O Grande Irmão existe!

Obama_BigBrother

“1984” é um romance do escritor inglês George Orwell, publicado 1949, retratando o cotidiano de um regime político totalitário e repressivo no ano homônimo. Efetivamente Orwell mostra como uma sociedade oligárquica coletivista é capaz de reprimir qualquer um que se opuser a ela. “Grande Irmão”, o centro do poder, é uma figura abstrata. Ninguém o conhece pessoalmente, mas todos os cidadãos vêem seu rosto em telões, instalados em locais públicos e nas salas das residências. Não é possível se esconder, pois, por meio de telões, ele também poderia ver seu interlocutor

A história é narrada por um homem que recebe a tarefa de perpetuar a propaganda do regime através da falsificação de documentos públicos e da literatura a fim de que o governo sempre esteja correto no que faz. O romance se tornou famoso por seu retrato da difusa fiscalização e controle de um determinado governo na vida dos cidadãos, além da crescente invasão sobre os direitos do indivíduo.

*****

– Você não pode ter 100% de segurança e ter também 100% de privacidade e 0% de inconveniência – salientou. – Nós temos que fazer algumas escolhas como uma sociedade. (Barack Obama, presidente dos USA, 7/6/2013)

No mesmo dia em que o governo americano admitiu ter o acesso a registros telefônicos de milhões de pessoas, o jornal “Washington Post” revelou que a Agência de Segurança Nacional (NSA) e o FBI estão conectados aos servidores centrais das empresas Apple, Facebook, Google, Microsoft, Yahoo, PalTalk, AOL, Skype e YouTube, extraindo áudios, vídeos, fotografias, e-mails, documentos e registros de conexão que permitem o rastreamento de movimentações e contatos de uma pessoa ao longo do tempo.

O governo americano admitiu nesta quinta-feira o acesso a registros telefônicos de milhões de pessoas e defendeu a prática como necessária para proteger os cidadãos contra ataques terroristas. A confirmação de um alto funcionário do governo veio depois que o jornal britânico “The Guardian” publicou em seu site uma ordem judicial secreta relacionada a dados de clientes da empresa de telefonia Verizon, acessados pela NSA.

*****

Os dois jornais mais influentes dos Estados Unidos, The New York Times e The Washington Post, publicaram duros editorais, protestando e cobrando explicações sobre essas violações da privacidade: President Obama’s Dragnet e The government needs to explain about the NSA’s phone data program. É bom lembrar que as escutas começaram em 2007, no governo do George W. Bush. Barack Obama, que foi eleito criticando a invasão de privacidade das forças de segurança do país, abraçou imediatamente a ideia, ampliou-a e, como tantos outros políticos, escondeu a verdade.

Apesar de não ser “abstrato”, é ou não é o próprio “Grande Irmão”?

Fontes: Agência Globo, Folha de São Paulo, The New York Times e The Washington Post.

A suicida

A mulher, lá pela faixa dos 40 ou 50, resolveu que era hora de morrer. Impressionada com a história de uma casal que se atirou de um apartamento no rio, durante um incêndio, decidiu que ia se jogar nos ares e voar até a morte!

Avisou sua melhor amiga que, como toda boa amiga, tentou dissuadi-la: “pense na vida, no seu trabalho, nos amigos. Ah, você só pode estar de sacanagem e além do mais, como aqui na cidade os prédios só tem no máximo três ou quatro andares, você se arrisca a não morrer e ficar tetraplégica para o resto da vida.” A amiga encerra dizendo que está atrasada e precisa pegar os filhos na escola: “mais tarde eu ligo para saber o que você resolveu.”

A mulher, furiosa, bate o telefone! Enquanto se veste cuidadosamente, pensa na possibilidade de pular da ponte no rio. O problema é que estava muito frio e sua água imunda, completamente poluída. Só de pensar em se afogar naquele esgoto aberto deixou-a enjoada.

E se ela se ficasse na frente de um caminhão na avenida? Hum… não,isso era coisa de gente que atravessa a rua distraido e possivelmente nem iam achar que foi um suicídio. Um tiro na cabeça era, sem trocadilho, tiro e queda, mas cadê o revólver e cadê que ela sabia atirar? Caramba, estava ficando sem opções e imaginação. Entrar na banheira e jogar uma torradeira ligada, como nos filmes? E isso funciona mesmo, gente?

Sem pensar em desistir, rumou para a rodoviária e embarcou no primeiro ônibus para a capital. Lá sim, em algum daqueles arranha céus conseguiria realizar seu intento. Foi o ônibus sair da plataforma que começou a chover muito forte. No início da estrada funcionários da prefeitura avisam que uma barreira deslizou e o trânsito vai ficar interrompido horas a fio.

Retornaram a rodoviária para aguardar a liberação da pista. Entrou na padaria, pediu um café, pão de queijo e um copinho de água mineral. Conferiu as horas e lembrou que tinha consulta marcada no dentista. Se corresse, ainda daria para chegar na hora. Pagou o lanche com o reembolso da passagem e pegou um táxi, direto para o centro.

Depois de toda essa confusão, o melhor a fazer era deixar para morrer em um outro dia qualquer. Afinal, tinha tempo, todo o tempo do mundo pela frente…

Publicado no Recanto das Letras (01/06/2013)

Filmes clássicos da Segunda Guerra (primeira parte)

por Carlos Emerson Junior

Um dos temas mais divertidos nos blogs são as populares listas “os dez mais”. Livros, filmes, músicas, vídeos, mulheres, homens, animais, políticos, smartphones, não importa, um dia você vai fazer a sua.

Bom, todo mundo sabe que adoro filmes de guerra, ficção cientifica e comédias, não necessariamente nesta ordem. E aí, pensei (é, eu faço isso de vez em quando), por que não publicar os meus filmes preferidos da Segunda Guerra Mundial ? Tudo bem, eu já fiz isso no extinto no Blog do Cejunior e até aqui mesmo mas, como fiquei devendo uma segunda ou até mesmo uma terceira parte, vale a republicação do post e a promessa de que a lista vai crescer!

Lembro que filmes citados não são necessariamente os melhores de críticas, audiência ou grandes vencedores de prêmios cinematográficos. Estão aqui, simplesmente porque eu gosto! E sem mais delongas, vamos aos “premiados”:

O MAIS LONGO DOS DIAS (The Longest Day)

Superprodução de 1962, inovou ao utilizar diretores e atores alemães, inglêses, norte-americanos e franceses nas sequencias de cada país. No elenco temos John Wayne, Eddie Albert, Sean Connery, Richard Burton, Henry Fonda, Irina Remick, Curd Jürgens, Peter Lawford e quem mais vocês imaginarem. Todo mundo participou!

Magnificamente filmado em preto e branco, consegue mostrar fielmente o que foi a invasão da Europa pelas tropas aliadas, a participação da resistência francesa e a incredulidade alemã diante do fato. Sem dúvida, trata-se de um clássico.

FUGINDO DO INFERNO (The Great Escape)

Também de 1963, com Steve McQueen, James Garner, Richard Attenborough, Charles Bronson, James Coburn, David McCallun e por aí vai. Baseado num fato verídico, a fuga de quase 100 prisioneiros de um Stalag (campo de prisioneiros de guerra) em 1944, em plena Alemanha e a mobilização das forças de segurança e do exército para recuperá-los, por toda a Europa Central.

Inesquecìvel atuação de Steve McQueen e Richard Attenborough mostrando porque mais tarde ia se tornar cavaleiro do império britânico. Filmaço!

O EXPRESSO DE VON RYAN (Von Ryan’s Express)

Frank Sinatra estrela esta produção de 1965, contando a fuga de prisioneiros de guerra britânicos da Itália para a Suiça, através de um trem. Cenários belíssimos, produção caprichada e a participação do ator Adolfo Celi como o Coronel Bataglia, um bufão comandante do campo de prisioneiros italiano.

A história é original e bem conduzida pelo diretor Mark Robson. Diversão pura e muita ação!

PATTON (Patton)

Premiadíssima produção de 1970, dirigida pelo conceituado Franklin J.Schaffner e estrelada por George C. Scott, ganhou 7 Oscars entre os quais o de melhor ator e melhor diretor. Conta a participação do general George S. Patton na 2ª Guerra, desde o desembarque no Norte da Africa até a invasão da Alemanha, quando suas tropas só foram parar na Tchecoslováquia.

Brilhante interpretado por George C. Scott, Patton é desses filmões que transcedem sua categoria e entram para sempre na história do cinema.

CRUZ DE FERRO (Cross of Iron)

Sam Peckinpah dirigiu James Coburn, Maximilian Schell, James Mason e David Warner neste original e violento filme de 1977, mostrando a guerra pelo ponto de vista alemão. De fato, é a saga de um pelotão em plena retirada no front russo, que recebe um novo comandante, um oficial prussiano (Schell) que quer ganhar, por seus méritos, uma Cruz de Ferro, condecoração dada por atos de bravura pela Werhmacht.

Muito sangue, corpos dilacerados, só falta o cheiro de queimado… Um Peckinpah tenso e legítimo.

UMA PONTE LONGE DEMAIS (A Bridge Too Far)

Outra superprodução de 1977, dirigida por Richard Attenbourough e com um elenco enorme, com nomes como Sean Connery, Dirk Bogarde, James Caan, Michael Caine, Edward Fox, Elliot Gould, Gene Hackman, Robert Redford e muita gente boa mais. Filmagem de outro episódio real da 2ª Guerra, a malfadada operação Market Garden, o maior desembarque de tropas paraquedistas pelos aliados em 3 pontes ao longo da Holanda, visando cortar a saída do exército alemão.

O ritmo do filme é preciso e importantíssimo, porque consegue passar para o espectador o que era mais importante na ação: tempo. As seqüencias de salto das tropas de para-quedas também são as melhores que já vi em qualquer outro filme de guerra.

Destaque para para os atores alemães Hardy Kruger e Maxmillian Schell, como os generais Ludwig e Bittrich, fazendo contraponto ao exército aliado.

O RESGATE DO SOLDADO RYAN (Saving Private Ryan)

Não tinha como deixar de fora a produção do Steven Spielberg, de 1998. Com um Tom Hanks interpretando um capitão Miller angustiado e sem esperanças, a jornada pela terra de ninguém para trazer de volta um soldado, uma missão insana e possívelmente inútil, traz a mais sensacional abertura de um filme de guerra de todos os tempos, uma sequência do desembarque de um pelotão de infantaria na praia de Omaha, na Normandia, no Dia D.

São mais de 15 minutos com a câmera girando para lá e para cá, captando toda a violência, degradação, terror e absurdo que é essa matança coletiva. Por mais estranho que seja, a mensagem é dada ali.

Levou 5 Oscars com toda a justiça e reergueu um gênero que vinha sendo esquecido, após o fiasco do Vietnã.

CARTAS DE IWO JIMA (Letters from Iwo Jima)

Recebeu 16 nominações para o Oscar e levou apenas uma, mas não faz mal. Na retomada do gênero, esse filme de Clint Eastwood, de 2006, mostrando a invasão da ilha japonesa de Iwo Jima sob o ponto de vista das tropas nipônicas, consegue ser terrivelmente belo, crú, violento e deixa claro o que todos sofreram com a brutalidade das batalhas pela conquista daquele território.

O filme é quase em preto e branco, a cor da ilha. Contado a partir de cartas que teriam sido escritas pelo General Kuribayashi, magnificamente interpretado pelo ator japones Ken Watanabe, segue o padrão tradicional dos filmes de guerra, da preparação até a grande batalha.

O BARCO (Das Boot)

Obra prima do diretor alemão Wolfgang Peterson, produzido em 1981, indicado para 6 Oscars, claustrofóbico e angustiante como o interior de um U-boat deve ser. As cenas mostrando o terror da tripulação ao ser atacada por cargas de profundidade de navios aliados são de um realismo e crueza incomparáveis.

Ótima realização do cinema alemão, exorcizando antigas cicatrizes.

TORA, TORA, TORA (Tora, Tora, Tora)

Superprodução de 1970, destacando Martin Balsam, Joseph Cotten, E.G.Marshall, Jason Robards, Sô Yamamura, Tatsuia Mihasi e Takahiro Tamura, mostrando em detalhes a preparação e o ataque japonês a base de Pearl Habour, que provocou a entrada dos Estados Unidos na guerra.

Ganhou merecidamente o Oscar de melhores efeitos especiais. Um dos melhores e mais bem feitos filmes do gênero até hoje.

*****

E lista continua no próximo post. Não pensem que esqueci “A Ponte do Rio Kwai”, “A Batalha do Bulge” ou o cultuado “A Queda”. Aguardem!

A vida é dura!

José Saramago, o grande escritor português, uma vez afirmou que “nossa maior tragédia é não saber o que fazer com a vida”. Que ela não é fácil isso não se discute, mas a maneira como a vivemos, as expectativas que criamos, decepções com sonhos não realizados, amores não correspondidos e a inexorável jornada para a morte são mais do que suficientes para gerar frustrações e ressentimentos.

Durante nossa breve existência temos que conviver com a disputa pelo poder, o consumismo desenfreado, preconceitos, ódio e o mais importante, nossa própria ignorância! É claro que somos recompensados com amores, amizades, esperança e curiosidade, mas a grande dificuldade sempre foi e será o que fazer com a vida que recebemos.

Sei lá, se nós ao mundo viessemos com um manual de instruções, talvez tudo fosse mais simples…

Ódio nas redes sociais

A edição de maio da revista Info traz uma oportuna reportagem sobre a agressividade nas redes sociais. Ofensas, preconceitos e bullying são encontrados cada vez mais nos comentários. Apropriadamente intitulada de ”Ódio.com”, a matéria traz depoimentos de usuários, personalidades, psicólogos, advogados e mostra como empresas como o Facebook e o Twitter lidam com esse comportamento.

Segundo a revista, “nos grandes portais, boa parte das notícias publicadas é imediatamente respondida com opiniões preconceituosas que muitas vezes não têm nenhuma relação com o tema da reportagem. O cenário é ainda pior nas redes sociais, com seu constante estímulo a opinar sobre tudo, a qualquer momento, sem uma análise racional sobre os assuntos comentados”.

E mais: “a necessidade de comentar e de ter opiniões fortes sobre todos os assuntos pode ser resultado de um desiquilíbrio em sua vida social. Como é difícil falar diretamente com um político ou com uma celebridade, a web faz o papel de ponte. (…) Na internet, a pessoa tem a ilusão de resolver problemas com os quais não consegue lidar na vida real, por falta de coragem ou de autoridade”.

Quem tem blogs conhece muito bem esse problema: basta publicar alguma coisa sobre um tema polêmico como aborto, religião, futebol ou, principalmente política, para ficar sujeito a críticas quase sempre sem embasamento, patrulhamento ideológico de diversos matizes e até mesmo xingamentos e ameaças!

Tem saída? Bom, nos blogs existe a função moderação, que só permite a publicação do comentário após sua aprovação pelo autor da postagem. Ofensas gratuitas, opiniões homofóbicas, racistas, misóginas, spam descarado ou simples trolagem são devidamente deletados na raiz. Esse, aliás, é um dos defeitos das redes sociais: as pessoas escrevem sem pensar e acabam dando vazão a um lado da personalidade que não é mostrado na vida real.

É bom lembrar que a lei brasileira pune esse tipo de comportamento e as próprias redes sociais possuem instrumentos para coibir (e até banir) seus usuários mais exaltados (ou antissociais mesmo). A justiça tem sido acionada em casos de injúria e perseguições e o Congresso aprovou a chamada lei Caroline Dieckman, tipificando os chamados delitos ou crimes informáticos.

A questão que a reportagem deixa em discussão é até onde chegará todo esse ódio. Será que essas discussões insanas não acabarão afastando os criadores de conteúdo, desqualificando um serviço tão útil?

O jeitinho americano

O jeitinho americano

Terminei de ler, com enorme prazer, o livro “O jeitinho americano: 99 crônicas” do norte-americano Mathew Shirts, radicado há mais de 30 anos no Brasil, cronista e colunista do Estadão. Lançado em 2010, pela Realejo Edições, tem prefácio do escritor Mario Prata e mostra, com muita ginga e bom humor como um gringo, depois de um certo tempo e apesar de todas as diferenças culturais, acaba “ficando” brasileiro.

Para quem aprecia o gênero, é um prato cheio! O texto flui gostoso e, como comprei a versão para o Kindle, foi minha leitura favorita nas longas viagens do Rio para Nova Friburgo. Mas como não tenho a menor pretensão de fazer crítica literária, vale a pena ler a análise do escritor Reinaldo Moraes. De minha parte, assino embaixo!

Quando Matt começou a escrever suas cronicas semanais no Estadão, em 1994, fiquei de orelha em pé, e por um duplo motivo. Primeiro, porque tive de me curvar ao fato de que, mesmo tendo aprendido depois de adulto essa tralha de língua complicada que é o português, inda mais na informalíssima versão brasuca, o grigo batia um bolão em seus textos leves, divertidos e cheios de ideias sobre a cultura brasileira, dos grandes temas à miudeza do cotidiano, que davam um baile nas teses e publicações destinadas à corriola universitária, da qual, aliás, Matthew Shirts, o popular Mateus, é oriundo.

Depois, porque me deu um ciúme danado de ver acessíveis a todos os leitores do jornal Estadão aquelas histórias e reflexões deliciosas que ele desfiava diante dos amigos durante nossas prolongadas tertulias boemicas. Os causos do Mateus envolviam basicamente sua infância e adolecência no States, com muito surf, Hendrix e Monk, e a por vezes inacreditável saga de sua adaptação à Terra Brasilis. Isso, desde meados dos anos 70, quando ele aportou nestas plagas aos 16 anos para passar um ano em Dourados, no Mato Grosso (hoje, o do Sul), como intercambistado American Field Service (AFS), um programa internacional que abria as portas do mundo para os teens americanos e as dos Estados Unidos pra molecada do mundo todo, ou quase.

Agora, com as crônicas finalmente – e finamente – selecionadas e editadas em livro, somos convidados à mesa do cronista para os debates lúdicos e sempre instigantes que ele trava em torno de temas que vão desde a antiga importância do casco retornável da cerveja nas relações econômico-afetivas entre os brasileiros até a iminente substituição do livro de papel pelos leitores eletrônicos – passando por um sempre animado bate-bola com alguns dos nomes mais importantes da cultura contemporânea, a começar por Richard Morse, seu professor na Califórnia e grande amigo, um autêntico WASP da costa leste que se interessou pela América Latina depois de assistir Carmem Miranda ao vivo. “Nunca tinha visto uma mulher se mexer daquele jeito”, confessou-lhe o mestre, instigando-o a vir pela terceira vez ao Brasil, como aspirante a brasilianista. É o que Matt nos conta em uma das crônicas memoráveis deste livro.

O mais bacana de tudo, porém, é que, além de termos à mesa os interlocutores prediletos do autor, caras do naipe de Hunter Thompson, Antonio Pedro Tota, Jorge Caldeira, Roberto DaMatta, Mario Prata, José Miguel Wisnik e o cineasta Quentin Tarantino – além de Morse, é claro -, somos seduzidos aqui a vivenciar nosso país como ele é em seus melhores momentos, lugares e ângulos. O Brasil de Matthew Shirts é o lugar onde, infelizmente, nem todos estamos o tempo todo. Mas é, com certeza, onde todos merecemos estar, de preferência na companhia deste adorável gringo da pá virada.”

O Rio? Vai muito bem, obrigado

RJ17157

por Carlos Emerson
Correio da Manhã, 1955

O Rio de Janeiro ? Vai bem. Muito obrigado.

O Carioca é que não vai muito bem. Desde que soltaram essa multidão de automóveis nas ruas, o carioca passou a viver uma tragédia. Se Shakespeare fosse de 1953 por certo êle traria os Capuleto e os Montecchio para o asfalto carioca e Romeu e Julieta acabariam abraçados e despedaçados na murada do Flamengo.

Contudo temos que concordar que morre mais gente de automóvel no Rio do que no “Hamlet”, contando-se para isso desde a primeira representação dessa peça de Shakespeare no mundo…

Vive o carioca uma época de medo. Medo medroso do próprio medo. Tem medo de olhar as vitrines. De hora em hora sobem os preços.

Tem medo de andar nas ruas, porque a Prefeitura tem o hábito de deixar buracos por tôda a parte. Tem receios de tomar banho de mar. Por que? Muito simples: pelas praias escorrem coisas estranhas dos canos dos esgotos e dizem que essas coisas fazem mal para a saúde…

O carioca é que não vai muito bem…Vive cercado duma Polícia onde há os mais variados uniformes. Policial de todo jeito. Há ocasiões que parece estarmos vendo um gran-de desfile, tal quantidade variada de militares. Mas quando se precisa de um dêles… não aparecem…. E às vezes, quando aparecem épara complicar mais as coisas, sem contar quando dão de fazer assaltos e ainda tomarem niponicamente as namorados dos civis…

Não há morro que não esteja empetecado de favelas. Casinholas de todo feitio improvisadas com tábuas e zinco vão se estendendo através de Copacabana, Ipanema, Leblon e Av. Niemeyer. Como vive essa gente toda ?

O carioca que leva a vida pacata do chefe de familía não sabe explicar como essa gente vive, mas sabe de uma coisa: é que mais dia menos dias, ele acabará sendo assaltado nas ruas. Eu não sei se esses assaltos tem ligação com a gente das favelas…

O Rio de Janeiro ? Vai bem, muito obrigado. Mas o carioca… É a Cofap para atrapalhar o orçamento e a Light para cortar a luz…E já é uma multidão de gente que começa a pregar papel nas paredes anunciando uma eleição que vai haver e prometendo histórias de mil e uma noites… Sim! Mas, desta vez, o carioca já está tão escovado que vai ter medo… de seus salvadores.

O Rio de Janeiro ? Vai bem, muito obrigado.”

*****

Crônica escrita por meu pai, Carlos Emerson, jornalista, contador e auditor, publicada no antigo jornal carioca Correio da Manhã, em 28 de junho de 1955. Se você gostou, vale a pena ler Retrato de Copacabana, escrita em 1961, ainda atualíssima!

Foto: Google Imagens

Imagina na Copa

A Voz da Serra, 6/4/2013

Calçadão da Avenida Atlântica, noitinha, lá na altura da Siqueira Campos. Tempo bom, temperatura por volta dos 24º, muita gente passeando ou se exercitando, ciclistas e corredores para cima e para baixo na ciclovia e os quiosques movimentados. Já quase no final de minha caminhada treino, sou surpreendido por um homem enorme e muito gordo, passando por mim correndo, com um revolver em uma das mãos!

Por puro reflexo, desviei rapidamente para o lado da areia, evitando fazer qualquer contato visual com o, digamos assim, elemento. Imediatamente dois policiais militares me ultrapassaram, sacando as suas pistolas. Por um momento fiquei entre os três, esperando a hora que ia virar um óbvio alvo humano. Desacelerei e pulei na areia, buscando proteção na beira da calçada.

Ninguém atirou em ninguém. O suposto ladrão atravessou as pistas, em direção ao centro do bairro mas não teve folego para prosseguir. Os dois PMs facilmente o renderam sem violência. Foi aí que apareceu a vítima, um garoto russo, que saiu lá dos confins da Europa para ser assaltado no Brasil. Coitado, turista sofre.

*****

Rua Barata Ribeiro, Posto 4, Copacabana, duas e trinta da tarde. Assim que dobrei a esquina com a Dias da Rocha percebi o tamanho da encrenca: uns trinta garotos, divididos em 3 grupos, nas duas calçadas e no meio da via, bem espalhados, quase que ocupando o todo o quarteirão, caminhavam sem camisas, provocando os pedestres e cercando os carros na rua. Fechando o bando, uns quatro marmanjos bem fortes, dois de cada lado, como se seguranças fossem…

Imediatamente entrei no primeiro botequim que achei, junto com outros incautos, esperando a horda passar. O sentimento de todos ali, era de desalento com o abandono e falta de perspectiva daqueles jovens e revolta com a tal pacificação vendida pelo governo do estado e os jornais cariocas. Os garotos seguiram em direção ao Leme, aparentemente só com intuito de intimidar. Como bons cariocas, logo formamos os inevitáveis grupinhos para discutir esse quase “arrastão”. A conclusão foi unânime:

– Se isso acontece agora, imagina na Copa?

*****

E tem mais. O caso abaixo foi narrado por uma amiga nas redes sociais, textualmente:

“Cena de terror, ontem ao sair do trabalho…Caramba nunca havia passado por tamanha situação. Sai de carro do meu trabalho normalmente, peguei o túnel Rebouças. O trânsito estava lento, é claro. Quando sai do túnel, já no viaduto Paulo de Frontin, percebi que uma moto parou o trânsito literalmente, ficando de lado em frente a um carro. Eu era o quinto ou quarto carro atrás. De repente, um tumulto, todo mundo saindo do carro gritando que era um assalto. Fiquei apavorada, tremia como nunca tremi. Larguei o carro, peguei minha bolsa e meu laptop (não sei porque), corremos todos e, de repente escutamos dois tiros. Não sabíamos de onde vinham. Todos se agacharam no chão do viaduto, inclusive eu. De repente surgiu um homem abençoado, que estava parado no carro do meu lado, com uma pistola na mão dizendo que era policial e que iria na frente de todos. Aí os assaltantes correram e o todos voltaram para os seus carros, deixando o carro do policial ir na frente. Parecia um comboio. Tinha carro que não sei como conseguiu virar do lado contrário (na contramão). Só parei de tremer de fato, quando cheguei em casa, tomei muita água, pois minha boca parecia que não tinha saliva. Essa é a nossa Cidade Maravilhosa que receberá o jogo da Copa do Mundo e as Olimpíadas. Que Deus nos proteja sempre ao sairmos de casa, pois nunca sabemos se vamos voltar.”

*****

A questão é determinar até que ponto ações de marketing podem mudar a percepção que temos de uma cidade. No caso do Rio, o bordão que todos os cariocas usam para manifestar seu espanto e revolta diante de cenas de descaso, incompetência, violência e incredulidade diante do apetite voraz dos corruptos, o já nacionalmente famoso “imagina na Copa”, é apenas um desabafo, claro.

Pessoalmente, não tenho a menor dúvida que a Copa do Mundo será realizada sem maiores problemas. O dia seguinte é que me apavora…

Arrastão do medo

foto: Carlos Emerson Junior
foto: Carlos Emerson Junior

Rua Barata Ribeiro, Posto 4, Copacabana, Rio. 14 e trinta. Assim que dobrei a esquina com a Dias da Rocha vi o tamanho da confusão: uns trinta garotos, divididos em 3 grupos, nas duas calçadas e no meio da via, bem espalhados, quase que ocupando o todo o quarteirão, caminhavam sem camisas, provocando os pedestres e cercando os carros na rua. Fechando o grupo, uns quatro marmanjos bem fortes, dois de cada lado, como se seguranças fossem…

Imediatamente entrei no primeiro botequim que achei, junto com outros incautos, esperando a horda passar. O sentimento de todos ali, meus caros, era de desalento com o abandono e falta de perspectiva daqueles jovens e revolta com a tal pacificação vendida pelo governo do estado e os jornais cariocas. Os garotos seguiram em direção ao Leme, aparentemente só com intuito de intimidar. Cada um de nós seguiu seu rumo, mas a pergunta que fica no ar, é sempre a mesma:

– E se isso acontece na Copa?