Pedras que rolam

Foto: Carlos Emerson Junior

A Voz da Serra

Quando Muddy “Mississipi” Waters”, o genial bluesman norte americano escreveu, em 1950, os versos de uma canção, contando que sua mãe, antes dele nascer, dizia que “I got a boy child’s comin, he’s gonna be a rollin stone, sure ‘nough, he’s a rollin stone” (vou dar à luz um menino, ele será um rollin stone, com certeza, ele será um rollin stone), jamais pensou que batizaria uma das maiores bandas de rock que já existiu.

A expressão “rollin stone”, nesse caso, não deve ser traduzida ao pé da letra e sim como alguém sem rumo, moradia, um vagabundo ou até se preferirem, revolucionário. Os Rolling Stones, ou melhor Keith Richards, Mick Jagger, Brian Jones, Byll Wyman e Charlie Watts, com sua atitude completamente rock de ser e sua música de raízes negras, sempre fizeram jus ao seu nome.

Os anos 60 mal tinham começado e o rock era a grande novidade, o contraponto à guerra fria que dividiu o mundo entre bons e maus. Os Beatles, é claro, eram seus astros principais. Por volta de 63 ou 64, nem lembro mais, comprei meu primeiro compacto duplo (para a garotada de hoje, era um disquinho de vinil, com quatro músicas, duas de cada lado) do grupo de Liverpool. A estreia do seu filme “A Hard Day’s Night”, infamemente traduzido como “Os Reis do Iê-iê-iê”, catalizou todas as atenções da juventude da época.

Conheci os Rolling Stones através de uma prima que ganhou e detestou o álbum “12×5”, lançado nos States em outubro de 1964. Aliás, também foi o meu primeiro contato com o então chamado “disco importado” e seu vinil com com quase o dobro da espessura dos Lps fabricados pela extinta Odeon. Sua qualidade de som era brilhante mas, o que me pegou mesmo foram preciosidades como “Around and Around” do Chuck Berry e a pungentes “Time Is On My Side” e “If You Need Me”.

Para melhorar, Mick Jagger declamava parte de algumas canções, sem perder o ritmo ou soar estranho. Caramba, aquilo era muito melhor que os Beatles! Musicalmente talvez fossem até parecidos, mas aqueles rocks tinham alma, não eram simples canções tolas de amor, como o próprio Paul McCartney confessaria mais tarde.

Daí para a frente a paixão pelos Stones foi num crescendo. Minha prima ganhava os Lps e nem ouvia mais, passava direto para mim. Assim comecei minha discoteca com “Out of Our Heads” e a inacreditável “Satisfaction” ao até hoje mal compreendido “Their Satanic Majesties Request”, de 1967, com a foto da capa em três dimensões, atualmente um item de colecionador.

Nem preciso falar das confusões que arrumava com esse – digamos assim – lado “Stone”. Para começar, dizia para quem quisesse (ou não) ouvir, que os Rolling Stones eram muito melhores que os Beatles. Lembro que o Laerte, um grande amigo da escola, beatlemaníaco de carteirinha, brigou feio e quis acabar a amizade quando afirmei que “Satisfaction” era muito melhor que “Help!”.

Os Stones foram uma abertura para mim. Através deles descobri uma música negra americana efervescente, conheci o R&B, Blues, Soul e, por consequência, o Jazz. Aprendi a tocar violão, baixo e alguma coisa no piano. Comecei a compor melodias para letras dos amigos e, é claro, entrei em um dos centenas de conjuntos musicais que tocavam rock nos apartamentos de classe média de Copacabana.

Mas infelizmente, a vida não é só música e com a escalada da guerra do Vietnã, o crescente inconformismo diante do status quo e a situação política do Brasil cada vez mais complicada, o foco da minha geração foi mudando. Todos nós, principalmente os estudantes, estávamos diante de uma ruptura que marcaria para sempre nossas vidas, de uma maneira ou outra As canções agora eram cantadas em português, sempre com um recado nas entrelinhas.

No dia 3 de julho de 1969, o guitarrista Brian Jones foi encontrado morto em sua residência, na Inglaterra, por motivos até hoje meio obscuros. O controle da banda passou para a dupla de compositores, Jagger e Richards. Os trabalhos seguintes, ainda com gravações antigas de Jones renderam bem mas, após “Exile On Main St.”, de 1972, alguma coisa se perdeu e a graça se foi. Mudaram os Stones, eu mudei, o mundo mudou.

Em 1967 quatro rapazes de Cambridge entravam no lendário Abbey Road Studios, em Londres, sob a liderança de um maluco genial para gravar seu primeiro e antológico álbum, “The Piper at the Gates of Down”, com forte influência da música psicodélica dos últimos trabalhos dos Beatles e Rolling Stones. O sucesso e o prestígio que o Pink Floyd conseguiu com seu disco de estreia, abriu caminho para um novo tipo de rock, cerebral, introspectivo e técnico, que exigia ótimos músicos, criatividade e muitas horas em bons estúdios de gravação.

Nascia ali o Rock Progressivo, minha próxima paixão. Já os Rolling Stones continuam até hoje a sua saga, mesmo (ou apesar de) setentões e bem castigados pelos excessos. Mas cinquenta anos depois, seus concertos ao vivo pelo mundo todo, com uma energia inacreditável, provam que o poeta gaulês Dylan Thomas sabia o que estava falando, quando um dia cantou que as pedras que rolam não criam limo! Muddy Waters, com certeza, aprovaria.

Foto: Carlos Emerson Jr.

Fiat Elba

A Voz da Serra

– Não foi por causa de uma Fiat Elba que aquele presidente foi afastado?

– Hum… Na verdade foi um problema com corrupção, falta de apoio no Congresso Nacional e…

– Não, não, a acusação que vingou mesmo, o motivo técnico para a cassação foi a Fiat Elba!

– Bom… É, tem razão, mas isso foi apenas um detalhe, a coisa era maior.

– Tinha uma Fiat Elba, é o que importa.

– Mas importa como, foi uma comoção nacional, esqueceu?

– Importa prá mim! Prova que existiu uma praga em cima dos donos desse carro.

– Ah, para com isso. Onde já se viu “praga de automóvel”?

– Existe sim. Eu mesmo nunca acreditei nessas coisas e olha que já tive latas velhas até da Lada, você lembra, não é mesmo?

– Lembro sim, mas aí não foi praga e sim burrice…

– Foi mesmo, confesso. Mas garanto que o único carro de que me desfiz com prazer foi a Fiat Elba. Aliás, minto, com prazer não, apavorado.

– Caramba!

– O pior é que foi meu primeiro carro zero quilômetro. Comprei logo que foi lançado, no final da década de 80. Era uma bela perua prata, com tudo o que tinha direito. E o motor não era essa coisa tosca de 1000 cilindradas não, era um bom e forte 1.5 a gasolina.

– Mas…

– Espera e ouve: ela nunca deu um defeito sequer. Valente, andava rápido e macio. Quebrava o maior galho, já que minhas filhas ainda eram pequenas e qualquer saída era aquela tralha para transportar. Em resumo, era o veículo ideal. Mas meu amigo, o bicho pegou.

– Tô ouvindo.

– Logo de cara, com uns dois dias de uso, minha mulher estacionou na garagem da clínica, como habitual. Uma meia hora depois apareceu o responsável pelo estacionamento, apavorado. Um advogado foi manobrar um Opalão e entrou em cheio na lateral da Elba. Tá bom, o homem arcou com todas as despesas e ficou novinho. Mas já era um aviso.

– Pera lá, acidentes acontecem e outra coisa, você não faz seguro?

– Claro que faço, pô! Mas a história ainda não acabou. Um mês depois, de novo minha mulher tranquila no ambulatório e entra o mesmo zelador do mesmo estacionamento. Acontece de novo, só que desta vez não foi um advogado e sim um engenheiro.

– Oquié isso, sô?

– Pois é! A seguradora bancou o conserto e nós começamos a ficar com um pé atrás… Uns quinze dias mais tarde fomos passear no interior de São Paulo e aí foi comigo: numa rua tranquila de uma cidadezinha, em plena reta, bati com a roda dianteira do lado direito na única pedra do meio-fio que estava desalinhada, sei lá porque motivo. Perdi o pneu, a roda e ainda tive que consertar a suspensão daquele lado. Não chovia, não tinha ninguém na rua ou algum carro perto e juro que não dormi ao volante, até porque a Elba estava cheia de crianças fazendo a maior algazarra.

– Tô pasmo…

– Tem mais. Depois de morrer numa roda, pneu e oficina voltamos para Nova Friburgo por Petrópolis para almoçar num restaurante do tipo alemão, cujo nome já nem me recordo. Era um dia de semana e o local estava completamente vazio. Bem na entrada havia uma vaga enorme, acho que dava para uns cinco veículos, sem exagero.

– E…

– E… enfiei a lateral da desgraçada da perua no único poste que tinha na calçada. Levei um baita susto, custei a entender o que tinha acertado. Puxa vida, até hoje fico me perguntando o que aquele poste foi fazer ali! O para-lama da parte traseira afundou, tal o impacto.

– A maior barbeirada, cara, não sabe colocar o carro numa vaga?

– Muito engraçado! No final de semana seguinte meu cunhado precisou do carro para levar alguma coisa para algum lugar, sei lá.

– Você contou essas histórias para ele?

– Sem dúvida. No dia seguinte ele aparece lá em casa com uma cara horrorosa, agradecendo a gentileza e contando mais uma de amargar.

– Bateu?

– Pior, quase morreu! Quando chegava em casa, um ônibus colou na traseira da Fiat. Ele achou estranho, já que só tinham os dois na rua. E continuaram assim, em alta velocidade até o final da rua, quando ele conseguiu escapar um pouco do maluco e virou para a direita de qualquer maneira. Subiu na calçada, cantou pneu, foi um escândalo, mas escapou do maníaco do ônibus. Depois de terminar de tremer, foi me devolver a bomba, digo a Elba.

– E aí?

– Aí? Ficamos com medo, acabamos vendendo a infeliz e juramos nunca mais sequer olhar para uma outra. Logo depois, em 90, 91, sei lá, o presidente cai por causa dessa perua. Vê se pode!

– Mas o problema do presidente não foi esse…

– Não interessa. Quem mandou se meter com uma Fiat Elba?

Casos cariocas, segunda parte

A Voz da Serra

– Motorista este ônibus tem banheiro?

– Tem sim, minha senhora, fica lá no fundo…

– Tem que ter banheiro. Eu paguei a passagem e quero meus direitos, o banheiro e… cadê o ar condicionado, não tem ar no ônibus? Eu paguei!

– O ar só pode ser ligado quando o carro sair da plataforma, dona, são ordens da prefeitura.

– É bom que seja isso mesmo, senão vou dar queixa na empresa. Isso é um absurdo. A
gente já embarca tensa, tendo que reclamar de tudo.

– Tá certo e boa viagem, dona!

– E mais essa… Minha filha quais são as poltronas?

– A dois e a quatro, mãe.

– Então por que esse sujeito está sentado no meu lugar? Sai daí seu enxerido.

– Opa, essa aqui é a poltrona um, minha senhora.

– Eu não estou falando? Minha filha, quer dizer que você comprou assentos separados e ainda por cima ao lado desse grosseirão?

– É mãe, comprei…

– Minha senhora, não seja por isso. Eu troco de lugar com sua filha e vocês duas ficam
juntas.

– Ora, ora, o grosseirão até que é esclarecido. Então sai daí, moço!

– Dona, grosseirão é a sua… Deixa prá lá, com licença.

– Motorista, eu estou morrendo de calor, esse ônibus sai ou não sai? E liga o ar!

– Só ao meio-dia, dona, aí eu ligo, já falei.

– Puxa mãe, está frio, as pessoas estão de casaco, não vai nem precisar de ar
condicionado…

– Cala a boca, coisa inútil. É uma questão de direito: eu paguei e exijo usar. E vai logo ver se tem banheiro mesmo nesta porcaria.

– Mas mãe…

– Vai lá, não discute.

– Dona, tem banheiro sim, mas ainda dá tempo da senhora usar o da rodoviária.

– Não pedi sua opinião!

– Eita!

– Por que será que aquela inútil da minha filha está demorando?

– Mãe, tem banheiro sim. E acabei de me lembrar de que não comi nada. Será que dá tempo para almoçar ali no barzinho?

– Senta aí sua desnaturada. Para de falar besteira. Se eu sair daqui vem outro grosseirão rouba o lugar ou a minha mala. Fica quieta. E você está muito gorda para ficar comendo toda hora. Motorista, olha a hora. E vê se liga essa droga do ar condicionado logo que eu não aguento mais de calor!

A viagem prometia…

oOo

A festinha infantil seguia animada e alegre no salão de festas do prédio de um casal amigo. A criançada assanhadíssima corria para cá e para lá e, quando um deles arranjou uma bola de futebol, a coisa ficou meio caótica. A dona da casa, querendo salvar o que ainda restava de suas mesas decoradas com o tema da festinha, implorava para que um dos pais tomasse qualquer providência.

De repente, alguém desvia a bola em nossa direção. Para nosso espanto o Rui, um modelo de elegância, discrição e sobriedade, faz o improvável, dá um bicão de direita e sai gritando: – Goooollllll!!!!! Gooolllllll! MEU SAPATO! Alguém pega o meu sapato! Isso mesmo, seu impecável mocassim de couro, caro prá burro, decolou do playground e aterrissou aos trambolhões no telhado da casa ao lado.

Meus queridos, um gol de placa! Já o Rui… Bom, os moradores da casa só voltariam no dia seguinte. Pular o muro e subir no telhado estava fora de cogitação, vai que algum vizinho chamasse a polícia… O remédio era torcer para não chover e que nenhum gato gostasse de morder mocassim. Alguém gentilmente cedeu um par de havaianas e o aniversário seguiu sem maiores problemas. Uma sapatada para não ser esquecida.

Foto: Carlos Emerson Junior

Verdades

 

Dilma x Temer.
Golpe x Impeachment.
Bolsonaro x Jean Willys.
Esquerda x Direita.
Lula x FHC.
Cardoso x Moro.
PT x PSDB (ou PMDB, vai saber…)
Progressistas x Reacionários.
Comunistas x Capitalistas.
Feministas x Machistas.
Brancos x Negros.
Ateus x Religiosos.
John Lennon x Paul McCartney (a essa altura, vale tudo…)

Enfim, as redes sociais, principalmente no Brasil, viraram um grande palanque, quase um ringue, onde todo mundo defende a sua verdade. Mas será que é verdade mesmo? Nietzsche disse: “o que é a verdade? Inércia. Uma hipótese que satisfaz, que exige o consumo mínimo de força intelectual”. O romancista Umberto Eco afirmou que “nem todas as verdades são para todos os ouvidos” enquanto cinicamente Joseph Goebels, ministro da propaganda do III Reich cunhou e levou às últimas consequências seu mantra: “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade.”

Enfim e por fim, como acredito realmente que “os fatos são como os sacos; quando vazios não se têm de pé.”, frase do dramaturgo Luigi Pirandello, não estranhem se meus comentários escassearem no Facebook, Twitter e Google+, entre outros, até que o fenômeno social conhecido como “efeito manada” tenha amainado por aquelas bandas.

Mas, se porventura conseguirem transformar tudo em um Orkut de luxo, não contem mais comigo. Possivelmente, fui ver, literalmente, se estou na esquina…

Pintura: “Povo Brasileiro” de Tarsila do Amaral (1933)

Era uma vez

Era uma vez um grande país. Ficava na América do Sul, de frente para o Oceano Atlântico. Enorme, continental, ia dos pampas do sul até a imensa floresta tropical que dominava todo o seu norte. Tinha água em abundância, terras boas para plantar. Aliás, tão boas que seus povos antigos diziam que “plantando, tudo dá”.

A fauna, maravilhosa, diversa, atraia visitantes de todo o mundo. O clima ajudava. Sol, calor, inverno curto. Chovia muito e as terras inundavam, mas isso não era nada se comparado com os terremotos, furacões e maremotos que castigavam outras terras. O vulcão em atividade mais próximo estava no outro lado do continente.

O subsolo, rico em minérios de todos os tipos e uma enorme reserva de petróleo, nas profundezas do oceano, era uma garantia de bonança. O mar, por onde chegaram os primeiros navegadores europeus, fornecia alimento e vias para o comércio com outras gentes. Para coroar, não tinha inimigos e a última guerra de fronteiras foi travada em meados do distante século XIX.

Todos concordavam que não tinha como não dar certo, aquele era um país de futuro. Infelizmente o tempo passou, correu, cansou e o futuro nunca chegou. Que pena…

Foto: Carlos Emerson Junior

Impeachment

Pois é, hoje em dia só se fala em impeachment, palavra inglesa que significa impedimento ou impugnação, processo contra autoridades do governo que, sem a menor noção, pisam feio na bola, esquecendo que estão ali para servir e não usufruir.

Quem vai ser “impugnado” esperneia, jura inocência, ameaça e fala em golpe mas, na hora H, para evitar uma humilhação, renuncia e sai de fininho do Alvorada com cara de bunda. Infelizmente, como as leis brasileiras são feitas por brasileiros, o cidadão deposto sabe que voltará triunfante daqui a 8 anos, com ficha limpa e tudo.

Podemos “impugnar” (“impedir”, vai saber) o Presidente da República, os governadores e prefeitos. Tudo bem, o ritual é complicado, longo e as chances de não tirar o cara (ou a cara) do cargo é enorme, mas é bom saber que nossa democracia permite esse tipo de ousadia.

Já se aqui existisse uma monarquia absolutista, por exemplo, perder a cabeça seria garantido. A nossa, é claro, em praça pública e transmissão para a TV. Em compensação, a única maneira conhecida e garantida de tirar a coroa desse tipo de rei é separando sua cabeça do resto do corpo, com coroa e tudo. Caramba, e ainda tem quem fale mal da democracia.

Mas esse papo todo quer dizer uma só coisa: se a Constituição, a Carta Magna, a Biblia, o Corão ou a Torá preveem o “impeachment”, ele pode ser considerado tudo, menos golpe. Aliás, basta dar uma olhada na história recente de nossa república para confirmar o que estou dizendo.

De fato, de 1990 até dezembro de 2015, foram protocolados no Congresso 132 pedidos de “impeachment”, distribuídos pelos seguintes presidentes:

Collor (1990–1992): 29
Itamar (1992–1994): 4
FHC (1995–2002): 17
Lula (2003–2010): 34
Dilma (2011–2015): 48

Apenas um pedido seguiu em frente e resultou no afastamento do então “Caçador de Marajás”.

Efetivamente golpes tiram presidentes, reis, ditadores e assemelhados de seus tronos. No Brasil foram apeados do poder os presidentes Washington Luiz (1930, por Getúlio Vargas), Getúlio Vargas (1945, pelos militares) e o João Goulart (1964, também pelos militares).

Getúlio acabou tirando sua própria vida em 1954, diante de graves acusações de corrupção e o homem da vassourinha, Jânio Quadros, renunciou em 1961, acossado pelas “forças ocultas”…

Não, decidamente, diante de tudo que está vindo à tona com as investigações da Lava-Jato, não acredito em golpe e acho que o pedido de “impeachment” é legítimo. Minha preocupação, agonia, desespero, é com o day after, seja ele qual for.

Quem assume é o vice do PMDB, certo? Mais ou menos, afinal a justiça abre cada vez mais seus braços e ninguém sabe o dia de amanhã. Já imaginaram se toma posse o Presidente da Câmara dos Deputados? Ou do Senado? Dá para entender o espanto de um dos ministros do STF:

“Meu Deus, essa é a nossa alternativa de poder?”

A questão, no fundo, é saber o que realmente queremos, se é que queremos mesmo alguma coisa. Com 65 anos de idade, acreditava piamente que em 2016 já estaria no futuro, afirmação que ouvi desde que nasci. Só que esqueceram de combinar com o resto do país e aqui estamos nós, metidos numa crise digna dos anos 50.

Ah, meus caros conterrâneos, aprendam com o escritor portugues Eça de Queirós, que viveu, vejam só, no século XIX: “políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo”.

E não é mesmo?

Foto: André Coelho (O Globo)

O Rio parou

 

Tenho amigos taxistas. Brinco que eles são o meu “Uber” amarelinho. Se não fossem eles, meu sogro, que vai fazer 92 anos – não teria como ir e voltar da sessão de fisioterapia de ontem pela manhã, em plena greve dos motoristas que paralisou o Rio. Sem o menor problema e com toda a segurança.

Obrigado, Vítor!

Manifestações, protestos, reivindicações públicas, tudo isso é democrático, direito de todos. Parar uma cidade, prejudicando o trabalho de milhões de pessoas, chega a ser um crime. Assisti pela tv verdadeiras cenas de horror: uma senhora abraçada a um bebê, indo a pé para o Aeroporto do Galeão, pela Avenida Vinte de Janeiro, debaixo do maior sol.

pablojacobogloboUma grávida, dentro de um automóvel particular preso em um engarrafamento, começou os trabalhos de parto. Foi acudida pela PM que abriu a caminho à força mesmo! Um motorista de terno, guiando um carro preto, em Copacabana, foi cercado e ameaçado, só podia ser do Uber. Não era e sim um policial civil que, pedindo socorro para a guarda municipal, conseguiu seguir.

Motoristas de táxi que, como o meu amigo acima, trabalhavam normalmente (direito seu, aliás), foram atacados e alguns passageiros expulsos dos carros; um grupo tentou fechar a Ponte Rio-Niterói, sendo impedidos pela Polícia Rodoviária, mas o estrago estava feito: o congestionamento quase chegava em Manilha.

Aqui na Urca tudo calmo, tão calmo que o primeiro ônibus que chegou foi lá pelas dez da manhã. Ao pessoal que trabalha nas escolas militares da Fortaleza de São João só restava respirar fundo e caminhar desde a estação do metrô de Botafogo.

Enfim, o caos!

O sistema de transportes do Rio de Janeiro é, historicamente, horrível. A maior cidade turística do Brasil não tem um metrô decente, trens e barcas operam confusa e quase sempre de forma precária, o sistema de ônibus é inadequado, muitas vezes ultrapassado, caro e precário. E, para coroar toda essa mixórdia, não existe integração, no sentido exato da palavra.

Os táxis… bom, são 35 mil profissionais autorizados pela Prefeitura, um número até bem razoável, mas, a prestação do serviço é bem deficiente, além de um problema sério de falta de civilidade e educação. Todo mundo já passou alguma vez por uma péssima experiência com os táxis cariocas. Não à toa o Uber cresce exponencialmente, principalmente após manifestações arbitrárias como essa.

Lamentável a lenta e tímida reação do poder público, em particular a Prefeitura do Rio de Janeiro. Dar um prazo (que não foi cumprido) para o término da manifestação é uma demonstração de fraqueza ou coisa pior… A prioridade básica, garantir o direito de ir e vir do cidadão, foi ignorada. Mais uma vez, é claro.

No final das contas, foi uma sexta-feira perdida. Os taxistas não acabaram com o Uber, este, por sua vez, não conseguiu operar e a população, que em sua grande maioria não tem nada a ver com isso (transporte individual é caro), foi a maior prejudicada. Afinal, ficar parado no trânsito, dentro de ônibus, trens e barcas velhas e sem nenhum conforto não é para qualquer um, não senhor.

Ah, Cidade Maravilhosa, o que fizeram com você?

Fotos: Pablo Jacob e Gabriel de Paiva (O Globo)

Golpe de mão

 

Falam de golpe.
Conspiram. Traçam planos. Ameaçam.
Procuram o inimigo até entre os amigos.
Juram lutar até a morte.

Falam de golpe.
Preparam-se para a guerra, apresentam suas baionetas.
“No passará”, gritam em uníssono, triunfantes.
Pior, arrogantes.

Falam de golpe.
Palavras vãs, bravatas perdidas ao léu.
Sequer meias verdades são.
Lembro dos versos do Joaquim Coelho,
poeta português que lutou em Angola,
viveu o horror das batalhas de verdade:

“E nós, combatentes e detestados,
estamos a comer o pó do sertão,
enquanto caminhamos sufocados
até ao derradeiro golpe de mão!”

Falam de golpe.
Estúpidos,
não tem nenhuma ideia do que estão falando!

Cachorros

Foto: Carlos Emerson Junior

Braunes, Nova Friburgo, inverno de 2010. Lá ia eu na minha corrida matinal quando dei de cara com um salsichinha preto, amistoso e festeiro, pulando na minha perna. Fiz uma afago em sua cabeça e bati palmas na casa mais à frente. Não deu outra: era o Toquinho que, levado como todo o daschund que se preza, aproveitou a porta aberta e saiu para explorar o mundo.

Retomei o ritmo e continuei o exercício ladeira acima. De repente ouço o grito: – Tio, pega o Thor, pega a Lisa! Voltei e lá vinham três boxers brancos, lindíssimos, a toda velocidade bem na minha direção. Acelerei a corrida e consegui segurar o Thor, uma simpatia só. Enquanto rebocava o bicho para casa, sua dona, de carro, conseguiu recapturar os outros dois, lá em cima, na Curva da Macumba.

Pois é, e eu ainda nem tinha conhecido a “minha” cachorra Filó…

Foto: Carlos Emerson Junior

 

 

Perereca peçonhenta, a entrevista

Foto: Carlos Emerson Jr.

Encontrei a professora C. na dispersão do bloco carnavalesco “Perereca Peçonhenta”, bem em frente a Alerj, no Centro do Rio. Foi fácil identificá-la no meio de tanta gente animada: era a única mulher fantasiada de político ou seja, terno escuro, gravata, camisa social branca, peruca de careca e um par de tornozeleiras eletrônicas!

Antes de mais nada, é bom deixar bem claro que a entrevistada pediu anonimato completo e por esse motivo só posso adiantar que ela possui mestrado em ciências políticas e sociais, é escritora, trabalha em uma universidade federal, publicou vários livros e escreve em jornais do Rio e SP. Apesar de meu receio de abordar assuntos “sérios” em pleno carnaval e logo após o desfile de um bloco de rua, não tive outra alternativa. A entrevista foi gravada em um café da Rua da Carioca.

oOo

Professora, todos os políticos deveriam usar tornozeleiras eletrônicas? Ou isso daria margem para montar outro esquema de superfaturamento para financiar partidos políticos?

Meu filho, você bebeu? Porque eu bebi todas, misturei cerveja com vodka, caipirinha com rum, cachaça com o diabo a quatro e juro que jamais pensaria uma merda tão grande como essa. Isso aqui é só uma fantasia, porra!

Perdão, professora, é que eu achei….

Não, você não tem que achar nada. Estude, pesquise ou leia antes de questionar quem quer que seja. E outra coisa, não me chama mais de professora, esse título nessa pocilga não vale nada! Aliás, só continuo a entrevista se você pedir uma cerva.

Tá bom, já providenciei, mas vem cá, até a senhora concorda que a situação geral do Brasil está muito estranha… ou não?

Estranho é você que me tirou do bloco prá falar… falar de quê, mesmo? Ah, sim, já sei, a crise econômica e política que parou nosso país, não é mesmo? Pois bem, vou dizer com toda a sinceridade, tô nem aí! Sério! O que você quer? Um país que a cada quadriênio coloca um bestalhão na presidência, uma gente que não sabe sequer escolher um prefeito, vereador, um síndico que seja, esperar o quê? Somos uma república senhorial, monárquica, onde a nobreza é escolhida pelo povo com todos os poderes. O poder emana do povo, mas quem manda são os políticos.

Pois é, e aí fica a pergunta, qual o futuro do Brasil?

Ah, mas se depender da sua criatividade, o Brasil não tem futuro nenhum, não é, meu filho? E eu sei lá o futuro de alguma coisa? Entrevista uma cartomante, um vidente, um profeta. Isso dá audiência. Você sabe que o sonho do brasileiro é um emprego público, em qualquer lugar, com qualquer salário. Você mesmo tem cara de quem trabalha prá Agência Nacional, ou coisa parecida. Mas já que a cerveja chegou, vou tentar responder: não tem, simples assim. E sabe porque? Porque somos poucos, a educação é precária, a inclusão social nunca vai acontecer e a população está envelhecendo. Dentro de mais alguns anos teremos mais brasileiros idosos do que jovens disputando o mercado de trabalho e aí, danou, vão encher o país de chineses, indianos e indonésios para tocar a economia. Ou argentinos, bolivianos e venezuelanos, se o a turma atual ainda estiver no poder. Que futuro legal, né?

Não acho não, é horrível! Sei não, professora, que tal deixarmos essa entrevista para depois do carnaval?

Tá maluco? E eu lá tenho lá saco para te aturar outra vez? Negativo, trata de publicar isso o mais rápido possível e na íntegra, senão acabo com sua raça lá na Agência Nacional! Aliás, você tem jeito de ser o assistente do estágiário, sabia?

Além do evidente bullying, de onde a senhora tirou que sou funcionário do governo?

Já sei, já sei, é freelancer, blogueiro ou o raio que o parta. Afe, que falta de humor! Enfim, voltando ao nosso futuro, a desgraça é tão completa que nem chamando os velhinhos aposentados de volta vai dar algum resultado, porque a elite, os pensadores, a intelligentsia, foi embora ou então se acomodou, desistiu, cansou, morreu. Eu é que fui burra, acreditei que ia participar de uma revolução, acreditei no lero-lero desses escrotos corruptos e aqui estou, presa até o último fio de cabelo numa universidade falida, que não tem dinheiro para o papel higiênico. O pior é que aí me lembro que não casei, não namorei e se dei até já esqueci prá quem, mas estudei prá car… burro prá isso, gravar uma entrevista na segunda de carnaval. Pede outra cerveja aí, vai.

Claro, professora…

E tem mais, você falou no telefone que não gosta de carnaval. Então, saiba que o Graciliano Ramos, escritor famoso, falecido no meio do século passado, tem uma frase sensacional, presta atenção: se a única coisa que o homem tem certeza é a morte, a única certeza do brasileiro é o carnaval do próximo ano! Cacete, ele desvendou a nossa alma, o nosso pathos. De fato, o carnaval é a redenção do país, a grande válvula de escape, quando vamos para a Sapucaí bater palmas para as escolas feitas por gente que não pode ou ousa frequentar um restaurante chique no Leblon. Uma festa onde brancos e pretos pulam lado a lado em blocos conduzidos por petralhas e coxinhas, ricos e pobres, ladrões e mocinhos, famosos e fudidos. Ouso dizer que o carnaval é o nosso momento Noruega, é, Noruega, aquele país do norte, chato e frio, onde todo mundo é igual, tem os mesmos direitos, índice social altíssimo e nenhuma corrupção. Carnaval nos une, mesmo quando pentelhos vem com discursos de alienação e outras babaquices mais. Quer saber de uma coisa? Acabou a entrevista! Tem um bloco alternativo se concentrando na Gamboa e vai desfilar no Porto Maravilha logo que anoitecer, uma novidade. Vou prá lá agora. Se você quiser pode vir junto, já te aguentei até agora, no bloco a gente se esbalda e pode até ser que você entenda tudo o que coloquei. Aliás, mais uma cerveja e não vou nem lembrar que dei essa entrevista. Vai ou fica?

Fazer o quê, vou né? De repente consigo arrancar mais alguma coisa da eminente mestra!

Mas você é abusado mesmo, putz! Alala-Ô, ÔÔÔ, ÔÔÔ, mas que calô, ÔÔÔ, ÔÔÔ, atravessando o deserto de bangú, o sol estava tão quente que queimou o…. Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é???? Ah, e ainda tem… as águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar, eu passo a mão na saca, saca, saca-rolha e bebo até me afogar!!!

Pô, professora, essas músicas são do meu tempo!

Olha o respeito, menino!

Agonia

Um vazio enorme dentro do peito. Sentimento de perda, tristeza, muita tristeza. Lembrou a velha canção: “se fosse resolver, iria te dizer, foi minha agonia”. O tempo perdido, a paixão que esqueceu, o risco que não correu, a amizade que perdeu, a aventura que não viveu. Tudo, completamente tudo, visto para trás, parecia um retumbante grande nada, uma completa inutilidade, um enorme fracasso.

Sentia-se cansado, solitário e doente. Mas o que doia mais era a indiferença, o desinteresse total, a falta de vontade de continuar vivo. Outra vez cantarolou a música: “e aqui no coração, eu sei que vou morrer, um pouco a cada dia”… Respirou fundo, foi até a janela e ficou admirando um grupo fantasiado deslizando para o desfile de algum bloco. Em um átimo desejou estar com eles, cair na folia.

Caiu em si quando lembrou que morava de frente para um estacionamento… Deu um sorriso, fechou a cortina, ligou a televisão, abriu uma cerveja, acendeu um cigarro e, como sempre, dormiu sentado no sofá.

E o desapego, como fica?

 

Desapego. Substantivo masculino, nos dicionários significa falta de apego, afeição, desamor, desinteresse, indiferença. Desprendimento diante das coisas superficiais, das vaidades em detrimento de fatos importantes e que fazem sentido a vida. Saber dividir e compartilhar.

Pois é, mas… sei lá, essa definição é muito econômica! O budismo ensina que “quem a tudo renuncia jubiloso, alcança, já agora, a mais alta paz do espírito; mas quem espera vantagem das suas obras, é escravizado pelos seus desejos”. É aquela velha questão, o problema não é ter uma Ferrari na garagem e sim achar que precisa de uma!

Vivemos tempos onde o único objetivo parece ser o consumo, fonte de prazer disponível em cada shopping do bairro ou nas lojas eletrônicas da internet, convenientemente parcelado em 12 vezes sem juros. E piorou depois que o Steve Jobs nos convenceu que seus gadgets são essenciais, mesmo que ninguém realmente precise deles.

Pois é, aqui estou eu tentando falar de desapego mas é bom vocês saberem que já tive três carros na garagem, uma coleção com mais de mil bolachões de vinil nas estantes, aparelhos de som de todos os tipos, montanhas de livros e o péssimo hábito de trocar de celular a cada lançamento, o que deixava a coitada da minha mulher preocupadíssima, esperando virar a bola da vez.

Nem tanto e como gosto de falar, um dia a gente aprende que não dá para nos medir pelos bens materiais a que nos apegamos. Saber viver com o que temos, sem entrar nessa paranoia que a sociedade e a economia ocidental literalmente nos vende diariamente já é um bom começo. Não somos monges ou ascetas mas é importante ter em mente o que realmente vale.

*****

Se conhecemos o caminho para praticar o desapego material, o mesmo não podemos afirmar do desapego ao poder. Para começar, basta um olhar mais atento para o nosso quadro político e perceber que, apesar do regime democrático, ignoramos ou permitimos a criação de mecanismos que perpetuam os nomes e grupos de sempre. Políticos desapegados existem, sem dúvida, mas são tão poucos que chegam a ser considerados figuras excêntricas.

O poder é inebriante, contagia e vicia. Aliás, sejamos sinceros, qualquer poder, não apenas o político! De novo a filosofia oriental ensina que todos nós somos líderes: se não temos uma empresa, temos uma família. Se não temos uma família, temos a nossa própria vida e, em última instância, o relacionamento com nós mesmos. O segredo é como fazemos isso.

Desapego ao poder não é se afastar do fato e sim reconhecer que temos o nosso momento e apenas ele. O grande lance é saber a hora de seguir em frente sem prejudicar ninguém Afirmar, como os políticos adoram, que já fez muito pela população não passa de bravata populista e conversa fiada! Solidariedade não é moeda de troca ou ação marqueteira, é obrigação de qualquer ser humano.

*****

E o lado emocional, fica de fora? Para o Dalai Lama, amor requer desapego, saber que não possuímos ou somos propriedade de outrem. O verdadeiro amor não é apenas um jogo a ser jogado ou uma relação que pode ser contratada em uma escritura de posse. Paixão, respeito, amizade e muita cumplicidade são os ingredientes de uma relação estável e feliz.

*****

Conversando com uma amiga comentei que com a idade a gente fica naturalmente mais desapegado, mas aí bateu a dúvida, será que não são as coisas que não querem mais se apegar a nós? É, confesso que muito vivi e sei muito bem que, ao contrário dos faraós e nobres do Egito antigo, não vou levar ouro, vinhos, joias e escravas nuas para uma sepultura numa pirâmide qualquer, pelo contrário.

Quer um conselho? Desapegue-se!

Antes de sair correndo para comprar um carro novo, pense bem se vale a pena trocar de carro. Aliás, será que você realmente precisa de um carro? E aquele closet cheio de roupas e sapatos, sem uso há pelo menos um bom par de anos, que tal doar para quem necessita? As estantes de sua casa estão abarrotadas de livros, juntando mofo e poeira? Biblioteca neles! A namorada ou namorado controla até a hora do seu banho? Hummm… Desapego nela. Ou nele!

Desapego de verdade é doar uma parte de seu tempo e ler um livro para um cego ou passear com um idoso. Participar de um mutirão de limpeza, como fez o pessoal lá de Nova Friburgo, depois das chuvas de 2011. Manter a capacidade de se indignar com injustiças e não ter medo de defender quem está sofrendo com elas.

Desapego é simplesmente uma questão de humanidade, é ubuntu, como ensinam os africanos. Desapego pode ser até pescar na companhia de uma garça. Desapego é o caminho para a felicidade.

A Voz da Serra, 15/6/2012

Foto: Carlos Emerson Junior

Andando na chuva

Faz tempo que não via um verão tão chuvoso como esse, pelo menos aqui no Rio. Em Friburgo não, nessa época predominam as chuvas e temperaturas amenas são comuns. De qualquer maneira, muitos dias chuvosos convidam à reflexão, principalmente quando um deles é um feriado. E aí, ou você vai comer, rezar e amar ou então perambula pelas ruas, procurando imagens interessantes da cidade encharcada.

As fotos foram feitas na Urca, onde estou vivendo o meu primeiro verão como morador.

EscadariaA escada

A mureta

o gatoO gato

Pão de AçúcarO morro

Fotos: Carlos Emerson Junior

Carioquices

 

Parece mentira, mas o ônibus que encostou no ponto era um daqueles novos, raríssimos, com piso baixo, motor traseiro, rampa para deficientes, suspensão pneumática, ar condicionado e, pasmem, motorista e cobrador educadíssimos. Não, não é pegadinha de primeiro de abril coisa nenhuma, acabou de acontecer.

No primeiro ponto de Ipanema uma senhora muito elegante faz sinal. O coletivo para, encosta, abre as portas, ela entra e com um enorme sorriso agradece:

– Ainda bem que o senhor veio com esse ônibus sem degraus. Meu vestido é muito justo para subir as escadas de um carro comum. Valeu!

Aí olhei, claro. Aliás, não só eu mas também os passageiros, o motorista e até a cobradora. Muito distinta, realmente usava uma roupa justa (com bom gosto e na medida certa) que realçava seu perfil esguio, completamente incompatível com os busões montados em chassis de caminhões, padrão aqui no Rio.

O motorista sorriu e só arrancou quando a passageira sentou. Pois é, como dizia o profeta, “gentileza gera gentileza”.

oOo

Tinha que ir do local A para o local B. Pensou em pegar uma condução mas a manhã estava tão agradável, um ventinho de sudoeste dando um refresco no mormaço que resolveu ir a pé mesmo, pela praia. Dito e feito, dobrou a primeira rua à direita e se mandou para o calçadão.

– Good morning, sir. There would be interested in doing a stand up paddle? The day may be gray but the sea is great. Uau, rimei em english!

Olhou desconfiado para os lados e percebeu que era com ele mesmo. Como assim?

– Oi, cara. Obrigado mas no mar eu prefiro é nadar mesmo. Ah, e não precisa gastar o inglês, somos conterrâneos.

– Caramba, é mesmo, desculpe, pensei mesmo que fosse turista. Deve ser sua roupa, parece coisa de gringo.

– Roupa de gringo? Só porque estou de bermudão florido, havaianas e camiseta de marca? Ô meu, estou trabalhando, acabei de sair de uma reunião e estou indo para outra. Isso aqui é roupa social, cara!

– Pensando bem, faz sentido. Pior sou eu que estou aqui, na areia, trabalhando só de de calção… Bom, tudo bem, quando quiser dar umas remadas, estamos às ordens. Boa reunião.

– Tá anotado. Bom trabalho prá você também!

oOo

Todo o dia é a mesma coisa. Basta parar no sinal fechado ali da Duvivier que o cidadão desprovido de bens não perde tempo e chega choramingando:

– Ô dotô, tô com fome, me arranja um dinheirinho prá comer.

– Eu não sou “dotô” e só tenho 4 reais no bolso prá pegar o ônibus. Não dá prá ajudar.

– Puxa vida dotô, o senhor só anda duro, qualquer hora dessas vou perder o ponto pro senhor.

– Mas você é abusado, heim? E o que posso fazer por você? Dinheiro eu não tenho e nem adianta pedir cigarro, não fumo.

– Celular velho! Será que o senhor não teria um prá me arrumar? Aí eu vendo e de repente consigo até uma comida decente.

– Celular, né? Bom, tem um encostado em casa. Tiro o chip e amanhã trago prá você.

– Vai tirar o chip? Faz isso não, dotô, deixa o chip e coloca um cinquentinha de crédito. Assim eu aproveito para fazer umas ligações pros parentes e resolver umas paradas aí.

– Celular, chip e recarga. Não está precisando de uma secretária para fazer as ligações?

– Bom, se o dotô quiser ir pro céu direto, pode mandar a moça. Mas tem que ser novinha e bonita, combinado?

Foto: Carlos Emerson Jr.

Cinco anos no Leblon

 

Ah, o Leblon. Bairro nobre do Rio, pouso de escritores consagrados, jornalistas influentes, artistas globais, ricos novos e tradicionais, intelectuais de todos os matizes e gente descolada de uma maneira geral. Comércio charmoso, restaurantes de primeira linha (e preço idem) e botequins para ninguém botar defeito. Colégios tradicionais, teatros para todos os gostos e até mesmo um cinema de rua. Inegavelmente, um ótimo bairro.

Pois então, morei lá.

Aliás, é bom deixar bem claro que não dava para ser classificado em nenhuma das categorias acima, pelo contrário, eu era apenas um funcionário do escritório central da empresa que administrava o Porto de Santos, estudante e, ainda por cima, recém-casado! Usava ônibus para ir e vir, aprendia que morar fora da casa dos pais na companhia da mulher amada podia ser libertador mas trazia como efeito colateral, um monte de responsabilidades e, para piorar, o apartamento ficava bem longe da praia, uma lástima…

Mas nos anos 70 o Leblon ainda não era essa badalação toda, muito pelo contrário! Só ia para lá quem queria paz, um lugar para morar sem os aborrecimentos de Copacabana e Ipanema, esses sim, pontos de encontros de todas as tribos (como se dizia na época) dos, vá lá, antenados. Resumindo, o Leblon era sossegado, mais ou menos seguro e com fácil acesso. Um lugar ótimo para recém-casados, crianças e idosos, não necessariamente nessa ordem.

Ocupamos nosso minúsculo apartamento, alugado de uma família de portugueses, tão logo retornamos da Lua de Mel (ainda se chama assim?) em Teresópolis e fomos à luta, no melhor sentido da palavra, é claro. Em 1976 o Brasil era uma ditadura feroz. O general da vez era o Ernesto Geisel e o Rio de Janeiro, recém-saído da fusão imposta pelo governo militar no ano anterior, tinha que engolir um governador nomeado, o almirante Faria Lima. Tempos difíceis, meus caros.

Nossa casa vivia cheia de gente, apesar do seu tamanho. A cozinha, aliás, não permitia nada mais do que muita imaginação e criatividade para preparar algum prato, se é que algum de nós tinha noção do que preparar. O mais comum era abrir uma cerveja ou um vinho e encomendar uns salgadinhos na Cobal Leblon, bem em frente.

Ir à praia era para quem tinha disposição de encarar seis quadras ou mais de um quilômetro para chegar na areia na altura da José Linhares, o ponto mais curto em linha reta. E, é claro, fazer o mesmo trajeto de volta, já cansado, queimado pelo sol e cheio de areia. Carro? Isso era coisa de ricos, vendi o meu para casar e só iria ter outro quando minha mulher engravidou, cinco anos depois.

O Leblon foi generoso conosco. Ou talvez nós é que soubemos aproveitar a chance e iniciar harmonica e amorosamente uma jornada que já dura quarenta anos. Aprendemos que lâmpadas queimam, o banheiro não fica limpo por um milagre e pasmem, roupas precisam ser lavadas e passadas, uma surpresa completa!

Para duas pessoas que nunca moraram sós, começar a vida a dois foi uma experiência importante, marcante, eu diria. Com a ajuda da parentada e dos muitos amigos que fizemos nessa época, os cinco anos vividos no Leblon deixaram saudades e, só terminaram porque decidimos que a família estava pequena e aquele nosso apartamentinho não tinha lugar para mais ninguém. Mas aí já é outra crônica.

Ah, o Leblon, que saudades.

Tarefas

Encomendar os congelados,
pagar as contas do dia,
comprar açúcar, café, pão e um requeijão.

Providenciar a ração da cachorra,
acertar as contas com a faxineira,
o pedreiro e o porteiro.

Pegar a receita,
passar na farmácia
e trazer o alprazolam.

Tirar o lixo,
cortar o cabelo,
Abraçar o amigo.

Ligar para o médico,
marcar a viagem,
reclamar da vida.

Ah sim, para não esquecer,
é bom anotar isso tudo,
tanto faz em versos ou em prosa.

PS: se encontrar, no meio do caminho,
um pouco de bom senso,
pode trazer!

A hora das chuvas

 

A crônica abaixo foi publicada no jornal friburguense A Voz da Serra, na edição de 31 de março de 2011. A foto, feita por mim mesmo alguns dias depois da tragédia, mostra uma parede da Capela de Santo Antônio, na Praça do Suspiro, duramente atingida pelos desabamentos. Nova Friburgo voltou ao normal, embora algumas cicatrizes ainda estejam expostas. Mas, cinco anos depois, fico com a incômoda sensação de que não aproveitamos a oportunidade para reconstruir uma cidade completamente nova. Pois é, 12 de janeiro é uma data para nunca se esquecer. (Carlos Emerson Junior)

oOo

Vamos definir chuva ? Bom, segundo o Wikipédia, chuva não passa “de um fenômeno meteorológico que consiste na precipitação de gotas de água no estado líquido sobre a superfície da Terra”.

A chuva está aí desde que o planeta começou a esfriar. Alimenta os rios, irriga as plantações, suporta a vida. Quanto mais chuva, mais exuberante a natureza. Basta dar uma olhada lá pelos lados da Amazônia, que só tem duas estações no ano: chuva e muita chuva!

O homem convive com a chuva a mais ou menos uns 300 mil anos, tempo mais do que suficiente para conhecê-la muito bem. Aliás, essa convivência já deve ter sido gravada em nossos DNAs.

No entanto….

No dia 22 de janeiro de 1967 tive minha primeira experiência com a chuva em seu estado bruto. Estava indo para São Paulo de ônibus quando, por volta das 23:30 horas, uma tromba d’água destruiu tudo que estava em sua frente na subida da Serra das Araras. Uma árvore enorme despencou da encosta ao lado e funcionou como uma barreira, desviando do nosso veículo toda a lama que descia pelo que restou da estrada.

Ao amanhecer, fomos resgatados por militares do exército e até hoje guardo a terrível visão de gente morta para todos os lados, ônibus semienterrados, uma devastação completa.

Quarenta anos se passaram e no dia 5 de janeiro de 2007, subindo a serra para Nova Friburgo, a chuva resolveu me mostrar novamente seu poder, desabando impiedosamente. Na altura de Mury, também por volta das 23 horas, fomos obrigados a parar devido a quedas de várias barreiras, tendo uma delas (em frente a entrada da AABB) atingido um ônibus da 1001 que ia para São Paulo.

Desta vez não esperamos ajuda. Com uma lanterna de mão, formamos um um grupo e, com a ajuda de funcionários da rodovia e da empresa de luz, conseguimos chegar encharcados mas inteiros na Rodoviária Sul, onde um taxista nos deixou em casa.

As onzes mortes, o grande número de desabrigados e a destruição da cidade me deixou com a plena convicção de que, pelo menos em Friburgo, isso não se repetiria nunca mais. Afinal, as chuvas não vão parar, mas os rios seriam dragados, bueiros limpos, pessoas em áreas de risco removidas, um sistema de alarme instalado.

No dia 12 de janeiro de 2011 dormia tranquilamente, no Rio de Janeiro. Tinha uma passagem comprada para Friburgo na hora do almoço e absolutamente nada para fazer pela manhã . Fui despertado por uma ligação de minha mulher, assustada, pedindo para ligar a TV. Mal acordado, custei para entender o que estava acontecendo. As notícias, vagas e genéricas, falavam em 9 mortes e citavam os bombeiros da Cristina Ziede. Fui ao telefone e tentei falar com o condomínio da minha casa. Inútil. Procurei amigos, conhecidos e até lojas, sem sucesso. Todos os telefones estavam mudos.

Aos poucos, pelas redes sociais, foram chegando relatos esparsos e um quadro de horror foi se delineando. As poucas vítimas das primeiras horas chegaram a quase 500 mortos, só em Nova Friburgo.
Uma tragédia nunca antes vista.

Não fizemos o dever de casa, apesar do aviso deixado apenas três anos antes. Continuamos morando irregularmente, sujando e assoreando os rios, tratando a natureza como se fossemos superiores às intempéries.

O clima mudou, isso é fato. Um pequeno aumento da temperatura já é suficiente para alterar regimes de chuvas, formando grandes e contínuas tempestades e também, ao contrário, provocando longos períodos de estiagem, esvaziando os mananciais e destruindo as lavouras, além dos incêndios florestais, um perigo sempre presente.

Nas primeiras horas o friburguense, ainda atordoado, mostrou união, solidariedade, seriedade, disposição e desapego. Graças a isso e, claro, a enorme generosidade de todos os brasileiros, salvamos vidas, bens, animais e evitamos uma destruição ainda maior.

Daqui para a frente será apenas por nossa conta. As chuvas continuarão seu ciclo e, de vez em quando, trovejarão mais forte. Temos a obrigação de nos preparar para sobreviver, respeitando a natureza.

Simples assim.

A saga de Chopin

 

Outro dia desses publiquei essa foto da estátua de Chopin em uma rede social e descobri que muita gente boa sequer tinha noção da sua existência. Assim, depois uma boa pesquisa no onipresente Google, encontrei um bom resumo no site Urca.net que, inclusive, conta a história dos principais prédios e demais monumentos do bairro. Vale a visita. (Carlos Emerson Jr.)

oOo

“No dia 1°. De setembro de 1939 as tropas nazistas atacavam a pacífica Polônia. O ataque foi tão devastador que três semanas depois os soldados alemães colocavam seu tacão em Varsóvia. Dentre as muitas barbaridades praticadas pelos invasores, uma das primeiras foi a de destruir o monumento ao compositor romântico polonês Frédéric Chopin existente naquela cidade.

Quando a notícia chegou ao Brasil, a comunidade polonesa aqui residente resolveu reagir, organizando uma subscrição para angariar fundos com o objetivo de erguer um monumento a Chopin no Rio de Janeiro. Obtida a verba necessária, encomendaram a estatua ao escultor Augusto Zamoyski. Com 2,5 metros de altura e todo em bronze, o monumento ficou pronto ainda em 1939. Entretanto, a politica dúbia do governo brasileiro, oficialmente neutro, mas relativamente simpático aos alemães, adiou sua instalação por alguns anos.

Com o torpedeamento de navios brasileiros e a posterior declaração de guerra do Brasil aos países do Eixo, desengavetou-se a ideia da estátua. Em 1°. de setembro de 1944, no quinto ano da invasão da Polônia, foi inaugurado o monumento a Chopin na Praça Floriano, defronte ao Teatro Municipal. Lá ficou em paz por exatos quinze anos.

Em fins de 1959, o barítono Paulo Fortes iniciou uma campanha para erguer na Praça Floriano um monumento ao maestro e compositor Carlos Gomes. Conseguida rapidamente a estatua em bronze do maestro brasileiro, começou então uma campanha para dali remover a homenagem a Chopin, por considerarem incompatíveis os dois monumentos. Um outro grupo de intelectuais não via problemas na homenagem aos dois compositores na mesma praça, mas Paulo Fortes não pensava assim e, usando de sua influencia, conseguiu a remoção. Em 15 de Janeiro de 1960, o monumento a Chopin foi retirado à noite por funcionários da Prefeitura, sendo levado para um depósito. No dia 16, pela manhã, estava em seu lugar o maestro brasileiro.

Depois de algum tempo esquecido num depósito, o monumento foi colocado na Praia Vermelha em 1964. Chopin foi retratado em posição de quem medita e escuta. No final das contas, a romântica Praia Vermelha acabou se tornando a moldura perfeita para o mestre do romantismo. A estátua tem 2,5m e está sobre um pedestal de granito com um metro de altura.”