua rede de ciclovias.

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Pois é, meus queridos leitores, garanto para vocês que nada disso é simples e eu mesmo levei algum tempo errando aqui e acertando ali, até chegar a um ponto de equilíbrio, ou pelo menos reconhecer sua necessidade. Claro que às vezes esqueço a hora de almoçar ou vou até de madrugada em cima de um texto, o que talvez não acontecesse se estivesse em um escritório de verdade. No entanto, a economia, agilidade e qualidade de vida falam por si e não é à toa que o futuro do trabalho está sendo redesenhado.

Para terminar, é sempre bom lembrar que mais pessoas exercendo suas funções produtivas em casa significa uma considerável redução de carros e ônibus nas ruas e avenidas, com a consequente diminuição do consumo de combustível e das emissões de gases poluentes na atmosfera, responsáveis pelo aquecimento global. Ou seja, o Home Office também é uma atitude ecológica e sustentável.

Os tapetes de Corpus Christi de Nova Friburgo

Mantendo uma tradição de mais de cem anos, quando os padres do Colégio Anchieta passaram a confeccionar tapetes no campo de futebol do colégio, Nova Friburgo, a primeira cidade no Estado do Rio de Janeiro a comemorar o Corpus Christi desta forma, mais uma vez parou para apreciar os belíssimos trabalhos feitos com sal em toda a extensão da Avenida Alberto Braune e acompanhar a procissão.

– Fotos: Carlos Emerson Jr.

Ah, o interior!

A Voz da Serra

É com essa expressão que uma amiga friburguense da gema, deixa bem clara a sua satisfação de ter voltado a morar e trabalhar em Nova Friburgo. Assino embaixo, naturalmente, afinal eu mesmo me mudei do Rio, em busca de qualidade de vida. Mas o assunto de hoje não é migração urbana e sim a zona rural de nosso município, o interior do interior, se é que posso usar essa expressão.

É com essa expressão que uma amiga friburguense da gema, deixa bem clara a sua satisfação de ter voltado a morar e trabalhar em Nova Friburgo.

Quando ainda era apenas mais um turista, gostava muito de subir pela rodovia RJ-130, a Terê-Fri. Com pouquíssimo trânsito e razoavelmente conservada, permitia fugir do caos das sextas-feiras na Ponte Rio-Niterói e dirigir com segurança e rapidez durante à noite, mesmo aumentando consideravelmente o tempo de viagem.

Uma manhã, bem ali na entrada para São Lourenço, dei de cara com uma enorme plantação de couves-flores, se estendendo até a beira da estrada. Parei o carro na hora para tirar umas fotos e ainda soltei a pérola: “que coisa linda, pena que couve-flor seja tão amarga.” Minha mulher, me olhando como quem tinha acabado de descobrir que o marido é um ET, respondeu no ato: “amarga? Já vi que você nunca provou, é exatamente o contrário!” Achei melhor mudar de assunto…

Pois é, foi o meu primeiro contato com aquela região e sua vocação, a agricultura. Para um carioca de Copacabana, aquilo era o paraíso e juro que cheguei a pensar em largar tudo e comprar um sítio na região para viver da terra, logo eu que jamais plantei sequer plantei um mísero feijão no algodão, na escola primária!

Felizmente o bom senso prevaleceu e me contentei em conhecer lugares sensacionais como os Três Picos, por exemplo, hoje o maior parque estadual do Rio. E olha que chegar lá deu trabalho. Pergunta daqui, erra ali, volta para a trilha acolá, até onde a estradinha de terra permitia a passagem do carro. Daí foi só caminhar para a base da montanha onde, por acaso, um grupo de alpinistas iniciava sua escalada. Aliás, ainda estou me devendo essa parte final do passeio!

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Outra descoberta fantástica foi o Jardim do Nêgo, no Campo do Coelho. Meu cunhado morava em Nova Friburgo e fez questão de me apresentar ao artista que, confesso envergonhado, não conhecia. Meus caros, vocês não imaginam o susto que tomei quando vi as enormes esculturas nos barrancos, cobertas por uma camada de musgo. Eram pessoas, animais, uma índia, um presépio! A criatividade de Geraldo Simplício, o Nêgo, impressiona.

A propósito, está fazendo trinta anos que o artista se instalou em nosso município. Bem que essa data merecia uma comemoração, não é mesmo? Afinal, entre tantos lugares no Brasil, ele escolheu exatamente Nova Friburgo para criar sua arte.

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Um belo dia, zanzando à toa lá pelas bandas de Salinas, tanto fizemos que nos perdemos, é claro. Afinal, o GPS ainda era exclusivo das forças armadas norte-americanas e os mapas disponíveis sempre foram muito lacônicos quando se tratava de zona rural.

Não me pergunte como, mas nessa brincadeira acabamos chegando no IBELGA, mais precisamente na Fazenda Escola Rei Alberto I, onde um vigia gentilmente nos ensinou como pegar de novo a estrada principal. Antes de retornar demos uma circulada pela magnífica instalação, que ainda se dá ao luxo de ter ao fundo a imagem solene dos Três Picos e ficamos sabendo (não se esqueçam que eu ainda era um turista) do convênio educacional entre Nova Friburgo e a Bélgica, tornando viável uma completa escola agrícola em nossa terra.

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No Horto de Conquista, entre bonsais e um delicioso yakissoba servido no restaurante do local, aprendi que não é só São Paulo que tem seus japoneses. Em 1927 o engenheiro agrônomo Tohoro Kassuga chegou em Nova Friburgo com sua família, iniciando o plantio do caqui, fruta até então completamente desconhecida na região. Além das inovações na agricultura, devemos a eles as belíssimas cerejeiras que se adaptaram bem ao nosso clima frio e colorem de rosa todo o município no mês de maio.

A propósito, a Festa das Cerejeiras ou Hanamí, uma tradição da colônia japonesa, se realiza anualmente em um sítio perto de Conquista, festejando com muita dança e comidas típicas a breve floração que anuncia a chegada do inverno. Imperdível, bem como o próprio horto, com suas flores e plantas de todos os tipos e os bonsais, sempre delicados e perfeitos.

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E tem mais, queridos leitores: a Trilha do Barão, que liga Cascatinha a São Lourenço (com mais ou menos 17 quilômetros de extensão) e daí desce até Cachoeiras de Macacu, tem importância histórica, já que era percorrida a pé por tropeiros e escravos para transportarem o café de suas fazendas na região, ótima para praticantes de trekking e ecoturismo.

O próprio clima, marca registrada de nossa cidade, aqui tem lugar especial, uma vez que as temperaturas mais baixas de Nova Friburgo são registradas pela Estação Meteorológica Automática do INMET, situada perto da base dos Três Picos. A região é a segunda do estado do Rio em formação de geadas e do sincelo, fenômeno meteorológico que congela as gotas d’água, aparentando neve.

É ou não é uma atração?

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Os parlamentares do Congresso Nacional garantem que todos sabem como começa uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) mas, ninguém se atreve a predizer como ela vai terminar. Com crônicas é a mesma coisa, acreditem. Minha intenção era falar exatamente sobre a óbvia importância econômica da zona rural e sua indiscutível beleza, bem como sugerir uma outra fonte de recursos, o turismo eco rural.

Mas o lado lúdico foi mais forte e acabei me fixando nos pontos que mais me impactaram e olhem que nem citei a Queijaria Escola, Ceasa, Campestre, Vista Soberba e por aí vai. Aliás, vale o conselho: se você não conhece essa região, aproveite os dias ensolarados de inverno para fazer um passeio e descobrir uma Nova Friburgo completamente diferente, com plantações dos dois lados das estradinhas vicinais, sempre protegidas pelos Três Picos.

Ah, o interior! Nova Friburgo, ainda bem, continua linda!

Foto: Carlos Emerson Junior

Acessibilidade de verdade

Tutorial fotográfico para usar correta e eficientemente o sistema de acesso para deficientes físicos nos ônibus da cidade de Vancouver, no Canadá:

  • o ônibus encosta no ponto e o motorista abaixa a suspensão, para o veículo ficar da altura da calçada. Em seguida, ativa a rampa de acesso

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  • o ônibus encosta corretamente na calçada. O motorista abaixa a suspensão, para o veículo ficar na altura apropriada e ativa a rampa de acesso.

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  • enquanto o cadeirante embarca (vale reparar no carrinho elétrico com proteção para chuva),o motorista verifica se o local previsto para o ancoramento está em ordem.

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  • o cadeirante já está no seu lugar, com a devida segurança.

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  • e a viagem já pode prosseguir. Aliás, perca um pouquinho mais do seu tempo e confira a qualidade da calçada. É para acabar de matar de inveja!

Aqui no Rio de Janeiro algumas raríssimas linhas operam esse tipo de ônibus. Em Nova Friburgo, nenhuma. Nas duas cidades os coletivos ainda usam o “elevador”, uma geringonça barulhenta, lenta e desajeitada, que vive quebrada ou os motoristas não sabem usar. Uma lástima!

Fotos: Denise Emerson

Manter o foco

Um ano se passou, as chuvas deram uma trégua e a tragédia de janeiro de 2011, que devastou a Região Serrana do Rio, vai ficando cada vez mais restrita aos que ainda sofrem com as suas consequências. Claro que a vida tem que continuar, mas basta olhar em volta para perceber (ou lembrar) que Nova Friburgo continua completamente vulnerável.

Sei muito bem que tocar nesse assunto é difícil e doloroso. As obras tão necessárias se arrastam lentamente, reféns da indecisão, burocracia e falta de vontade política, apesar de, volta e meia, serem anunciadas com pompa e circunstância pelas autoridades de plantão.

Para cobrar mais ação na reconstrução de nossa cidade, fiz um resumo das recomendações listadas no artigo “8 soluções para evitar outra tragédia”, das jornalistas Malu Gaspar, Renata Betti e Roberta Lima de Abreu, publicado no Planeta Sustentável em janeiro de 2011. E não pensem que tem alguma mágica, são apenas algumas recomendações que, cumpridas ao pé da letra, teriam feito uma enorme diferença.

É bom frisar que, pelo menos em Nova Friburgo, já avançamos em alguns pontos como as sirenes, avisos e abrigos, algumas obras em encostas, a reorganização da Defesa Civil e só, não é? Muito pouco e daí o meu temor que as disputas políticas e as eleições municipais desviem a foco do andamento das obras e a construção das residências dos desabrigados.

É necessário evitar os erros do passado e lembrar que prevenção custa muito menos do que reconstrução. Vidas humanas, meus caros, não tem reposição.

MAPEAR AS ÁREAS DE RISCO

Existe um consenso de que o primeiro e o mais básico passo para a prevenção de tragédias desencadeadas por desastres naturais é traçar um retrato das áreas mais vulneráveis de cada cidade – fruto de um levantamento topográfico de altíssima precisão e de uma minuciosa pesquisa de campo empreendida por geólogos. Só com isso é possível saber onde as pessoas podem morar em segurança e de onde elas devem sair.

FISCALIZAR A OCUPAÇÃO IRREGULAR DO SOLO

O Código Florestal proíbe construções em topo de morros, em encostas com inclinação superior a 45 graus e a menos de 30 metros de distância do leito dos rios – só que é amplamente desrespeitado no território nacional. Centenas de mortes ocorreram justamente porque ninguém obedecia às normas, tanto pobres como ricos. Falta uma fiscalização efetiva, o que passa por uma completa mudança de cultura e métodos nas repartições públicas responsáveis.

REMOÇÕES EM ÁREAS DE RISCO

Remover as pessoas de sua casa não é fácil. A maioria resiste, mesmo correndo flagrante risco de vida – algo que a cidade de Blumenau tem conseguido minorar. Não raro, os moradores obtêm até amparo legal para ficar. A experiência internacional mostra que nenhuma solução é tão eficaz na prevenção a tragédias em regiões de topografia acidentada quanto às remoções. Infelizmente, na serra fluminense elas são a exceção.

CONTENÇÃO DE ENCOSTAS

O grupo de arquitetos e engenheiros ouvido é unânime em afirmar que, caso na serra fluminense houvesse obras de contenção de encostas em extensão e qualidade suficientes, os deslizamentos teriam sido minimizados – poupando centenas de vidas. Alegam as autoridades que custa caro, no entanto, não resta dúvida de que o dinheiro público, em geral tão mal gasto, encontraria aí uma boa aplicação.

CONSTRUÇÕES MAIS SEGURAS

Criar regras para a construção de casas e prédios é atribuição de cada município brasileiro. Espantosamente, na Região Serrana do Rio não existem leis a respeito. A maioria dos alvarás é concedida ali sem que se verifique sequer se a estrutura da edificação é capaz de suportar pressões ou o deslizamento do solo.

SISTEMA EFICAZ DE RADARES

Todos concordam que a ausência no Brasil de um sistema integrado de radares de alta precisão aumenta a vulnerabilidade diante de fenômenos como a tempestade de duas semanas atrás. Na ocasião, o radar usado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), fincado na serra, estava quebrado. Apesar de existir um equipamento similar no Rio, que flagrou as chuvas, as autoridades dos municípios que viriam a ser atingidos não foram devidamente alertadas.

ALERTAS DE EMERGÊNCIA

Faltam às cidades serranas – assim como à maioria dos municípios brasileiros – sistemas de alarme para avisar a população em situações de perigo. As pessoas que moram em áreas de risco podem assim deixar sua casa a tempo. Quanto mais treinada a população, melhores os resultados. Em Los Angeles e em Tóquio, aprende-se como proceder em caso de terremoto – até na escola.

COORDENAÇÃO DE AÇÕES

Para oferecer resposta imediata depois de uma tragédia já consumada, é necessário que os principais órgãos públicos da cidade já estejam previamente integrados e obedeçam a protocolos estabelecidos para situações de emergência. Ao ser acionada, cada equipe precisa saber exatamente o que fazer de acordo com a natureza do problema, obedecendo a um comando único. O que predomina nesse campo é o completo improviso, como ocorreu na tragédia. Ali se viu um exemplo de solidariedade das pessoas comuns – e um show de incompetência por parte das autoridades.