A tartaruga do Natal

Pois é, pelo menos a véspera do Natal nos trouxe essa visão bonita, uma grande tartaruga marinha nadando pertinho da mureta da Urca, apesar da água imunda e escura da Baia da Guanabara. Um pescador me viu de bobeira com a máquina fotográfica na mão e veio correndo me chamar para registrar a passagem do quelônio.

Valeu, meu caro, e como! Agora só falta tomarmos vergonha na cara e exigirmos das autoridades estaduais e federais a despoluição da nossa querida Baía. Prá valer!

Leia também: Era uma vez uma tartaruga

Fora, fora, fora

Fora, grita o senador.
Fora, apoia o deputado.
Fora, fora, fora,
é o mantra de todas as bancadas.

Governadores se reúnem,
os prefeitos em massa aderem.
Fora, fora, fora,
vereadores em marcha protestam!

A mídia deita e rola,
palpita, debate, participa e informa:
fora, fora, fora
é, sem dúvida, a manchete do século.

Cientistas políticos dão palestras,
Socialites, intelectuais e sábios determinam:
fora, fora, fora,
a hora de mudar é agora!

Bancos, comércios, indústrias,
prestadores de serviços, todos exultantes,
aumentam suas taxas e preços.
Fora, fora, fora
de repente, virou slogan de vendas.

Nas ruas, quem diria,
o povo nem se divide,
Fora, fora, fora,
alegremente, é o tema do dia.

Veio a votação e, que lástima,
congressistas e juizes não se entendem,
um tal quorum não é atingido e
ninguém foi para fora.

No dia seguinte, de ressaca, a volta à normalidade:
discussões, acusações, ameaças, agressões.
Fora, fora, fora,
amanhã vai ser outro dia.

Medo

Quando o escritor moçambicano Mia Couto, um dos mais importantes nomes da moderna literatura na língua portuguesa, leu seu texto “Murar o Medo”, nas Conferências do Estoril, realizadas em Portugal em 2011, tocou na maior ferida da humanidade. Temos medo desde as nossas origens, quando sem luz procuramos abrigo dentro de cavernas contra inimigos reais e imaginários.

A humanidade evoluiu, foi ao espaço, aumentou seu conhecimento e o medo continua lá, sempre a nossa espera. O poder está sempre com quem tem a capacidade de provocar o medo, seja ele físico, moral, espiritual ou psicológico. O medo vence porque ele não tem medo. O medo se basta, é intangível e presumo, infinito. Talvez seja essa a nossa sina, para viver, precisamos temer.

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Existe uma saída contra o medo? Segundo José Saramago, outro grande escritor português, vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 1998, em um artigo publicado na Folha de São Paulo, em 1991, é possível, mas só depende de nós mesmos: basta dizer não!

“A palavra de que eu gosto mais é não. Chega sempre um momento na nossa vida em que é necessário dizer não. O não é a única coisa efetivamente transformadora, que nega o status quo. Aquilo que é tende
sempre a instalar-se, a beneficiar injustamente de um estatuto de autoridade. É o momento em que é necessário dizer não. A fatalidade do não – ou a nossa própria fatalidade – é que não há nenhum não que não se converta em sim. Ele é absorvido e temos que viver mais um tempo com o sim.”

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Texto extraído da crônica publicada no jornal A Voz da Serra, edição de 7 de dezembro de 2012.

Cisne Branco

Tem um veleiro ao longe, bem perto da Ponte… Deve ser o Cisne Branco, só pode. Ou será uma miragem? Não, miragens não podem ser fotografadas, a questão aqui nem é essa, minha dúvida é se o veleiro é o Cisne Branco ou um outro parecido, vindo de algum país do outro lado deste Atlântico tão cheio de histórias.

A manhã está enevoada, a poluição dificulta a visão e a distância é enorme mas, palavra de quem já pilotou um veleiro nesta Baia da Guanabara, é o barco mais bonito de todas as marinhas do mundo. E o melhor, não tem canhões, encanta por suas velas, ensina a navegar e sua missão é levar a paz.

Pois é, tem um Cisne Branco bem perto da Ponte…

Uma queda olímpica

A crônica é antiga, foi publicada no jornal A Voz da Serra, de Nova Friburgo, exatamente no dia 7 de setembro de 2012, mas não fala do nosso ‘Independence Day’ e sim de tombos, quedas, tropeções, escorregadas e tudo o que nos joga no chão, no sentido literal da expressão e sem direito a nenhuma medalha.

Muito pelo contrário…(Carlos Emerson Jr.)

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Uma queda olímpica

Meu sogro, talvez influenciado pelos recém-encerrados Jogos Olímpicos de Londres, esqueceu que está com 80 e muitos anos e resolveu saltar sobre um balde de água que a faxineira esqueceu na porta da cozinha do seu apartamento. O resultado da proeza foi um tornozelo fraturado, quinze dias de molho com um trambolho na perna jocosamente apelidado de robocop e, é claro, sem direito a uma medalha qualquer.

Um grande amigo nosso, médico e professor de primeira linha, gostava de alertar, com a voz grave e a expressão bem séria que, o que mata velho mesmo é um bom tombo. Um belo dia ele mesmo, também idoso, escorregou na escada de casa, quebrou uma clavícula e lá se foi para o hospital. Não é que ele sabia o que estava falando?

Minha mãe, já com quase noventa anos, saiu do boxe após o banho, ignorou o piso molhado e se esborrachou no chão! Para sua sorte, minha irmã estava por lá e correu para ajudar. Incrivelmente ela não fraturou um ossinho sequer e as sequelas foram alguns hematomas e a dignidade profundamente ferida. Imagina se a velha senhora ia aceitar que tinha caído porque não usou o tapete de borracha do banheiro?

Eu também não posso falar nada: após terminar um trabalho no notebook de uma de minhas filhas, resolvi guardar o aparelho. Como a cachorra da casa estava dormindo no corredor, fui tateando no escuro para não acorda-la. A idiotice não deu em outra: pisei em um dos brinquedos da peluda, perdi o equilíbrio e cai de cara no chão. Não me machuquei e nem quebrei o computador, mas tive que aturar dores no corpo e gozações por alguns dias. E olha que eu ainda nem era oficialmente um idoso!

Pois é, casos como esses se sucedem em todos os lugares e todo mundo tem uma ou várias histórias para contar, uma grande parte com um final bem mais triste.

Segundo o Sistema Único de Saúde – SUS, 75% dos acidentes sofridos por pessoas com mais de 65 anos acontecem dentro de casa, sendo as quedas as mais comuns. De fato, 30% dos idosos caem pelo menos uma vez por ano e 75% dentro de sua própria casa. Infelizmente, as quedas também são as maiores causadoras de óbitos, chegando a 70% na faixa etária acima de 70 anos. É importante frisar que 46% das fraturas provocadas por esse tombos acontecem durante a noite, no trajeto quarto-banheiro.

As causas dessas quedas são inúmeras, já que à medida que a idade avança, perdemos nossos reflexos e agilidade, mas em alguns casos, a imprudência também faz suas vítimas. Meu sogrão, logo depois de seu tombo olímpico, cismou que a poltrona do seu computador era mais adequada que a cadeira de rodas recomendada, se empolgou e… caiu novamente, felizmente, desta vez, sem mais nenhum dano físico!

O renomado Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia – INTO publicou o artigo “Queda de Idosos”, (que pode ser lido na internet, no endereço http://bvsms.saude.gov.br/bvs/dicas/184queda_idosos.html), abordando o assunto de forma didática e deixando uma série de sugestões e cuidados para minimizar ou até mesmo evitar os tombos.

Confira algumas:

No quarto:

  • Coloque uma lâmpada, um telefone e uma lanterna perto de sua cama;
  • Durma em uma cama na qual você consiga subir e descer facilmente (cerca de 55 a 65 cm);
  • Os armários devem ter portas leves e maçanetas grandes para facilitar a abertura, assim como iluminação interna para facilitar a localização dos pertences;
  • Dentro do seu armário, arrume as roupas em lugares de fácil acesso, de preferência evitando os locais mais altos;
  • Instale algum tipo de iluminação ao longo do caminho da sua cama ao banheiro;
  • Não deixe o chão do seu quarto bagunçado.

Na sala e corredor:

  • Organize os móveis de maneira que você tenha um caminho livre para passar sem ter que ficar desviando muito;
  • Mantenha as mesas de centro, porta revistas, descansos de pé e plantas fora da zona de tráfego;
  • Instale interruptores de luz na entrada das dependências de maneira que você não tenha que andar no escuro até que consiga ligar a luz. Interruptores que brilham no escuro podem servir de auxílio;
  • Ande somente em corredores, escadas e salas bem iluminadas;
  • Mantenha fios de telefone, elétricos e de ampliação fora das áreas de trânsito, mas nunca debaixo de tapetes;
  • Coloque nas áreas livres tapetes com as duas faces adesivas ou com a parte de baixo não deslizante;·.

Na cozinha:

  • Limpe imediatamente qualquer líquido, gordura ou comida que tenham sido derrubados no chão;
  • Armazene a comida, a louça e demais acessórios culinários em locais de fácil alcance;
  • As estantes devem estar bem presas à parede e ao chão para permitir o apoio do idoso quando necessário;
  • Não suba em cadeiras ou caixas para alcançar os armários que estão no alto;
  • A bancada da pia deve ter de 80 a 90 cm do chão para permitir uma posição mais confortável ao se trabalhar.

Na escada:

  • Não deixe malas, caixas ou qualquer tipo de bagunça nos degraus;
  • Interruptores de luz devem estar instalados tanto na parte inferior quanto na parte superior da escada. Outra opção é instalar detectores de movimento que fornecerão iluminação automaticamente;
  • A iluminação deverá permitir a visualização desde o princípio da escada até o seu fim, assim como as áreas de desembarque;
  • Remova os tapetes que estejam no início ou fim da escada;
  • Coloque tiras adesivas antiderrapantes em cada borda dos degraus;
  • Instale corrimãos por toda a extensão da escada e em ambos os lados. Eles devem estar em uma altura de 76 cm acima da escada.

No banheiro:

  • Coloque um tapete antiderrapante ao lado da banheira ou do box para sua segurança na entrada e saída;
  • Instale na parede da banheira ou do box um suporte para sabonete líquido;
  • Instale barras de apoio nas paredes do seu banheiro;
  • Mantenha algum tipo de iluminação durante as noites;
  • Use dentro da banheira ou no chão do box tiras antiderrapantes;
  • Ao tomar banho, utilize uma cadeira de plástico firme com cerca de 40 cm, caso não consiga se abaixar até o chão ou se sinta instável.

*****

Já estava colocando o ponto final na crônica quando minha irmã telefonou para contar que a mãe de uma amiga, uma senhorinha simpática e independente, foi atender o interfone do apartamento, se enroscou com o cachorrinho de estimação e caiu no chão, fraturando o fêmur. Como diziam antigamente nos filmes de suspense, o perigo está sempre à espreita e vem de onde menos se espera.

Como prevenção não custa nada, que tal dar uma checada na sua casa? A turma da terceira idade agradece.

A Voz da Serra (7/9/2012)
Fotografia: Eddie Keogh/Reuters

Uma visita

Foi ontem, no fim da tarde. Sentado no escritório estava a revisar um texto enoorrrme, com a companhia da cachorra Filó, roncando o sono dos justos e satisfeitos (com o almoço, é claro). De repente, senti que estava sendo observado. Levantei os olhos do trabalho e não deu outra, o bichano da foto estava aí mesmo, pendurado nesse muro que nos separa da casa ao lado, olhando fixamente para mim. Passado o susto e já aliviado – não era um gambá – fotografei o visitante e fiquei esperando qual seria seu próximo movimento. Pois é, o movimento foi da Filó, como era de se esperar: levantou, farejou e latiu como se não houvesse amanhã! O gato olhou para a cachorra, balançou a cabeça, virou as costas e foi embora no meio das plantas.

Tomara que ele volte.

Era uma vez uma tartaruga

Ah, minha querida tartaruga, você não merecia isso. Logo agora, na véspera de um dos maiores eventos do planeta, quando todos os olhares estarão voltados para a cidade do Rio de Janeiro, você se enroscou numa rede de pesca, encalhou nas pedras do paredão da Urca, a maré baixou e, sem saída e socorro, morreu.

Pois é, eu sei que sua família vive nessas águas imundas da Baia da Guanabara há mais de 110 milhões de anos. Reconheço que um dos motivos da ameaça de extinção de sua espécie é o lixo que, sem nenhum pudor descartamos de qualquer maneira em nossos rios e esgotos, envenenando sua alimentação.

Adianta pedir desculpas? Ontem, quando encontrei seu corpo inerte, fui tomado por um grande sentimento de culpa, dor e impotência, da mesma maneira como todas as outras pessoas que ali passavam e viam a cena.

Hoje, voltei lá e seu corpo já havia sido removido. No entanto, como a a imbecilidade humana não tem limites, o mar, desta vez, estava todo manchado de óleo combustível, derramado de algum navio ou barco que navegou pelas imediações. Mais mortes à vista.

Tartarugas, gofinhos, cavalos-marinhos, peixes de todas as espécies, criaturas do mar, perdão. A Baia era de vocês e tanto fizemos que o paraíso virou uma imensa lixeira que mais cedo ou mais tarde vai acabar com nós mesmos, bípedes irracionais, irresponsáveis e irremediavelmente sem nenhum futuro.

oOo

Leia mais sobre as tartarugas:
Sea Shepherd Brasil
Projeto Aruanã
Projeto Tamar
Instituto de Arquitetos do Brasil

Uma estrela longe demais

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KIC 8462852 não é um código de barras. Muito menos uma conta bancária suiça ou uma senha para espionagem. Na verdade trata-se de uma estrela de nossa galáxia a 1.480 anos luz de distância, quase uma eternidade para os padrões humanos.

KIC 8462852 foi observada pelo Telescópio Espacial Kepler, um especialista em descobrir novos mundos (mais de 4.000 fora do sistema solar, é pouco ou quer mais?) e alguém notou um fato curioso, anormal até: em sua volta, objetos não identificados (sem nenhum trocadilho) “viajam” em diversas velocidades, em órbitas completamente irregulares e imprevisíveis.

KIC 8462852 provocou comoção no meio científico e diversas hipóteses surgiram para tentar resolver o mistério. A que mais gostei (e é também uma das mais criativas) foi a do astrônomo Jason Wright, que os objetos seriam uma espécie de mega-infraestruturas criadas por algum tipo de civilização para aproveitar a energia da estrela.

KIC 8462852 seria o berço de seres tão avançados construiram um complexo de usinas de energia solar orbital que pode ser visto a mil e quinhentos anos-luz de distância? Ou os objetos não passam de fenômenos físicos desconhecidos de nossa ciência ainda tão jovem?

KIC 8462852 é um mistério fascinante (leia mais aqui) mas, infelizmente, continuará por muito tempo sendo uma estrela longe demais. Bem, talvez não, afinal sempre haverá um escritor pronto para descobrir seus planetas, contar a sua história e a de seus habitantes, no menor tempo possível.

Que bom!

Imagem: NASA

Bicicleta também é música!

Vocês conhecem a CYCLOPHONICA – Orquestra de Câmara de Bicicletas? Pois é, mas eu não e foi com a maior alegria que tive a felicidade de dar de cara (e ouvidos) com essa moçada animada, talentosa e inspirada pedalando na mureta da Urca, aqui do lado de casa, tocando Tom Jobim, Pixinguinha e encerrando com o nosso hino nacional, o “Cidade Maravilhosa”!, cantado em uníssono por cariocas, turistas e atletas que ali se encontravam.

Um belíssimo presente de feriado e fica a dica e o endereço do seu site. Se bicicleta já é tudo de bom, com músicos de qualidade, muita imaginação e animação, fica melhor ainda.

Valeu a manhã!

Fotos e video: Eu mesmo

Por que os kamikazes usavam capacetes?

1) porque eram militares e o capacete faz parte do uniforme ;
2) para proteger a cabeça de pancadas e do frio;
3) e o mais importante, o sistema de comunicações entre a base e os outros aviões era feito através de fones e microfones, dentro do capacete.

Kamikaze, que pode ser traduzida como “Vento Divino”é uma palavra japonesa — comum por ter se tornado o nome de um tufão que dizem ter salvo o Japão em 1281 de ser invadido por uma frota líderada por Kublai Khan, conquistador do Império Mongol. Os Kamikaze Tokubetsu Kōgekitai foram unidades de ataque suicida por aviadores militares do Império Japonês contra navios aliados nos momentos finais da campanha do Pacífico na Segunda Guerra Mundial.

Cerca de 2.525 pilotos morreram em ataques Kamikaze, causando a morte de 4.900 soldados aliados e deixando mais de 4 mil feridos. O número de navios afundados é controverso. A propaganda japonesa da época divulgava que os ataques conseguiram afundar 81 navios e danificar outros 195. A Força Aérea Americana alega que 34 barcos afundaram e 368 ficaram danificados.

O Vice-Almirante Takijiro Onishi, vice-chefe do Estado Maior Geral da Marinha e criador das operações Kamikaze, cometeu seppuku nos seus aposentos em Tóquio em 16 de Agosto de 1945, um dia após o anúncio da rendição incondicional do Japão. Conformemente, Onishi não utilizou um kaishakunin – assistente encarregado de decepar a cabeça do suicida logo após ele rasgar o estômago com um punhal – em seu ritual de suicídio, e morreu do ferimento 15 horas após o ato.

Em sua carta de despedida, pedia desculpas aos pilotos que ele tinha enviado para a morte, e incitava todos os jovens civis que tinham sobrevivido à guerra para trabalharem de modo a reconstruir o Japão e defender a paz entre as nações. Deixou também, como manda a tradição, o seguinte poema:

“Hoje em plena floração,
amanhã dispersa pelo chão.
A vida é uma flor delicada.
Como esperar que a sua fragrância dure eternamente?”

Dia Mundial sem Carro

Taí, por essa eu não esperava. Mas torcia muito, acreditem! Sentei para escrever esse artigo sobre o já tradicional “Dia Mundial sem Carro”, abri a internet para checar alguns dados e dei de cara com uma pesquisa da Liberty Seguros e o Instituto Teor Marketing, mostrando que nós, cariocas (da gema ou não) estamos de parabéns: o nosso Rio foi considerada um exemplo de metrópole compacta.

Alguns números falam por si e merecem destaque.

– 58% dos entrevistados afirmaram que se deslocam a pé para atividades do dia a dia em geral, incluindo trabalho, lazer, ir à ginástica e fazer compras, entre outras (a média nas outras cidades onde o trabalho foi feito, São Paulo, Porto Alegre, Salvador, Curitiba e Belo Horizonte foi de 43%);

– 38% responderam ter optado por uma nova forma de locomoção nos últimos cinco anos, sendo que, desse total, 37% trocaram o carro ou moto pelo transporte público. Entre os motivos que levaram à troca, lideram a redução do tempo de percurso, o conforto, a praticidade e o menor cansaço pelo tempo despendido com o trânsito. O índice de adesão ao transporte público no Rio de Janeiro foi o mais alto entre todas as capitais do estudo;

– 76% dos entrevistados cariocas desejaria que as calçadas fossem mais largas para os pedestres e, para 63%, os moradores da cidade do futuro deveriam passar mais tempo em parques e outros locais abertos;

– e por fim, 95% dos cariocas gostaria de trabalhar em horário diferenciado ou fazer uso da prática do home-office algumas vezes durante a semana. Atualmente, 52% dos entrevistados declaram ser beneficiados por este tipo de prática.

Apesar de todos os problemas estruturais, econômicos, políticos e, principalmente, a pobreza que afeta boa parte de nossos conterrâneos, estamos no caminho certo. A mobilidade urbana, tão caótica devido ao nosso atraso em planejamento e investimentos, pode (e deveria) sair fortalecida dos jogos olímpicos do ano que vem, tornando-se, talvez, o único legado de uma série eventos onde muito poucos ganharam bilhões.

Enfim, vamos em frente e para comemorar a data de hoje, recomendo a leitura do ótimo artigo “As consequências do uso excessivo do automóvel”, de Willian Cruz, publicado no site Vá de Bike.

Boa caminhada.

cartaz

Cidade sem carros

Acabei de ler a notícia abaixo, da jornalista Vanessa Barbosa, no site do Planeta Sustentável:

Já imaginou uma cidade inteira livre do caos, barulho e poluição provocados pelo trânsito? Pois Paris ficará (quase) assim no dia 27 de Setembro. A cidade luz vai fechar suas principais avenidas para veículos durante um dia inteiro em ação inédita pela mobilidade sustentável.

Nenhum veículo motorizado será autorizado a conduzir pelas ruas, com algumas exceções, como ambulâncias e viaturas policiais. Pedestres e ciclistas poderão circular livremente pelos espaços antes tomados por carros.

“Vamos fazer deste primeiro dia sem carros uma grande festa cívica, de momentos deliciosos”, diz a organização do evento. Estão previstos shows, exposições e uma série de outras atividades de entretenimento.

As áreas sem tráfego incluem 11 bairos (do 1º ao 11º arrondissement), e os mais conhecidos pontos tursíticos, como a avenida Champs-Élysées, a Praça da República e de Stalingrado, a Praça da Bastilha e toda área ao redor da Torre Eiffel e do Bosque de Boulogne, entre outros.

A combinação do tráfego intenso com fatores climáticos atípicos tem sido motivo de preocupação na cidade nos último dois anos. Em 2014, a prefeitura chegou a liberar transporte público gratuito para deter os altos níveis de poluição.

Este ano, só no mês de março (que marca o fim do inverno e começo da primavera no país), a cidade precisou implementar mais de três rodízios contra a poluição.

Com a aproximação da conferência internacional sobre as mudanças climáticas, COP21, que acontece em dezembro na capital francesa, Paris quer dar o exemplo na luta contra a poluição e multiplicar ações semelhantes.

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Adorei a ideia! E aí pessoal, vamos fazer o mesmo em nossas cidades? Aliás e a propósito, a foto da Avenida Presidente Vargas, foi “editada” pelos autores do artigo “E se o Rio de Janeiro não tivesse carro”, juntamente com imagens de outras vias importantes, completamente vazias. Não deixe de passar lá!

O som da vitrolinha

“Vamos ser realistas: o vinil não renasceu, há poucas pessoas ouvindo esses discos. O vinil depende do petróleo para a sua produção, então não há justificativa para que ele volte. Mas os Lps ainda soam maravilhosamente bem. Os CDs têm um som aceitável, mas só se forem bem produzidos. E o som dos MP3s também passa, não é nada de mais. Quando comecei a minha carreira, nós ouvíamos música pelo rádio, e era sempre ruim. Nossas primeiras vitrolas eram uma porcaria, e aí os discos também não soavam bem. Mas era a música que importava – procurá-la, encontrá-la, tomar posse dela. E a tecnologia fez com que isso ficasse muito melhor hoje.”

Com essas palavras, Pete Townsend, o eterno guitarrista do The Who resumiu a relação da música (principalmente o rock) com os meios físicos para ouvi-la, a partir dos anos 60. A propósito, meu primeiro disco foi um compacto simples dos Beatles, que toquei à exaustão numa vitrola semiportátil Emerson (nada a ver comigo, por favor), verde e branca e com um som de vitrolinha mesmo.

Poucos amigos tinham em casa um aparelho de som de qualidade, os famosos Hi-Fi (High Fidelity), como dizíamos à época. E mesmo assim, ainda havia o problema do vinil, eternamente de baixa qualidade em nossa Terra Brasilis. Até hoje lembro de minha surpresa quando fui apresentado a um LP “Made in England”, de um colega de escola. Aquilo era inacreditável!

A evolução do rock, de uma certa maneira, acabou provocando uma reação da indústria de áudio e, de repente os equipamentos de som era tão importantes quanto a música. Aliás, acho que foi nessa época que surgiram os chamados “audiófilos”, pessoas fanáticas por som, inclusive, acima da própria música.

Eu mesmo cheguei a ter em casa uma parafernália enorme com duas loudspeakers gigantescas, pré e power amplifier, tuner FM, belt-drive turntable com capsula Shure, tapedeck Dolby e, é claro, headphones. Tudo em inglês, por favor. Mas nem tudo eram flores: A vizinhança vivia reclamando da altura do som e os preços dos equipamentos, importados nem Deus sabe como, eram estratosféricos.

Bons tempos, mas sinceramente não sei se tenho saudades. A tecnologia avançou de tal modo, que hoje nem me dou mais ao trabalho de baixar ou comprar um arquivo de música digital. Simplesmente assino serviços de música streaming, ou seja, por um valor mensal bem baixo, tenho acesso pelo computador, tablet ou smartphone a milhões de canções de todos os gêneros possíveis.

E tem mais, posso montar coleções e playlists e ouvi-las offline pelo smartphone, principalmente quando estou caminhando ou correndo. O mais bacana é que consegui, finalmente, recuperar discos que mal tinha ouvido nos anos 60, verdadeiras raridades que sumiram completamente do catálogo das gravadoras. Resumindo, voltei a ouvir música como fazia nos anos 60, mas com alguma educação musical e um acervo gigantesco à disposição.

Tenho pesquisado muito as primeiras gravações de bossa nova de artistas brasileiros e estrangeiros, um gênero que abominava na época! Descobri algumas pérolas de Odete Lara, Maysa, João Donato, Baden Powell. Voltei a ouvir Chopin, Debussy, Mozart, Beethoven. E ter à mão gente como Oscar Peterson, Bill Evans, Dave Brubeck, Keith Jarret,John Coltrane e tantos outros é simplesmente o máximo.

O streaming é isso, um tipo de rádio com muita música o tempo todo. Será a mídia “física” do futuro? Ou já é a do presente? Afinal, a venda dos CDs físicos caiu, as lojas de discos acabaram e, efeito colateral dos mais positivos, os artistas começaram a correr o mundo para divulgar, ao vivo, seus trabalhos.

De qualquer maneira, é sempre bom ter em mente que o que realmente nos toca é a música em si, mesmo que para ouvi-la precisemos de uma antiga vitrolinha dos anos 60. Ou até um gramofone do final do século 19. Vai saber…

Vamos ler um livro

 

Os números divulgados pelo Instituto Nacional do Livro são desalentadores: o brasileiro lê, em média, quatro livros por ano, mas só consegue levar apenas dois até o fim! A pesquisa feita pelo Ibope Inteligência mostra que as mulheres (57%) leem bem mais do que os homens (43%) e que 75% dos entrevistados nunca entrou em uma biblioteca.

Ao contrário do que acreditamos, a maior parcela de não leitores são adultos, na faixa dos 30 aos 69 anos. Assistir televisão continua sendo a atividade preferida e foi escolhida por 85% dos entrevistados. Em seguida vem escutar música ou rádio (52%), descansar (51%) e reunir-se com amigos e a família (44%). A leitura aparece no sétimo lugar dessa lista.

Enquanto o percentual de entrevistados que declara gostar de ler cai, o grupo dos que aproveitam o tempo ocioso para acessar a internet subiu de 18% para 24%. A pesquisa também identificou um novo comportamento que não estava no estudo anterior: o acesso às redes sociais, indicado por 18% como atividade frequente.

A principal razão apontada por aqueles que diminuíram o volume da leitura foi o desinteresse (78%), o que inclui a falta de tempo, a preferência por outras atividades e a “falta de paciência para ler”. Apenas 4% apontaram a dificuldade de acesso aos livros como motivo para ler menos, o que inclui o preço do livro, a falta de bibliotecas perto de casa ou de livrarias.

Entre os participantes, 64% concordaram totalmente com a afirmação “ler bastante pode fazer uma pessoa vencer na vida e melhorar sua situação econômica”. Ao mesmo tempo, a maior parte diz que não conhece ninguém que tenha progredido na vida por ler muito. Essa doeu…

Entre os livros mais lidos, a Bíblia foi citada por 42% e manteve-se no primeiro lugar, mesma posição ocupada na edição anterior da pesquisa, em 2007. Os livros didáticos foram nomeados por 32%, os romances por 31%, os livros religiosos por 30% e os contos por 23%. Cada entrevistado selecionou em média três gêneros.

Bom, até aí morreu o Neves, como se dizia antigamente. Afinal, pelo que me lembro, nunca tivemos mesmo a fama de bons leitores. Mas confesso minha surpresa ao saber que 70% dos entrevistados nunca ouviram falar dos livros eletrônicos ou digitais, que podem ser lidos em computadores, tablets e até em smartphones.

Aliás, nesse setor, praticamente ainda nem demos a partida: dos 30% que já ouviram falar em e-books, 82% nunca leram um livro eletrônico. De acordo com o levantamento, as pessoas que têm acesso aos livros digitais ou leram pelo computador (17%) ou pelo celular (1%). A maioria dos leitores (87%) baixou o livro gratuitamente pela internet, enquanto outros 38% piratearam os livros digitais, um péssimo sinal…

Os livros digitais são mais populares entre o público de 18 a 24 anos. A maioria dos leitores de e-books pertence à classe A e tem nível superior completo. De acordo com a pesquisa, 52% dos leitores são mulheres e 48% homens.

Pois é, a pesquisa é importante e útil, mas não explica porque estamos lendo cada vez menos. O escritor Affonso Romano de Sant’Anna, em um artigo para a UNESCO/PUC-Rio, acredita numa crise do livro, cujos principais aspectos seriam editoriais (disputa de um mercado mínimo com vinte ou trinta milhões de leitores,), livrarias (temos uma para cada 64.255 habitantes, quando a UNESCO recomenda uma para cada dez mil pessoas), ensino, autores e bibliotecas (o mesmo problema das livrarias, apesar dos recentes esforços para colocar pelo menos uma em cada município).

Não é uma questão puramente econômica, afinal, o poder aquisitivo do brasileiro melhorou e o consumo disparou. Ironicamente, talvez essa riqueza e a inclusão digital que colocou 200 milhões de celulares nas mãos dos brasileiros e permitiu a abertura de um sem número de lan houses pelo Brasil afora, possa ser um alento, atraindo novos leitores e, principalmente, autores.

O professor de Língua Portuguesa Sérgio Nogueira afirma que o melhor a fazer é incentivar o hábito da leitura o mais cedo possível. Para colocar isso em prática, o papel dos pais é fundamental, já que o exemplo dado em casa é o mais importante. Atividades como ler juntos, levar o filho à livraria e apresenta-lo a uma biblioteca, para que ele mesmo possa escolher os livros que quer ler, são simples e deixam raízes.

Hoje em dia, além de ser mais fácil publicar um livro, você ainda pode contar com os blogs, redes sociais e sites literários para compartilhar suas ideias e trabalhos. Novas editoras têm procurado formas ousadas e rentáveis de bancar livros de todos os gêneros, a um custo razoável. Alias, tem até quem julgue que um dos problemas seria o excesso de autores, uma maldade, é claro!

Devemos sempre ter em mente que o crescimento do cidadão passa obrigatoriamente por uma boa educação. Os livros, sejam em que formato for, são essenciais para a transmissão de conhecimento e aprendizado. Manter viva sua função e disponibiliza-los para todos os brasileiros é o nosso grande desafio. Afinal, quanto mais pessoas tiverem acesso e interesse nos livros, melhor será a nossa sociedade.

A Voz da Serra, 20/4/2012