Mate com limão. Ou sem?

Chegou com a mulher no balcão do bar, cumprimentou o atendente e fez o pedido:

— Por favor, um mate natural para mim e um diet para ela.

— Ah moço, por favor, bom dia, o meu diet é sem limão!

— Bom dia, dona. Então é um mate natural para o senhor e um mate diet para a senhora, confere? Vocês querem gelo e limão?

— Quero sim, mas o dela…

— Moço, eu quero gelo, mas sem limão.

— Perfeito.

Alguns minutos mais tarde:

— Não, moço, o senhor me trouxe um mate diet sabor limão. Eu não gosto de limão. Quero diet sem limão.

— Ah, a senhora me desculpe. É que não tem o diet natural, mas posso trazer o diet com pêssego…

— Não, moço, nada disso. Traz um mate natural mesmo, igual ao dele.

— Saindo!

Mais alguns minutos depois:

— Prontinho, taí seu mate natural, bem geladinho!

— Ihhhhh! O copo tem gelo e limão!!!!!

— Pera aí, meu amigo. Ela não quer o limão, só o gelo.

— Mas ela falou que queria um mate igual ao seu!

— Eu quero um mate natural, como o dele, com gelo no copo mas sem o limão! Eu detesto limão. Eu fico enjoada com limão.

— Não tem problema. Olha, eu vou tirar o limão do copo com essa colher e…

— Nem pensar! O senhor vai me trocar o copo, o gelo e o mate. Se eu tomar alguma coisa parecida com gosto de limão, vomito aqui mesmo!

— Meu caro, por favor, traz um outro mate, outro copo e outro gelo. Sem limão! Será que desta vez a gente acerta?

— Já estou providenciando!

Muitos minutos mais tarde…

— Aqui está, senhora. Um copo lavado, gelo e… nenhum limão. Posso servir o mate ?

— Eca!!! O mate é natural sabor limão! Está difícil, né moço? Faz o seguinte, esquece o mate e me traz uma água mineral, sem gás.

— Perfeitamente, madame. A senhora vai querer a sua água mineral com gelo e limão?

A lista da Odebrecht

Michel Temer, Eliseu Padilha, Eduardo “Caranguejo” Cunha, Paulo Skaff, José Yunes, Geddel Vieira “Babel” Lima, Moreira “Angorá” Franco, Renan “Justiça” Calheiros, Romero “Cajú” Jucá, Eunício “Índio” Oliveira, Jaques “Polo” Wagner, Rui Costa, Anderson Dornelles, Gim “Campari” Argelo, Ciro “Cerrado” Nogueira, Agripino “Gripado” Maia, Marcos “Gremista” Maia, Paes “Decrépito” Landim, Heráclito “Boca Mole” Fortes, Lídice “Feia” da Mata, Daniel “Comuna” Almeida, Jutahy “Moleza” Júnior, Francisco “Velhinho” Dornelles, Rodrigo “Botafogo” Maia, Lucio “Bitelo” Vieira Lima, Inaldo “Todo Feio” Leitão e muitos outros, além, é claro do Luiz Fernando Pezão, Eduardo Paes, Lindbergh Faria, Garotinho e Rosinha.

A lista acima, que não é de Natal, reúne alguns dos mais de 50 nomes citados em duas delações premiadas de diretores da notória empreiteira Odebrecht, Claudio Mello Filho, vice-presidente de relações institucionais e Leandro Andrade Azevedo, superintendente da empresa no Rio de Janeiro. Aliás, veja as listas com os nomes aqui e aqui.

Se levarmos em consideração que esses nomes são os primeiros das diversas listas dos próximos delatores da empreiteira, temos todos os motivos para colocar em dúvida o futuro de uma república onde o seu pilar, os três poderes, estão podres, que nem madeira infestada por cupins.

A frase “à mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta” é muito antiga e bem conhecida mas, pelo visto, nossa “elite” dirigente não tem a menor idéia do que se trata. Ou pior, sabe e não está nem aí. Pena que muita gente boa será colocada no mesmo balaio dos criminosos e o joio só será separado do trigo muito tempo depois que toda essa confusão for resolvida.

Se é que isso tem fim.

Na boca da noite

Foto: Carlos Emerson Junior

Uma das mais belas canções já escritas em língua portuguesa, “Na Boca da Noite”, foi o resultado de uma parceria entre o compositor carioca Toquinho e o poeta paulista Paulo Vanzolini. Aliás, o próprio Toquinho conta em seu site como esse samba nasceu:

“Eu já tinha amizade com o Paulo Vanzolini, um letrista com quem sempre quis fazer alguma coisa”, conta Toquinho. “Naquela noite, no Jogral, ele chegou para mim e escreveu em um papelzinho duas estrofes. Fiquei com aquele papel, e demorei para fazer a música. Criar uma melodia para uma letra já pronta é um grande desafio. Cada palavra tem um som dela própria, e tem-se que descobrir esse som. Por isso, foi muito trabalhoso achar uma linha melódica natural para “Boca da noite”.

Curiosamente, Paulo Vanzolini não considerava a poesia pronta, o que não impediu que ela fosse lançada no Festival Internacional da Canção de 1968 onde, defendida pelo grupo Canto 4, ficou em sétimo lugar. Aliás, vale lembrar que além dela participaram (e ficaram imortalizadas) músicas como Sabiá (Tom e Chico Buarque), Prá não dizer que não falei de flores (Geraldo Vandré), Andança (Danilo Caymmi e Edmundo Souto) e Caminhante Noturno (Mutantes), entre tantas outras.

Reparem nos versos de “Na Boca da Noite” e a sua delicada linha melódica. Quase 50 anos depois, soa como uma pequena obra prima.

“Cheguei na boca da noite,
Parti de madrugada
Eu não disse que ficava
Nem você perguntou nada
Na hora que eu ia indo,
Dormia tão descansada,
Respiração tão macia,
Morena nem parecia
Que a fronha estava molhada

Vi um rosto na janela,
Parei na beira da estrada
Cheguei na boca da noite,
Saí de madrugada

Gente da nossa estampa
Não pede juras nem faz,
Ama e passa, e não demonstra
Sua guerra, sua paz
Quando o galo me chamou,
Eu parti sem olhar pra trás
Porque, morena, eu sabia,
Se olhasse, não conseguia
Sair dali nunca mais

Vi um rosto na janela,
Parei na beira da estrada
Cheguei na boca da noite,
Saí de madrugada

O vento vai pra onde quer
A água corre pro mar
Nuvem alta em mão de vento
É o jeito da água voltar
Morena, se acaso um dia
Tempestade te apanhar
Não foge da ventania,
Da chuva que rodopia,
Sou eu mesmo a te abraçar

Vi um rosto na janela,
Parei na beira da estrada
Cheguei na boca da noite,
Saí de madrugada”

Fontes:

Esquina Musical
Memória Globo
Toquinho

Navio fantasma

Foto: Carlos Emerson Junior

Um navio fantasma nunca termina sua viagem, jamais atraca em porto algum. Ninguém sabe seu nome, sua origem ou a sua tripulação. Que carga carrega, de onde saiu, para onde vai. Contam histórias, sempre tristes, assustadoras, fantasmagóricas. Ouvem rangidos, apitos roucos e longos nas noites de nevoeiro. Alguns são reais, outros apenas imaginação, medo, superstição.

O navio fantasma continuará cortando os mares nas noites escuras, mostrando sua silhueta enferrujada no meio das tempestades para alguns poucos loucos, sonhadores e poetas. Mas atenção, incauto! De repente, na beira de uma estrada, ao lado de um estaleiro qualquer, você pode perceber seu vulto em uma foto perdida em seu celular. E daí, do nada, um calafrio toma conta do seu corpo e acredita que viu um fantasma.

Não se iluda,caro leitor ou caríssima leitora, “é muito mais difícil matar um fantasma do que matar uma realidade”, vaticinava a escritora Virgina Woolf. A história não registra nenhum afundamento de um navio fantasma…

Quem quer dinheiro?

Foto: Carlos Emerson Jr.

A foto acima, feita hoje pela manhã, quase no quadrado da Urca, mostra uma multidão (meio exagerado, né?) acompanhando os quase 20 mergulhadores que procuram um misterioso malote cheio de dinheiro, segundo me contou, sigilosamente, um velho (mais do que eu, claro) morador do simpático bairro carioca.

Estava na parte final da caminhada de 10 quilômetros de hoje e ainda pensei em dar um mergulho para faturar alguns trocados, mas com tanta gente em volta, não foi possível sequer chegar até a escada que dá acesso às águas fétidas da Baia da Guanabara. Vai ficar para a próxima.

A imprensa do Rio não perdeu tempo e já está de olho nos possíveis novos milionários. Aliás, recomendo a leitura dos artigos “Banhistas literalmente nadam em dinheiro em praia do Rio de Janeiro” (Blasting News) e “Pelo terceiro dia consecutivo, moradores acham dinheiro na Urca” (O Dia). Dizem que tem até quem faturou mil reais lavadinhos, lavadinhos, enquanto outros ficaram com quatrocentos e até oitocentos reais.

Pois é, o que teria acontecido? Algum distraido foi pescar e perdeu o dinheiro no mar? Lavagem literal de dinheiro? Queima (queima?) de arquivo? Natal antecipado? Obra do Cabral? Nem desconfio. Só sei que nessa história, o único que não encontrou uma mísera moeda de cinco centavos no chão fui eu. Ô dureza…

Morri

– Acho que eu já te contei que morri, fui pro céu e voltei, não é mesmo?

— Não e não estou com a menor disposição para ouvir mas, infelizmente, tenho a impressão que você vai contar de qualquer jeito…

– E porque eu faria isso? Se você não quer ouvir eu não conto e ponto final.

– Tá falando sério, cara?

– Te enganei, imagina se não vou contar a história de minha vida. Começo do começo, digo, da infância ou você quer que eu vá direto para a minha morte?

– Faz o que você bem entender, acabei de perceber que também morri e não tem nem uns vinte segundos. Assim, logo, logo você estará contando sua história para um corpo inerte.

– Você morreu mesmo?

– Tô mortinho da silva e muito espantado com sua distração. Pô, você não sabe reconhecer um defunto quando dá de cara com um? Afinal, experiência não lhe falta, você já morreu uma vez.

– Morri e desmorri. Tudo bem, fica calmo que não vou sair do seu lado. Quando você acabar de morrer, eu conto tudinho.

– Só se você morrer também, já que não pretendo voltar nunca mais.

– Puxa… Então tá, me espera só um pouquinho que já vou morrer outra vez e aí a gente segue juntos papeando lá pro céu. Tchau!

Desenho: Flávio Wetten

Metralhadora no ônibus

“Ladrão com metralhadora morre em tentativa de assalto a ônibus na Avenida Brasil”.

Parece manchete do extinto jornal Luta Democrática, mas é do O Globo mesmo. E quando li, só não cai no chão porque estava sentado diante do computador. Imagino o pânico de quem foi rendido dentro do busão por um bandido com uma submetralhadora MT12 (segundo a polícia), de fabricação nacional, da Taurus, lançada em 1974 e ainda muito usada pela FAB e de diversas polícias militares do país. Esse tipo de arma você sabe como funciona, basta segurá-la com força, apertar e segurar o gatilho e disparar rajadas de balas na direção do inimigo, perdão, das quase vítimas.

Só para acalmar os leitores (ou terminar de aterroriza-los), é bom esclarecer que o bandido foi morto por um passageiro que reagiu quando ele anunciou o assalto. Além disso, a polícia descobriu que arma não tinha munição. De qualquer maneira, fica a questão, como uma arma de combate, operacional, cai na mão de um manezão? Até onde sei, todo o armamento das forças armadas e policiais é cadastrada. Seria tão difícil rastrear essa submetralhadora e descobrir quem foi o responsável por uma quase tragédia?

Minha solidariedade ao passageiro do ônibus que, resignadamente declarou à imprensa: “– A gente espera pistola, revólver, faca. Mas metralhadora, nunca. É complicado.” Vale lembrar que o cidadão da foto acima é um soldado alemão da 1ª Guerra Mundial. A bandidagem brasileira só usa uniforme quando está na cadeia.

Voto de cabresto

Foto: Carlos Emerson Junior

O que tem em comum o Brasil, Argentina, Bolívia, Congo, Equador, Egito, Fiji, Líbano, Líbia, Nauru, Paraguai, Singapura, Tailândia, Turquia e mais outros seis países? O voto obrigatório, uma excrescência adotada por aqui em 1932, durante a ditadura Vargas. Em contrapartida, em 236 repúblicas democráticas, o voto é facultativo. Isso quer dizer que nossa “elite” política acredita que ainda não sabemos votar. Pode até ser, mas eles também não sabem governar…

Na última eleição, mais de 1.800.000 cariocas não apareceram nas zonas eleitorais para cumprir sua “obrigação”. Junto com a turma que deixou em branco ou anulou seu voto, quase 40% dos eleitores do município deixaram um duro recado aos partidos e suas indicações desastrosas para disputar um cargo tão importante como a prefeitura carioca.

No fim o pior quadro prevaleceu e como a disputa ficou entre um bispo evangélico e um messias do PSOL, tenho quase certeza que os números da final do dia 30 serão bem maiores e mais contundentes. Tomara (que ingenuidade) que desta vez os “caciques” aprendam alguma coisa.

A propósito do título desta crônica, voto de cabresto é uma antiga expressão surgida no interior do Brasil, ainda na República Velha, onde o controle do poder político é feito através do abuso de autoridade, compra de votos ou utilização da máquina pública. Ou seja, o fazendeiro, coronel, prefeito ou raio que o parta colocava uma turma de peões num caminhão até a urna eleitoral e todo mundo tinha que votar no candidato que ele determinasse.

Ah, mas o voto eletrônico acabou com isso! Acabou? Aqui mesmo, no Estado do Rio, milicianos e traficantes desafiam o Tribunal Superior Eleitoral e chegam ao ponto de proibir a entrada e campanha eleitoral de candidatos “inimigos”, digamos assim, nas comunidades sob sua “influência”. Aliás, segundo o ex-ministro e ex-presidente do TSE Carlos Ayres, a milícia sempre afirmou que “a urna eletrônica não ofereceria essa transparência que se faz necessária e que seria possível saber quem votou em quem, como modo de inibir o voto livre e consciente”.

Pois é, voto livre e consciente. Como falar nisso se grandes regiões da cidade não são permitidas a qualquer um? Não adianta tapar o sol com a peneira, já diziam os antigos, a cidade foi partida, dividida e todo mundo faz de conta que não viu, que não tem nada a ver com isso. Os moradores (e quanto mais pobres pior), são os que mais sofrem. E ainda querem falar em voto útil, voto no menos pior, voto consciente, voto cidadão e outras babaquices?

Tenham dó!

Voto obrigatório é voto de cabresto. É a oficialização do coronelismo, é uma invenção de regimes ditatoriais, ultrapassados. O dia que o candidato tiver que seduzir o cidadão para sair de casa e ir até a urna eletrônica digitar seu voto, aí sim, teremos dado um enorme um passo na direção da verdadeira democracia. Porque o que existe hoje não passa de uma oligarquia. Da época de Vargas.

Em tempo, não sou candidato a nada.

Legado

Foto: Carlos Emerson Jr.

Essa palavrinha aí do título, muito usada nos últimos meses para justificar o mega investimento feito pelos governos estadual, federal e municipal na cidade do Rio de Janeiro nos últimos dois anos, tem vários significados, segundo o dicionário Caldas Aulete: “qualquer coisa, conhecimento ou bens materiais ou culturais, que se transmite às gerações seguintes”; “quantia ou bem predeterminados que alguém deixa por testamento” e por aí vai.

Pois muito bem, legado é isso, alguma coisa que você deixa em beneficio de terceiros. Geralmente é uma coisa boa mas pode ser um verdadeiro “presente de grego” se faltar um pequeno detalhe que é exatamente o tema dessa crônica e foi ignorado por todas as autoridades envolvidas nos dois eventos, a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos: uma boa e velha dose de sinceridade.

– Eu acredito que nós teremos uns Jogos Olímpicos que vai ter uma qualidade totalmente diferente e que vai ser capaz de deixar um legado tanto… porque geralmente as pessoas pensam: ‘Ah, o legado é só depois’. Não, vai deixar um legado antes, durante e depois. (Dilma Rousseff, ex-presidente do Brasil);

– O Jogos vão deixar um legado para o Rio de Janeiro de novas instalações esportivas para os atletas e para a população. A Olimpíada vai deixar um legado de transporte até para as proximas gerações. Em apenas sete anos, o número de pessoas com acesso a transporte público aumentou muito, de 16% em 2009 para 63% agora. Esses Jogos vão deixar o maior legado desde Barcelona 1992 (Thomas Bach, presidente do COI).

O legado acabou sendo o descalabro, o caos que estamos vivendo na cidade e no estado do Rio de Janeiro. A violência, contida por tropas de elite do exército, marinha e da força nacional, desandou de vez com a sua retirada. A bandidagem, evidentemente reprimida durante dois longos meses, voltou para as ruas com força total e, para agravar o quadro, o governo do estado decretou falência.

Nessas horas, concordo com o desabafo da jovem Daiene Mendes, correspondente do jornal britânico The Guardian, no seu ótimo artigo “Jogos Olímpicos do Rio: A visão das favelas“: espero que os jogos olímpicos acabem logo. Porque de legado, eu só vejo repressão, militarização e guerra. Está na hora de acabar.

Pois é, a cidade do Rio de Janeiro é grande, espraiada, como gostam de dizer os urbanistas e completamente desigual. Turistas do mundo inteiro flanando na Barra e na zona sul e as comunidades da zona norte e oeste sendo barbarizadas pela bandidagem de sempre. Normal, diriam os cínicos. Porque seria diferente durante um evento internacional?

O que mais dói é que, no fundo, tínhamos a esperança que o Rio se transformasse, de uma vez por todas, na Cidade Maravilhosa da marchinha. Afinal, a presidente, o governador e o prefeito garantiram isso. Abrimos mão de mais de 40 bilhões de reais, que deveriam ter sido destinados para a saúde, educação e transportes e foram torrados num evento caríssimo, eleitoreiro, que durou duas semanas.

A festa acabou, meu irmão. Descobrimos que continuamos pobres, quem ganhou, faturou muito e quem perdeu, quase todos nós, já era. Meu pai dizia que só ia acreditar que o Brasil estava mudando no dia que um político prometesse e deixasse algum legado efetivamente útil para a população. Que pena, ainda não foi desta vez.

A rádio russa

Enquanto se servia do café requentado do jantar, aproveitou para ajustar o nível do som do velho rádio de ondas curtas. O dial digital acendeu e logo se ouviu o som de uma campainha ritmada, acompanhada do inevitável chiado característico dessas transmissões. Pois é, como obsessivamente fazia nos últimos dez anos, só sintonizava a enigmática UVB-76, lá da Rússia.

Sempre que precisava escrever um artigo, crônica, texto, seja lá o que fosse, aquele sinal monótono era sua trilha sonora enquanto digitava. Depois de um certo tempo o cérebro se abstraia do som e as palavras vinham rapidamente, como se quisessem fugir daquela chateação. Achou graça do pensamento.

Abriu o notebook e pela milésima vez conferiu na Wikipédia: “UVB-76 (também UZB-76, S28 ou MDZhB) é uma estação de rádio de ondas curtas, que transmite um sinal contínuo na frequência 4.625 kHz, descoberta em 1982. Algumas vezes o sinal de alarme é interrompido por uma transmissão de voz em russo. O objetivo desta estação ainda é desconhecido.”

O ser humano adora teorias da conspiração e ele não era diferente. Ficou imaginando se a estação não seria uma espécie de “arma do soldado morto” ou do “juízo final”: caso saísse do ar durante um ataque nuclear de proporções bíblicas, automaticamente dispararia todos os mísseis do arsenal russo, acabando com o mundo.

Sentiu um arrepio só de imaginar, mas o tema do artigo era outro e estava perdendo tempo divagando. Enquanto considerava se deveria apagar tudo aquilo já tinha escrito, notou que o chiado da estação aumentara e o zumbido desaparecera. Levantou-se para checar se o receptor havia perdido a sintonia quando, aterrorizado, ouviu uma voz masculina repetir a frase duas vezes:

-”Mikhail Dmitri Zhenya Boris”.

Sentou-se e colocou o fones de ouvido. Não ia perder aquilo por nada do mundo. O sinal do rádio, muito instável, dava sinais de que ia perder a transmissão. Qual seria o significado daquelas palavras? Nomes? Um novo prefixo? Ordens? Repentinamente o zumbido habitual voltou, monocórdico e, de certa maneira, tranquilizante.

Metodicamente anotou em um post-it a frase, data e hora: 7 de setembro de 2010, 01:48, hora do Rio de Janeiro, 08:48, hora de Moscou. Pegou a xícara de café e foi até a janela do quarto. Nunca as luzes da cidade lhe pareceram tão acolhedoras. De qualquer forma, o mistério continuava e o mundo não ia acabar nesta noite. Relaxado, resolveu adiar o trabalho, desligou o rádio, o note e foi dormir.

oOo

A rádio UVB-76 realmente existe e transmite seu misterioso sinal até hoje. Conheça sua história aqui.

Fora do ar

Li em algum lugar, não me lembro onde nem quando (coisa comum com a quantidade de informações à disposição na rede) que o governo americano está preocupado com a posição dos submarinos da marinha russa, próximos aos cabos marítimos de comunicações, aparentemente para cortá-los no caso de uma guerra, provocando o caos entre seus inimigos.

A bem da verdade, é preciso ficar com um pé atrás. Quem garante que a marinha americana não faz a mesma coisa? Afinal, não por acaso os dois países protagonistas da extinta (?) guerra fria possuem as maiores frotas de submersíveis do planeta. Notícia plantada ou não, uma ação dessas poderia provocar até uma reação nuclear e, por isso, é difícil não acreditar que eles não tenham um plano B, ou melhor, um meio de comunicação alternativo para esse tipo de agressão.

De qualquer maneira, existe um lado bom. Passamos (a minha geração, claro) os anos 60, 70, aguardando o momento que seríamos reduzidos a pó (ou nem isso) por centenas de mísseis balísticos com armas nucleares, lançados de submarinos espalhados pelos sete mares. É bom (sempre) lembrar que o arsenal atômico (ainda) tem capacidade para destruir nosso planetinha umas dez ou vinte vezes… Mas divago, não é mesmo? O lado bom é que desta vez só ficaremos sem a internet, não seremos exterminados.

– Como assim, sem a internet? Pirou? Isso é o próprio apocalipse!

Pois é, a turma mais plugada entra em pânico só de pensar numa tragédia dessas mas, convenhamos, se não houver reação militar, sua falta não será nenhum Armagedom, como os profetas interneticos proclamam em alto e bom som. Muito pelo contrário, recentes estudos (também não perguntem quais, consultem o Google) provam que ir ao banco, ler jornais de papel, frequentar bibliotecas, pagar com dinheiro vivo ou cheque e telefonar para os amigos, por exemplo, são atividades esquecidas mas que – atenção – não causam nenhum dano à nossa saúde.

Aliás, vale conhecer a saga do jornalista alemão Paul Müller, que ficou um ano sem usar a internet! Apesar da postura antissocial, crises de depressão, sete quilos perdidos e, pior, não ter vivenciado nenhum “momento epifânico” (seja lá o que isso signifique), garante nunca mais embarcar numa furada dessas. Mesmo financiado! Conheça melhor essa incrível aventura aqui (inglês) e aqui (português).

Pois é, meus caros, já ia colocar o ponto final na crônica quando percebi que não falei nada do Brasil. Nossa internet é uma unanimidade, ninguém gosta. Lenta, errática, cara prá burro, isso quando não desaparece repentinamente, sem aviso prévio ou desconto na fatura (essa sim, com eficiência de primeiro mundo). Decididamente acho que não corremos o risco de um ataque estrangeiro em nossos cabos, a não ser que…. Bom, estamos construindo um submarino nuclear, com tecnologia francesa, que deve ser lançado ao mar em 2021. Vai que uma dessas superpotências ache que somos um perigo em potencial! Aí danou.

Passarinho verde

Foto: Carlos Emerson Junior

Que é isso, menino? Viu passarinho verde? Antigamente – e coloca antigamente nisso – usava-se muito a expressão, “viu passarinho verde?” que como acabei de descobrir quando escrevia esse artigo, não tem o mesmo sentido que usavam lá em casa.

Explico. Quando estava “atacado”, impossível, um chato mesmo, minha mãe, antes de partir para os “finalmentes”, perguntava se eu tinha visto passarinho verde. Como tínhamos um periquito verde na gaiola, o malcriado aqui respondia que sim e, invariavelmente, ganhava um cascudo de volta.

Pois é! Na verdade, a expressão se refere ao pessoal que, sem nenhum motivo aparente, manifesta exagerada alegria. Como todo o motivo tem um causa, o site “História e Suas Curiosidades” dá a explicação:

“Essa expressão surgiu no Brasil, no século XIX. (…) Na época do Brasil-Império, era moda uma mocinha ter como animal de estimação um papaguaio ou mesmo um periquito. Era chique também a mocinha ficar com o periquito na janela olhando os transeuntes passar. Quando ela se engraçava de um jovem e quando entre eles havia um certo contato, um pré-namoro, e quando ele a convidava para se encontrarem às escondidas, ela dizia que o sinal para o encontro dar certo ou não seria o seguinte: quando rapaz passasse em frente à casa dela, se ela estivesse com o periquito na janela era sinal de que o encontro iria dar certo. Caso contrário, não daria.

Quando o rapaz via a moça e seu respectivo periquito, geralmente dava um sorriso e saía todo contente. Alguns amigos que já sabiam da proeza, ao notarem o rapaz sorridente, geralmente diziam assim: “Você parece que viu passarinho verde.” Ou seja, fulano viu o periquito ou o papaguaio (ambos também chamados, à época, de passarinho verde, principalmente pelos estrangeiros) da moça, sinal inequívoco de um encontro às escondidas.”

Pois é!

Reboco

Foto: Carlos Emerson Junior

Reboco, palavra originada do árabe “rabuq”, é aquela argamassa que usamos para alisar paredes, preparando-a para receber cal ou pintura. Aliás, no caso de paredes com tijolos ou blocos, temos que percorrer quatro etapas: chapisco, emboço, reboco e a massa corrida. Mas isso é assunto para blog de construção civil e está aqui só para ilustrar o caso que aconteceu em um Dia dos Namorados.

O meio da noite se aproximava, a cachorra dormia placidamente enquanto o casal lutava para assistir na televisão um filme romântico ruim de doer, sem despencar no sofá, completamente vencidos pela mediocridade e o sono.

De repente, um barulhão enorme grita no silêncio e no escuro: alguma coisa caiu na na área externa do apartamento. Imediatamente acordaram do torpor televisivo. A vizinhança toda correu para janela.

– Caramba, será que alguém pulou aí fora?

– Como assim, suicídio?

– Sei lá!

– Não parecia gente… quem sabe um gambá que escorregou lá de cima?

– Você consegue ver alguma coisa da janela?

– Não, está muito escuro, esqueci que a luz tinha queimado e, não tem jeito, vou lá ver, olha a comoção que está provocando…

Pegou a lanterna, acendeu e foi checar o que tinha acontecido. Para alívio geral não havia corpo algum, as plantas estavam intactas e nenhum gambá pulou no seu pescoço. O piso, no entanto, estava cheio de pedaços quebrados de reboco.

A vizinha do andar de cima, assustada, mostrava seu prejuízo, a persiana do quarto quebrada. A lanterna, na verdade uma lanterninha de led do tamanho de uma canetinha, mal iluminava a fachada do prédio. De qualquer maneira, ficou claro que não fora um atentado terrorista e sim um reboco mal colocado (é assim mesmo que se fala?).

Foi isso, foi aquilo, cadê o síndico, cadê a polícia, ainda bem que não machucou ninguém, o reboco transformou o fim de noite num convescote. Sem conclusão alguma, trancaram a casa e foram dormir, desta vez na cama mesmo. Ainda teve tempo para encerrar a aventura com a pergunta que não queria calar, desde que o incidente começou:

– Já imaginou se fosse um suicida? Sabe como é, Dia dos Namorados, a pessoa solitária, deprimida, uma ótima data para morrer e a gente ia passar a noite na delegacia prestando depoimentos. A mulher sequer respondeu. A essa altura, dormia o sono dos justos.

A sala escura

Na fortaleza, plantada em uma rocha que avançava para dentro do mar, havia uma sala peculiar, escavada no subsolo, abaixo do nivel da água. Por esse motivo, quando a maré subia, a sala inundava, algumas vezes, diziam, completamente.

A sala não tinha janelas e qualquer tipo de iluminação. O acesso era feito por um alçapão de madeira no seu teto, que só abria por fora. Existia uma porta de ferro, muito grande e pesada que, garantiam, jamais fora usada, ninguém sabia explicar porquê.

O interior da sala era sufocante, quente, úmido, fedorento e aterrorizante. O tempo todo você ouvia o barulho das ondas quebrando em algum lugar. O piso de pedra estava sempre encharcado e não havia um lugar seco sequer para dormir. Contavam que nas noites de mar alto, os escravos rebeldes, que ali ficavam de castigo, gritavam implorando para sair da sala, enquanto a água subia e ia levando, um por um, para suas profundezas.

E essa era a parte mais assustadora da sala: na manhã seguinte, quando abriam o alçapão, não havia ninguém mais lá dentro. Os corpos sumiam, como se a sala não quisesse devolver seus mortos. Alguma passagem, fenda ou falha, tragava tudo o que estivesse lá dentro. E ficava a espreita, aguardando novos infelizes.

Um dia aboliram a escravidão. A fortaleza ganhou canhões potentes, outros ocupantes, as ideias mudaram, o mundo se modernizou e nunca mais se ouviu falar da sala escura e sem porta até que, muito anos depois, um movimento anormal de gente entrando, circulando e saindo dos corredores da fortaleza chamou a atenção do povo do lugar.

Contavam – e sempre tem quem veja e conte – que alguns jovens, garotos quase, estavam sendo levados e jogados na infame sala escura, todos os dias, todas as noites. E, da mesma forma que antigamente, quando abriam o alçapão, não havia mais ninguém.

Certa vez, um dos guardas da fortaleza tomou coragem e perguntou para um superior se era verdade que a sala estava sendo usada. O homem olhou para os lados e bem sério mandou o guarda esquecer tudo o que ouvia, via e sentia. Para sempre. Explicou que as pessoas que iam para a sala eram os inimigos, não mereciam a menor compaixão.

O guarda ficou calado e obedeceu. A partir daquele dia deixou de ouvir os gritos pedindo socorro, não viu os corpos deformados por surras e torturas, deixou de sentir pena pelos que iam ser arremessados pelo buraco do alçapão. Saia de perto quando as pessoas conversavam sobre a sala.

Hoje, a fortaleza virou um museu. As pessoas vão lá para passear, estudar ou simplesmente tomar um café. A sala foi reformada, suas paredes pintadas e impermeabilizadas, a fenda do mar selada e até mesmo uma iluminação azul, bem fraca, foi instalada. Ao fundo, construiram um pequeno altar e colocaram a imagem de uma santa.

Ficou bonito. Pena que ninguém mais se lembre de todos os que entraram e sumiram naquela sala escura sem porta da fortaleza. Pena mesmo. Hoje,todo mundo acabou ficando como o guarda. Nada ouve, não vê, não sente e, principalmente, não fala.

A sala escura da fortaleza ainda está lá.

Sempre.

As cerejeiras

“À sombra das cerejeiras em flor,
pessoas de todo estranhas
não há.”
(Kobayashi Issa, 1763-1827)

oOo

Estive em Nova Friburgo no sábado, dia 16. A cidade continua e linda e melhor, suas cerejeiras, trazidas pelos imigrantes da colônia japonesa e beneficiadas pelo clima da serra, estão todas floridas. Uma florada efêmera, curta e intensa. Símbolo do Japão, as cerejeiras era muito apreciadas pelos antigos samurais e passou a representar a efemeridade da existência humana e ao lema dos samurais: viver o presente sem medo. Assim, a flor de cerejeira está também associada ao código do samurai, o Bushido. Como não levei uma câmera decente (celular não vale) e só permaneci um dia, fiz a colagem acima com antigas fotos, da época que estava todos os dias por lá. Aliás, bem em frente de minha casa tem uma dessas belas árvores. A cidade fica mais alegre, luminosa e, por que não, perfumada.

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Fotos: Carlos Emerson Junior

Tiê-Sangue

Foto: Carlos Emerson Junior

O belíssimo pássaro aí das fotos, um legítimo Tiê-Sangue, já tinha me acompanhado nas corridas diárias lá na Pista Claudio Coutinho, na Praia Vermelha, aqui no Rio. Várias vezes tentei fotografá-lo, mas em vão, a ave é arisca e não gosta de muito papo. Hoje, surpreendentemente, três deles pousaram em uma árvore na beira da trilha e fizeram pose para um grupo de turistas chineses. Eu vinha logo atrás, parei e não acreditei: demorei para ativar a Sony, não consegui me posicionar bem e, como era de se esperar, a animação chinesa acabou assustando os bichinhos e as fotos não ficaram boas…

O Tiê-Sangue ou Ramphocelus bresilius dorsalis, também conhecido como sangue-de-boi, tiê-fogo, chau-baêta e tapiranga, é considerado ave símbolo da Mata Atlântica. Aliás, vale ler mais sobre ele no Wiki Aves e no Pássaros Silvestres, onde é possível ouvir o seu canto.

Foto: Carlos Emerson Junior

Bondes

Foto: Carlheinz Hahmann

“No depósito da CTC, em Triagem, o funcionário vem com um galão de gasolina, espalha o combustível sobre os bancos de madeira do bonde e risca um fósforo. Em minutos, um inferno de labaredas devora toda a peroba do campo que formava a estrutura do veículo, deixando no chão apenas cinzas e partes metálicas enegrecidas.

A cena brutal, de desperdício ímpar, aconteceu ao longo de 1964 e 1965, os últimos dois anos de Carlos Lacerda como governador da Guanabara. O sistema de bondes do Rio, que já fora considerado pioneiro e um dos maiores do mundo, vinha sendo desativado desde o início daquela década. Antes operada por empresas privadas como a Light, a Cia. Ferro-Carril do Jardim Botânico e a Ferro-Carril Carioca, a rede passara ao controle do estado. Vistos como um entrave para o trânsito e o progresso, os velhos veículos foram aposentados na marra após seis décadas de serviços prestados. A ordem era substituí-los por uma frota de trolley-bus — ônibus elétricos importados da Itália — e, paulatinamente, sepultar seus trilhos sob mantas de asfalto. (O Globo, 8/6/2016)

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O que veio depois é história. O ônibus elétrico foi um fiasco e, para não jogar mais dinheiro no lixo, acabaram adaptados para rodar com motores diesel convencionais, outra burrada. Depois dessa mixórdia os antigos lotações viraram empresas de ônibus, dividiram a cidade entre si, as prefeituras se omitiram ou coisa pior e, voilá, o Rio de Janeiro hoje tem um dos piores serviços de transporte público do mundo. E não é exagero, não, qualquer carioca aplaudiria minhas palavras de pé!

A nostálgica matéria do jornalista Jason Vogel, “Antigos bondes do Rio de Janeiro rodam nos Estados Unidos”, publicado no O Globo de hoje, conta a odisséia de alguns dos 12 sobreviventes do incêndio patrocinado pela diretoria da extinta empresa estatal CTC-GB que, de uma vez só, consumiu toda a frota. Enquanto lá fora esses bondes, em excelente estado de conservação e alguns com mais de 100 anos, ainda circulam em cidades, parques e museus ferroviários, aqui no Rio não restou um único exemplar para mostrarmos aos nossos netos.

Como sempre, por estupidez, arrogância, pouco caso ou má fé, colocamos fogo em nossa própria História…

Volta, Mané!

Pois é, achei que não dava mais a menor importância, mas bastou ler no jornal de hoje que o Botafogo, na sexta rodada do Campeonato Nacional, já está em último lugar (e consequentemente na zona de rebaixamento), para voltar a ter a lamentável sensação que o outrora Glorioso clube de décadas passadas caminha célere para se transformar em um novo América, simpático clube carioca que desapareceu nas terceiras divisões da vida.

Afinal, 21 anos (isso mesmo, vinte e um) depois do último título no Brasileirão, já frequentamos a segunda divisão duas vezes e, pelo visto, estamos nos acostumando. Uma pena. Pelo menos, para mim, fica a lembrança, a alegria e a honra de ter visto Garrincha jogando com Nilton Santos, Didi, Paulinho Valentim, Rildo, Quarentinha, Zagalo, Gérson, Paulo César, Roberto, Manga, Rogério e tantos outros craques que fica difícil relacionar.

Será um adeus, Botafogo? Espero sinceramente que não e mais, continuarei sonhando com um retorno miraculoso de Mané Garrincha e suas pernas tortas, desmontando as defesas adversárias e nos levando para a vitória. Volta, Mané!

Foto: CpDoc/JB