Manhã de domingo

Praia Vermelha, Urca
Foto: Carlos Emerson Junior

Apesar das previsões desastradas do tempo, o domingo amanheceu bonito, céu azul e temperatura outonal na medida certa: nem muito quente, nem muito frio. A mulher foi à missa, a cachorra toma sol na porta de casa e eu, bom, ao invés de correr até o Parque do Flamengo ou simplesmente dar uma caminhada pela orla da Urca, estou digitando este texto, enquanto aguardo a visita da assistência técnica da operadora de internet. Desde ontem estou fora do ar.

Fora do ar é exagero, claro. Os onipresentes smartphones nunca dormem, Android e IOS se encarregam de registrar e transmitir para algo ou alguém tudo o que fazemos, falamos, comemos e, se bobear, pensamos nas 24 horas do dia. É engraçado, falamos em privacidade e pagamos (caro) para expô-la… No entanto, o que seria de nossa vida, hoje, sem esses aparelhinhos tão úteis?

Mas divago, como sempre. E não, não li o jornal de hoje, não liguei a TV, nem naveguei na internet pelo celular. Afinal, tenho que ser coerente, se estou fora do ar, que seja fora do ar mesmo. De qualquer maneira, as notícias não devem ser nada diferentes das de ontem. Terrorismo em Londres, corrupção no Brasil, crise no Estado do Rio…

Não, uma manhã de domingo tem que ser diferente do resto da semana. Fico pensando se não teria sido mais sábio agendar o técnico para a segunda-feira. Enfim, agora já era. Ou não, sei lá. De qualquer maneira, nesse espaço de tempo já varri o quintal, lavei e guardei a louça de ontem, coloquei a cachorra para tomar sol, escrevi esse texto e dei uma mexida em outros dois que aguardam ideias melhores para sua conclusão.

De tardinha, se for possível, saio para ver as modas. É isso aí, gíria da década de 60. Hoje é domingo, gente, relevem e aproveitem. A foto foi feita ontem, sábado pela manhã, na Praia Vermelha. É verdade, a areia completamente vazia e só uma turma de nadadores dentro da água. Já na calçada, que multidão! Reflexos do outono. Ah, sim, antes de colocar o ponto final, o técnico da Net chegou, trocou o roteador, voltei ao ar e este post foi publicado. Tudo nos trinques!

Uma ótima semana para todos nós.

Rojão

Rojão (ro.jão): fogo de artifício formado por tubo de papelão com pólvora, pavio e punho; foguete; ritmo de vida intenso e agitado; tipo de baião; toque arrastado ou rasgado de viola; passo de cavalo (ou outro animal) quando cavalgado. Segundo o Dicionário Aulete, Rojão é isso tudo aí.

Rojão rima com arranjão, feijão, fujão, gajão, intrujão, marmanjão, mijão, rabujão, requeijão, rijão e varejão. É sinônimo de casca grossa, foguete, descompostura, repreensão, rojo, fogos, fogos de artifício. Rojão em inglês é rocket.

Rojão também é um prato regional. No norte de Portugal, nacos de carne de porco fritos em banha chamam-se rojões. Mais corretamente, rojões à moda do Minho. Rojão é sobrenome de famílias vindas lá da terrinha.

Rojão é uma dança nordestina, de ritmo acelerado. Quem toca e canta, procura narrar suas façanhas ou de algum personagem famoso, exaltando sua valentia. Pode durar horas. É tocado com a viola, o tan-tan e a pandeireta.

Rojão, meu caro amigo, está nos versos do Chico Buarque, aquele que diz “que a coisa aqui tá preta, muita mutreta pra levar a situação, que a gente vai levando de teimoso e de pirraça, e a gente vai tomando que, também, sem a cachaça, ninguém segura esse rojão”.

Rojão, segundo o Regulamento para a Fiscalização de Produtos Controlados (R-105), não pode ser vendido para menores de 18 anos e sua queima depende de licença da autoridade competente, com local e hora previamente designados, nos casos de festa pública ou em qualquer lugar, dentro do perímetro urbano.

Rojão faz mal para os animais. Eles sofrem com o barulho da explosão, entram em pânico. Alguns fogem, outros choram, a maioria se esconde. Podem se mutilar, tentando escapar. Se estiverem juntos, podem brigar. Convulsões e trauma psicológico são esperados.

Rojão mata. Mais de 1300 pessoas já se feriram manuseando ou apenas assistindo queima de fogos. Dados do Ministério da Saúde. Até 2011, foram mais de 120 óbitos. Seis mil pessoas foram internadas com ferimentos graves. Um rojão matou 242 jovens em uma boate de Santa Maria. Um jornalista morreu em 2014 durante uma manifestação no Rio.

A propósito, seria o Brasil um imenso rojão?

Dias frios

Foto: Carlos Emerson Junior

A Voz da Serra

Será que pega mal um carioca escrever um artigo sobre o frio, logo nós que vestimos os casacos quando a temperatura no Rio cai abaixo dos 19º? Bom, no meu caso específico acho que posso dar palpite sim, afinal moro em Nova Friburgo tem uns dez anos e aqui, meus queridos, quem não se acostumar com o clima da serra está perdido!

Quando comprei o apartamento no Sans Souci, o velho hotel tinha acabado de fechar e os poucos vizinhos estavam espalhados no meio de uma enorme mata. A estreia no inverno foi premiada e experimentamos de cara várias noites com o termômetro gritando zero grau! Certa vez o frio foi tanto que pela manhã fugimos de volta para o calor do Rio, questionando seriamente se tínhamos mesmo feito um bom negócio vindo para cá!

Mas como não somos de desistir e sabemos muito bem que, parafraseando Euclides da Cunha, o friburguense é, antes de tudo um forte, levantamos a cabeça, compramos edredons, moletons, meiões, luvas, gorros, cachecóis, aquecedores e hoje achamos até graça do aperto daqueles dias.

Sempre fui fascinado pela região serrana e pelo frio em particular, talvez por ter nascido e morado a vida inteira em uma cidade praiana, onde o calor nos verões beira ao insuportável. Minha primeira experiência com uma temperatura realmente baixa, mas muito baixa mesma, foi em Campos do Jordão, no interior de São Paulo, quando encaramos dois graus negativos. Minhas filhas, duas pirralhinhas na época, corriam felizes do interior do hotel calafetado para um jardim em frente, onde um relógio digital mostrava inexorável a queda da temperatura.

Na manhã seguinte, outra surpresa: nosso velho Passat completamente coberto por uma fina camada de gelo, não deu a partida de jeito algum! O coitado, movido a álcool e ainda por cima com injeção de gasolina manual (um botão no painel), não suportou a madrugada glacial e só lá pelo meio-dia, quando o sol deu as caras, pudemos sair para passear. Mas ninguém esquentou a cabeça, afinal, para uma família carioca, aquilo era pura diversão!

Frio mesmo, daquele de doer o corpo e a alma, sentimos em Montevidéu, a bela e organizada capital do Uruguai, onde tive o desprazer de conhecer o Minuano, vento polar que atravessa o sul do continente e chega até o Paraná. Cortante, quando bate no rosto parece que vai arrancar sua pele. Nem me lembro da temperatura oficial, mas a sensação térmica era uns trinta graus negativos, o horror! Voltamos correndo para o hotel para não virarmos picolés!

Em Atlanta, nos Estados Unidos, foi a mesma coisa. Vínhamos alegres depois de um ótimo voo pela extinta Varig quando, na hora de pousar, o comandante informou solene:

– Senhores passageiros, vamos aterrissar no aeroporto internacional de Atlanta. O tempo está ensolarado e firme. A Varig agradece a preferência e deseja um bom dia. Ah sim, já ia me esquecendo, a temperatura no momento é…. Menos dois graus!

A comoção foi geral, claro, afinal saímos do Rio debaixo de um solão de 40 graus! Ninguém a bordo, a não ser os norte-americanos, estava preparado para tamanho choque térmico. A sorte é que íamos para New Orleans e permanecemos no quentinho do enorme aeroporto, aguardando o traslado. Mas por via dúvidas, comprei um casaco de couro, estilo do James Dean, tão bom que me acompanhou durante anos nessas viagens enregeladas.

Portugal foi outro local improvável onde morri de frio. Não em Lisboa, claro, uma cidade ótima para caminhar, com um clima que lembra um pouco o da nossa cidade. O problema apareceu quando fomos para as cidades medievais, com seus calabouços, catedrais e mosteiros sempre à sombra, escuros e gelados. O Mosteiro de Batalha e a vila de Óbidos, lindos patrimônios da humanidade, foram os campeões e fico pensando como seus moradores suportavam tanto frio e umidade. Mas sem dúvida, valeram todos os casacos e acessórios que pudemos colocar!

Mas vamos voltar para Nova Friburgo e seu gostoso frio seco. Parece e é uma bobagem, mas um dos meus motivos de orgulho, assunto de todas as conversas com meus conterrâneos era a lareira aqui de casa! Meu maior prazer era puxar “casualmente” o assunto, sempre associando seu uso a um bom vinho, fondue e ótima companhia, não necessariamente nessa ordem.

Pois sim! Quem tem lareira aqui em Nova Friburgo sabe muito bem que a realidade não é rosa, azul ou dourada: é negra, da cor da fuligem! Para começar, uma lareira esquenta a sala e apenas ela. Os quartos, no andar de cima, ficam congelados, o que nos obriga a dormir no chão, à sua volta. Nada contra, mas o fogo geralmente apaga durante a noite e a gente acaba acordando batendo os dentes de tanto frio.

Antes de usar a lareira, temos que acendê-la, o que se para uns é moleza, para mim era um pesadelo. Não havia caixa de fósforos que aguentasse, lenha, jornais, madeira, álcool, gel, pinhas secas ou xingamentos. Uma vez acesa, começava o ritual para não deixá-la apagar. E, como bem diz o ditado “tudo que está ruim pode piorar”, ainda tem o dia seguinte, ou seja, limpar a lareira, o que significa meter a mão na fuligem, cinzas e carvão, ficar imundo, fedorento e estragar todo o clima romântico da véspera.

Depois de algumas tentativas malsucedidas e um baita entupimento da chaminé que encheu o apartamento de fumaça numa madrugada gelada de julho, tomei vergonha na cara e assumi que não sei e nem tenho cacoete para operar uma lareira. Comprei aquecedores de óleo e vivemos felizes para sempre. Ah, a tecnologia!

Hoje convivo em paz com o inverno e, como bom friburguense que me considero, adoro a estação. Os dias muito claros, o céu azul contrastando com o verde das matas, chegando a emocionar de tão bonito e a temperatura baixa, principalmente nas noites estreladas, lembram que moramos em uma cidade especial, regida por um frio gostoso e amigável, intenso o suficiente para amenizar o verão e tornar único o nosso inverno.

Olho de Deus

Foto: Carlos Emerson Junior

Já fui mais cético. Aliás, muito cético. Mas a gente envelhece, os tempos mudam, o Google (que entre outras coisas sabe a minha cor favorita, onde moro, meus telefones, gostos pessoais, medos, remédios e, quem sabe, o dia de amanhã) aparece e fica difícil não acreditar que exista uma entidade superior até mesmo ao próprio Google, criadora e responsável por toda essa humanidade, cujo propósito, a propósito, ainda não foi bem compreendido por ninguém.

Dito isto, entro no assunto da crônica e pergunto singelamente: vocês já viram o “Olho de Deus”? Pois é, eu vi, na sexta-feira à noite mesmo e bem aqui na mureta da Urca. Não, não estou falando da nebulosa Hélix, localizada na constelação de Aquário e nem de alguma Epifânia, estava simplesmente fazendo minha corrida diária, coisa simples, meros seis quilômetros em duas voltas pela orla.

Vinha desacelerando o passo, depois de um baita escorregão numa pedra portuguesa solta quando, bem à frente, bem acima do mar, duas luzes vermelhas surgiram do nada, dançando de forma descompassada. O céu, claro e estrelado, emoldurava e abrigava o “fenômeno”. Curioso e cauteloso, parei e, é claro, saquei o smartphone. As luzes se aproximaram como se quisessem falar comigo. E, acreditem ou não, meus queridos leitores, ouvi uma voz grave, forte e nítida:

– Vocês bancaram eventos caríssimos sem sequer questionar sua necessidade, esqueceram os hospitais sem remédios e médicos, a insegurança das guerras urbanas nas ruas, os assassinatos, os roubos, as balas perdidas, a falta de saneamento básico e as escolas. Vocês dividiram-se lados opostos, defendendo pseudo-líderes, meros bandidos, gente autoritária, populista, criminosos  enrolados com a justiça até o pescoço. Vocês provaram definitivamente que só ligam mesmo é para carnaval, futebol e o tal do big brother. Caramba, onde foi que eu errei?

Nesse momento ouvi um ruido forte, como se o zumbido estivesse chorando, se é que a imagem é possível. As luzes, quase no meu rosto, refugaram, o barulho aumentou como um grito e o “Olho de Deus”, imponente, caiu na calçada da Avenida João Luís Alves, bem na minha frente. Em pânico eu estava, em pânico continuei!

Ouvi as vozes ao longe. Desculpa, moço, o senhor se machucou? O drone bateu na sua cabeça? Como assim, aquilo era um drone? Era sim e jazia estatelado no chão, aparentemente sem danos materiais mas, sem dúvida, apagado. Saí do transe. O dono da geringonça me explicou que estava tentando filmar uma saída clandestina de esgoto mas parece que nem o aparelho aguentou a fedentina. Coisas do Rio, mesmo.

Luzes da cidade

Foto: Carlos Emerson Junior

As luzes da cidade enganam. Iludem. Mentem. Zombam. À noite todos os gatos são pardos e as cidades podem ser uma Paris. Para perceber uma cidade como ela é, feche os olhos. Ou, como o poeta norte-americano Wallace Stevens escreveu, “jogue fora as luzes, as definições. Diga o que você vê na escuridão“.

É isso, meus caros, as luzes da cidade enganam.

Parabéns prá você, Friburgo

O que escrever no aniversário de uma cidade que a gente gosta muito? Pois é, meu povo, Nova Friburgo está fazendo 199 anos, com algumas rugas, é verdade, mas um corpinho de 100. Anos, é claro! Lá ainda podemos sair com tranquilidade, curtir o frio seco das montanhas no inverno, morar cercado da Mata Atlântica, beber água da nascente, tomar banho de rio gelado e, principalmente, ser acolhido calorosamente pelos felizardos que moram o ano inteiro lá em cima.

Parabéns, Nova Friburgo. Parabéns, Friburguenses!

Fotos: Carlos Emerson Junior

Os exterminadores

“Eu sou John Connor,
e se você está ouvindo isto,
você faz parte da resistência”.

Os fãs dos filmes da série “O Exterminador do Futuro” conhecem muito bem a frase que abre esse artigo. É quase um bordão para John Connor, o filho de Sarah Connor, o homem que conseguiu unir o que restou da humanidade para combater a Skynet, a rede mundial de computadores e afins que tomou o nosso lugar no planeta.

Foi impossível não lembrar do filme quando li a lista do ministro Fachin, do STF, com os nomes de 8 ministros de estado, 12 governadores, 24 senadores, 37 deputados, 5 ex-presidentes e mais uma penca de gente menos ou nunca votada. Praticamente todos os partidos estão atolados até o pescoço. Os de sempre, como o PMDB, PT, PSDB, PP e PR, na companhia de PSB, PPS, PTB, SD, PCdoB e outros nanicos. Os crimes também são velhos conhecidos: formação de cartel, corrupção ativa, corrupção passiva, fraude em licitações, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica eleitoral, evasão de divisas, violação de sigilo funcional e por aí vai.

Os nomes de cada um dos indiciados e suas acusações, podem ser consultados aqui. Mas seus apelidos (sim, todos tinham um nome de guerra) hilários se a situação não fosse tão trágica, bem que mereciam um estudo sociológico. Decadência perde. Vejam alguns: Decrépito, Boca Mole, Passivo, Angorá, Santo, Menino da Floresta, Justiça. Três deles se destacam: Nervosinho (Eduardo Paes), Roxinho (Fernando Collor) e Mineirinho (Aécio Neves).

Pois é, esses “elementos” ou “excelências”, como gostam e exigem ser tratados, desmoralizaram a democracia, assaltaram sem pudor os cofres públicos e destruíram, ou melhor, exterminaram o futuro de milhões de brasileiros. Temos saída? Sinceramente, não sei. Suspirar profundamente, se trancar em casa e jogar a chave fora. Ou talvez nos inspirar com as palavras do John Connor e resistir, mostrar para esses canalhas que o buraco é mais embaixo e eles jamais vencerão.

Não se iludam, amigos, estamos diante da encruzilhada.

Assalto!

A carioca termina o plantão no centro cirúrgico de um hospital na Baixada Fluminense, no domingo, já bem noitinha. Ela mesma, recém saída de uma cirurgia, não pode guiar, mas conta com a ajuda inestimável do namorado, já a postos no estacionamento. O trajeto para casa é simples, trânsito bom, ruas vazias, todo mundo em casa vendo o Fantástico.

Todo mundo não. No meio do caminho, ou melhor, na entrada da Avenida Brasil, um automóvel toma a frente e para repentinamente, fechando o trânsito. De dentro saem quatro homens empunhando fuzis de assalto e mandam o casal entregar o carro, carteira, bolsa e celulares. Um deles toma a direção e desaparecem na escuridão, na direção da zona norte.

Os dois, atônitos, correm para uma birosca próxima. Uma patrulha da PM se aproxima, mas os policiais saem disparam a pé pela avenida para impedir um outro assalto alguns metros atrás. Uma jovem, penalizada, encosta seu carro e os leva até a delegacia de Ricardo de Albuquerque, onde conseguem registrar a queixa e avisar a família. Na atual conjuntura do Rio, todos respiram aliviados: estão inteiros, vivos.

****

Pois é, a narrativa acima infelizmente não é ficção, aconteceu com minha filha mais velha no domingo passado. Estavamos entrando em casa, por volta das dez da noite quando recebemos sua ligação, pedindo que acionássemos a seguradora. Um susto enorme, sensação de impotência e alívio foram os sentimentos mais fortes. Como assim, nossa filha virou estatística?

Já tem algum tempo que parei de me iludir e deixei de acreditar que o Rio de Janeiro tem alguma saída. Não tem, meus caros, a cidade foi perdida pelo estado. Áreas enormes, geralmente encravadas em favelas, pertencem à bandidagem e ali ninguém entra. A prefeitura finge que governa, o governo do estado finge que dá segurança, o governo federal faz cara de paisagem e a população, acuada, tenta dar um “jeitinho” para conviver diante de descalabro, abandono e violência.

Não vou analisar as causas da violência. A situação chegou a um ponto que, todo santo dia um especialista na mídia explica suas causas. Não vou culpar A, B ou C por esse estado de coisas. Qualquer carioca sabe muito bem quem são os responsáveis, por ação e omissão. Não vou criticar a pobreza, educação, a justiça, a democracia, o capitalismo, o universo ou os deuses. Pura perda de tempo, ninguém liga.

Mas um belo dia, vamos perceber que estamos pagando impostos e pedágios para os bandidos e não mais às autoridades constituídas. Corremos o risco de virar uma cidade sem lei, bairros cercados por muros blindados, controlada por milícias, isolada do resto do Brasil e do Estado do Rio, ocupada por tropas e em permanente estado de guerra.

*****

Meu muito obrigado a todos que foram solidários com minha filha e seu namorado. Vocês são uma luz nessa escuridão que tomou conta do Rio de Janeiro.

A tragédia do Brasil

Um bar carioca, algum dia em março de 2117:

“Já se passaram tantos anos que nem sei se consigo me lembrar direito dessa história. O transatlântico Brasil, um navio bonito, moderno, zarpou para mais um cruzeiro, completamente lotado. Tudo ia bem até que a noite que os organizadores da viagem ofereceram um festão, com políticos, artistas, intelectuais, cantores, celebridades e buffet liberado. A alegria era tanta que ninguém notou que, por volta da meia noite, os motores pararam.

O comandante, furioso, mandou os mecânicos resolverem o problema com urgência. No horizonte, uma tempestade se aproximava. O tempo passava e, completamente à deriva, o Brasil seguia indefeso ao sabor da maré. A borrasca, de proporções descomunais, atingiu os infelizes em cheio. A tripulação, temendo um naufrágio, baixou os botes salva-vidas para, digamos assim, salvar a própria pele.

Os passageiros, tardiamente perceberam que estavam sendo abandonados, mas, sem iniciativa e liderança, entraram em pânico e alguns até mesmo se atiraram ao mar para a morte certa. Inacreditavelmente o Brasil suportava a terrível tempestade, jogado para cima e para baixo pelas ondas como uma simples folha de papel. Um operador de rádio, um dos poucos remanescentes da tripulação ainda a bordo, tentava desesperadamente enviar pedidos de socorro. Alguns foram captados, embora quase ininteligíveis. Um deles dizia mais ou menos assim: “… Brasil à deriva, fazendo água, sem comandante e oficiais, passageiros em pânico, caos total. Socorro. Latitude…”

Para encurtar o caso, o Brasil nunca mais foi visto, outro sinal jamais foi enviado, nenhum destroço sequer foi encontrado. Todos a sua população, perdão, passageiros e tripulantes desapareceram. Mais de cem anos depois, até seu sumiço foi esquecido e nem ao menos um navio fantasma ele virou. Uma tragédia, o Brasil ainda tinha um futuro pela frente.”

PS: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança como nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.

Uma dúvida

Foto: Carlos Emerson Junior

O que aconteceu com a nova sede do Museu da Imagem e do Som, que estava sendo construída na Praia de Copacabana, aqui no Rio? A inauguração, prevista para 2014, não aconteceu e novas datas vinham sendo apresentadas até que, com a quebra do Estado do Rio, o assunto morreu. Não devia, claro, afinal, segundo o jornal Metro, o governo do estado e patrocinadores gastaram mais de 138 milhões nessa obra faraônica, mais um delírio daquele gente que governava o Brasil, o Estado do Rio e a Cidade do Rio de Janeiro, em 2010.

Bom, o consolo é que um já está na cadeia… Quem tiver alguma informação atualizada sobre o destino desse museu, é só deixar nos comentários.

De volta ao século 19

A fonte é a Agência Brasil: A Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro divulgou nesta quinta-feira (2) balanço das ocorrências no carnaval. De acordo com a assessoria de imprensa, das 8h de sábado (24) até as 8h da Quarta-Feira de Cinzas (1º), foram atendidas 15.943 solicitações por meio do telefone 190, das quais 2.154 foram para atender a ocorrências de violência contra mulher, representando 14% das chamadas no período.

No Rio de Janeiro, mulheres que faziam a distribuição do material de campanha Carnaval sem Preconceito, da Caixa de Assistência dos Advogados do Rio de Janeiro (Caarj), relataram ter sofrido assédio e agressões em blocos da capital fluminense.

Vergonha! Quer dizer que toda a luta dos anos 60, 70, 80 pelos direitos humanos, igualdade e o fim da ditadura foi em vão? O que aconteceu, minha gente, involuímos, voltamos ao século XIX? Será que esses babacas tem noção que a Lei Maria da Penha pune exemplarmente esse tipo de violência?

Decididamente o Brasil anda muito estranho…

Chuva!

Foto: Carlos Emerson Junior

Bastou subir para Nova Friburgo, para reencontrar amigos, natureza, paz e chuva. É, a chuva de verão que desapareceu do Rio já tem mais de doze dias, está por inteira aqui na Serra Fluminense, sempre à tardinha e baixando a temperatura para incríveis (para um carioca) 18º, um friozinho gostoso, bom para dormir ou até mesmo ir ao centro curtir o Carnaval (animadíssimo este ano). Pois é, o feriadão começou muito bem e a foto, feita da janela aqui de casa, mostra (ou melhor, não mostra, né?) o Pico do Caledônia encoberto pela chuva.

Visões

Foto: Carlos Emerson Junior

De repente sentiu uma coceira danada nos olhos, daquelas de desesperar. Parou na calçada, tirou os óculos e esfregou a vista como se não houvesse amanhã, mesmo sabendo que isso não se deve fazer. Ah, que se dane, coçar o olho daquele jeito era bom demais. Voltou a olhar, conferiu que a coceira se fora e quase caiu de susto no chão. O velho, ancestral, histórico Palácio do Catete, bem à sua frente, estava diferente, cheio de cores, parecendo uma pintura, uma alegoria carnavalesca. Fechou os olhos novamente, coçou de novo, sacudiu a cabeça e olhou novamente.

– Moço, o senhor está passando bem? A voz feminina, ao lado demonstrava preocupação. Olhou de novo para o hoje museu e aliviado conferiu que as cores tinham desaparecido, o dia seguia calorento e normal no Rio de Janeiro. Agradeceu a preocupação da senhora e retomou seu caminho. É isso, pensou, sua obsessão com o Carnaval estava saindo dos limites. Ainda bem que a sexta-feira já está chegando e a esbórnia só vai acabar na quarta-feira. Ou não!

Bloco das bikes

De repente, a Marechal Cantuária fica vazia. Como assim, é a única via de entrada na Urca para ônibus, carros e caminhões! Logo, uma cantoria esclarece o mistério: é um bloco de bikes, vindo sabe-se lá de onde, para festejar o carnaval e, por que não, tomar uma cerveja na mureta, perto do Forte São João. Tá bom, o trânsito parou mas, convenhamos, hoje é domingo, o dia está lindo, calor na medida certa e um pouco de alegria nesses dias sombrios que rondam nossa cidade não faz mal algum, pelo contrário.

Um bom domingo e ótima semana, meus queridos.

Fotos: Carlos Emerson Junior

O bazar

Foto: Carlos Emerson Junior

Leu o aviso no quadro-negro, parou, atravessou a rua e meio sem jeito deu uma espiada além da porta. Roupas penduradas em araras, sapatos, luvas, echarpes, cintos, mulheres para todos os lados conversando ou examinando as peças. Literalmente, um bazar de verdade, bem de frente para o mar.

Reconheceu a dona do negócio. Jovem e bonita, destacava-se das demais por uma única e simples razão, já se conheciam das caminhadas diárias. Ela sempre correndo, ele andando acelerado e invariavelmente se cumprimentando quando se cruzavam em algum ponto da rota.

“O senhor deseja alguma coisa? Um presente para sua esposa, ou filhas, quem sabe?”

A moça bonita o olhava com curiosidade. Ficou desconcertado, sorriu meio amarelo e tentou explicar que só entrara ali para ver como era o bazar, uma novidade naquele bairro onde não acontecia absolutamente quase nada.

“Vem cá, eu sou a Lara e você é o….?

“Paulo”.

“Pois é, Paulo, acho que somos vizinhos, não é mesmo?

“Sim, moro na rua de cima e, para falar a verdade, praticamente todos os dias nos cruzamos aí na orla.”

“Claro, agora lembrei de onde o conheço. Você vai treinar amanhã?

“Vou e presumo que você vai correr, não é mesmo?”

“Por que não vamos juntos? Metade do percurso a gente corre e o restante caminha até o barzinho do Forte São João. Aí a gente abre uma cerva e vamos nos conhecendo. Que tal?”

“Sete horas?”

“Sete horas, sem falta, partida aqui do bazar, ok?”

“Fechado.”

Voltou para casa se sentindo uns vinte anos mais novo. Aquele bazar realmente era mágico!

Teorias

Decididamente, o prefeito Celso Daniel não foi morto porque ia denunciar corrupções políticas. A seleção brasileira nunca vendeu a fatídica derrota de 7 a 1 para a Alemanha, na Copa de 2014. A CIA jamais ordenou a derrubada do voo 1907 para proteger um projeto científico ultrassecreto. O Opala de Juscelino Kubitscheck, envolvido numa colisão com um ônibus e um caminhão na Rodovia Presidente Dutra, provocando a morte do ex-presidente, não foi sabotado. A queda do jatinho que conduzia o ex-governador Eduardo Campos, em Santos, foi acidental. A queda do avião executivo que conduzia o ministro Teori Zavacski, em Paraty, foi acidental. E, como todo mundo sabe, Salieri não matou Mozart.

Celacanto provoca maremoto

Esta crônica foi publicada no Caderno Light do jornal A Voz da Serra, de Nova Friburgo, em 13 de julho de 2012. Partindo do caso de uma pichação que provocou uma comoção na cidade do Rio, falo sobre Arte Urbana, a eterna discussão “grafite x pichação” e como tudo isso é importante para as cidades onde ideias ainda fervilham. O texto estava completamente esquecido nos meus arquivos e nunca foi publicado aqui no blog.

A propósito, vocês sabem o que é um Celacanto?

oOo

Imagem: Carlos Emerson Junior

A Voz da Serra

Corria sem novidades o ano de 1977 quando, da noite para o dia, muros e fachadas de prédios acordaram pichados com esse aviso, de uma certa forma sinistro para quem mora à beira-mar. Maremoto, como assim? E o que é um celacanto? Se fosse hoje seria moleza, bastava dar uma googlada, mas na época só consultando a vetusta Enciclopédia Barsa e mesmo assim ainda ficaria a dúvida: celacantos realmente provocam maremotos?

A frase enigmática foi criada pelo hoje jornalista Carlos Alberto Teixeira, o CAT, uma das feras do falecido Caderno de Informática do jornal O Globo, junto com a Cora Rónai e B.Piropo. Ele tinha na época 17 anos e se inspirou em um episódio do seriado japonês “National Kid”, onde um cientista adverte um grupo de garotos para nunca se aventurarem nas profundezas do oceano, já que o celacanto, quando enfurecido, emite grandes ondas de ódio, podendo revolver o mar.

O sucesso da pichação foi tão grande que um hacker (talvez um dos primeiros do Brasil), invadiu o computador do Instituto Militar de Engenharia (IME), alterando a função raiz quadrada para a cada dez vezes, depois de efetuar o cálculo normalmente, imprimir a frase mágica: celacanto provoca maremoto. Imaginem o tamanho da onda na tradicional escola militar!

Aliás, muita gente não achou a menor graça na brincadeira, especialmente os proprietários dos imóveis pichados. Apesar do risco de pegar um processo por vandalismo e crime ambiental, ninguém nunca deixou de escalar fachadas de prédios para deixar sua assinatura nas paredes e, convenhamos, alguns edifícios chegam a dar pena, de tão riscados. O celacanto, sem dúvida, popularizou esse, digamos assim, crime.

Mas o assunto aqui não é pichação, celacantos ou maremotos—que hoje em dia viraram tsunamis—e sim Arte Urbana, com letras maiúsculas, é claro. Novamente o Google ensina que “arte urbana, urbanografia ou street art é a expressão que se refere a manifestações artísticas desenvolvidas no espaço público, distinguindo-se das manifestações de caráter institucional ou empresarial, bem como do mero vandalismo”. Sua expressão mais óbvia é o grafite, pelo baixo custo e facilidade para trabalhar sozinho.

No entanto, o uso dos espaços público e privado é muito complicado. É fácil citar a capital fluminense ou cidades europeias como Londres, Barcelona, Berlim, Buenos Aires e New Orleans, por exemplo, onde a arte nas ruas é uma atração turística. Evidente que não é do dia para a noite que a convivência será harmoniosa mas, sem tentar ou conversar, jamais iremos a lugar algum.

15112009001Há alguns anos atrás, acho que em 2009, fui surpreendido com uma instalação muito interessante ao lado da pracinha do Cônego. Alguém, ou algum grupo, simplesmente montou um banheiro ao ar livre, com um vaso sanitário, bidê, caixa de descarga e um suporte para o papel higiênico. Não tenho certeza se a intenção era um protesto, simples irreverência ou uma forma de expressão. Mas aquilo era, sem dúvida, arte urbana. E melhor ainda, audaciosa!

Outra intervenção impressionante, mas desta vez marcada pela dor e a indignação, foram as 2.000 cruzes de madeira fincadas nas areias da praia de Copacabana, em frente ao Copacabana Palace Hotel, simbolizando as vítimas das chuvas da Região Serrana em janeiro de 2011. Organizado por associações de moradores como um protesto, não deixou de cumprir sua função, impressionar e chamar atenção para a nossa tragédia.

GilsonAlguns tapumes de obras e os antigos quiosques da Alberto Braune foram premiados com versos do Gílson, poeta urbano que zanzava pelas cidades do estado do Rio, sempre escrevendo com giz. E ninguém apagava! Lembro dos Misantropos, aqui mesmo de Nova Friburgo, com suas tiradas irônicas e oportunas, destacadas em alguma parede isolada. E na capital um profeta genial nos ensinou que “gentileza gera gentileza”! Hoje, suas frases pintadas nos pilares da Avenida Perimetral estão tombadas.

A professora Sonia Jobim ensina que “cultura é o conjunto de atividades e modos de agir, costumes e instruções de um povo. Cultura é um processo em permanente evolução, diverso e rico. É o desenvolvimento de um grupo social, uma nação, uma comunidade; fruto do esforço coletivo pelo aprimoramento de valores espirituais e materiais. É um conjunto de fenômenos (língua, costumes, rituais, culinária, vestuário, religião, etc.) em permanente processo de mudança.”

Podemos pensar em uma cultura friburguense? Sem dúvida e digo mais, pela nossa formação histórica, onde se misturam povos tão distintos que vão dos suíços aos japoneses, muito rica. O que somos hoje, bem ou mal, vem daí. Lembro-me que a Nova Friburgo que conheci comemorava a data nacional de cada uma de suas colônias e era pródiga em festas temáticas, culturais, ambientais e religiosas, que atraiam visitantes de todo o Brasil.

Temos um teatro municipal, grupos e centros de artes, feiras de artesanato, biblioteca, duas bandas centenárias, jogos florais mas… Sabem do que sinto falta? Do artista de rua, o músico mostrando suas canções numa calçada qualquer, a trupe de palhaços encantando crianças em uma praça, um grupo de jovens fechando o trânsito repentinamente com um bem-humorado flash mob, um muro lindamente grafitado.

Quando ouço a garotada friburguense reclamando, com toda a razão, das pouquíssimas opções de lazer de nossa cidade, não tenho como não me lembrar de Mick Jagger cantando “mas o que um rapaz pode fazer, a não ser cantar em uma banda de rock, porque na cidade sonolenta de Londres, não há lugar para um lutador nas ruas”. Pois é, precisamos com urgência de um adolescente de 16, 17 anos, que acredite que o celacanto ainda pode provocar, vá lá, uma tsunami!

As cidades são vivas e, como os seres humanos, precisam se renovar. Os meninos do GAM e seus megafones têm feito um barulhão, mas precisam de companhia! Com boa vontade e muita criatividade, podemos imaginar uma Nova Friburgo remoçada e repaginada, um lugar onde moços e moças tenham, além de música, diversão e arte, prazer e orgulho de aqui morarem.

E aí pessoal, vamos para as ruas?

Um gambá no quintal

Foto: Carlos Emerson Junior

Demorou mas aconteceu, um gambá apareceu. Não, não é verso não, o caso é real, recente, de ontem mesmo. Saímos para as indefectíveis compras natalinas e chegamos em casa por volta das onze da noite. A cachorra Filó dormia profundamente, só acordando quando entramos na sala conversando. E foi aí que percebemos que alguma coisa estava errada.

Filó, de repente suspendeu as “comemorações” do nosso retorno, foi até a janela do escritório e começou a rosnar para o lado de fora, escuro como breu. Foi aí que senti falta de minha super lanterna recarregável, vítima fatal de um baita tombo, coitada. Partindo do princípio que cachorros não latem à toa, acendi o flash do smartphone e fui investigar lá no quintal.

Filó, com seus onze anos de idade, uma baita artrose e uma patinha amputada pela metade, passou por mim como se fosse uma bala, pelos eriçados, latindo agressivamente. Não vi nada, mas ela ia de lá para cá, cheirando sem parar o chão, os canteiros e as paredes. Parou perto do banco de cimento e começou a rodar em volta das plantas, latindo de quando em quando.

Eu estava parado ao lado, pensando no que fazer, quando senti que estava sendo observado. Olhei para cima e, dentro do vaso de uma samambaia, enrolado e tremendo, um gambá marrom parecia pedir que alguém tirasse aquela cachorra alucinada dalí. Tremia, coitado!

Imediatamente chamei minha mulher para tirar a Filó lá de fora, o que foi difícil, mas nada que um petisco não resolvesse. Voltei, peguei a câmera, fiz essa foto (coitadinho, deve ter levado um baita susto com o flash), apaguei as luzes e tranquei a porta que dá acesso à nossa casa. Filó sossegou e uns vinte minutos depois, o bichinho já tinha ido embora.

Só aí, depois de uma vistoria no quintal, supervisionados por uma inconsolável cachorra que, aparentemente, queria briga com o gambá, encerramos os trabalhos e fomos dormir o sono merecido de quem tinha vivido uma aventura rural em plena zona sul da cidade do Rio de Janeiro.

Entre mortos, feridos, magoados e aterrorizados, salvaram-se todos. Fico na torcida para que o ele não tenha dado de cara com os gatos que costumam passear de noite aqui no quintal. Gambás são animais pacíficos e ainda comem escorpiões e cobras (estes sim, espero nunca ver aqui na Urca). É feio, sem dúvida, mas merece nosso respeito. Aliás, vale a pena ler o ótimo artigo do oceanólogo Guilherme Fluckiger, ensinando tudo sobre o simpático bichinho.

Cadê o trocador?

Uma questão crucial, quase filosófica, cadê o trocador? Afinal, quem rabiscou essa pergunta em um ônibus ainda com cheiro de novo estava questionando ou vandalizando? E o objeto da dúvida, o trocador, onde essa figura mítica foi parar? Perdeu-se em alguma esquina? Foi esquecido na garagem por um motorista distraído? Ou simplesmente foi extinto por empresários avarentos ou prefeitos de má fé?

A verdade é simples e detestável, como quase tudo o que envolve o transporte público carioca (e fluminense): ganância.

Embarquei em um dos remendados coletivos que a Fetranspor mantém nas ruas do Rio. Ao contrário das cidades mais evoluídas, ao invés de um veículo com o piso baixo, motor traseiro, câmbio automático, suspensão pneumática, ar condicionado e, é claro, o trocador, tive que me contentar com um caminhão com uma carroceria de ônibus, barulhento, velho e sujo, mas com uma novidade, duas roletas logo após a porta de entrada, uma ao lado da outra. Isso mesmo, duas roletas e um curralzinho.

O motorista me ensinou: quem tem cartão usa a da esquerda, idosos e pagantes a da direita. E a passagem, tolamente perguntei? “Ah, agora quem recebe a passagem sou eu e, por favor, vamos facilitar o troco”. Mas, enquanto eu ouvia essa aula, a fila atrás de mim crescia, algumas pessoas tentavam passar por uma das roletas, sem sucesso, provocando mais confusão e atrasando a viagem.

Essa discussão é antiga e nada transparente. As empresas alegam que o custo da tarifa não cobre mais do que um profissional nos ônibus. As prefeituras, principalmente aqui no esculhambado e falido Estado do Rio de Janeiro, atendem os pleitos da Fetranspor sem o menor pudor. De vez em quando exigem ar condicionado, veículos modernos e quetais, mas é só para inglês ver, principalmente perto das eleições municipais.

É claro que é possível mudar a forma de cobrança nos coletivos e aqui dá para ler um artigo interessante sobre a experiência alemã. Nossa desgraça é que está tudo errado com os serviços prestados pelos ônibus, absurdamente tratados pelas “autoridades competentes” como “transporte de massa”. Sem capacidade, conforto, segurança e, é claro, o trocador.

Mate com limão. Ou sem?

Chegou com a mulher no balcão do bar, cumprimentou o atendente e fez o pedido:

— Por favor, um mate natural para mim e um diet para ela.

— Ah moço, por favor, bom dia, o meu diet é sem limão!

— Bom dia, dona. Então é um mate natural para o senhor e um mate diet para a senhora, confere? Vocês querem gelo e limão?

— Quero sim, mas o dela…

— Moço, eu quero gelo, mas sem limão.

— Perfeito.

Alguns minutos mais tarde:

— Não, moço, o senhor me trouxe um mate diet sabor limão. Eu não gosto de limão. Quero diet sem limão.

— Ah, a senhora me desculpe. É que não tem o diet natural, mas posso trazer o diet com pêssego…

— Não, moço, nada disso. Traz um mate natural mesmo, igual ao dele.

— Saindo!

Mais alguns minutos depois:

— Prontinho, taí seu mate natural, bem geladinho!

— Ihhhhh! O copo tem gelo e limão!!!!!

— Pera aí, meu amigo. Ela não quer o limão, só o gelo.

— Mas ela falou que queria um mate igual ao seu!

— Eu quero um mate natural, como o dele, com gelo no copo mas sem o limão! Eu detesto limão. Eu fico enjoada com limão.

— Não tem problema. Olha, eu vou tirar o limão do copo com essa colher e…

— Nem pensar! O senhor vai me trocar o copo, o gelo e o mate. Se eu tomar alguma coisa parecida com gosto de limão, vomito aqui mesmo!

— Meu caro, por favor, traz um outro mate, outro copo e outro gelo. Sem limão! Será que desta vez a gente acerta?

— Já estou providenciando!

Muitos minutos mais tarde…

— Aqui está, senhora. Um copo lavado, gelo e… nenhum limão. Posso servir o mate ?

— Eca!!! O mate é natural sabor limão! Está difícil, né moço? Faz o seguinte, esquece o mate e me traz uma água mineral, sem gás.

— Perfeitamente, madame. A senhora vai querer a sua água mineral com gelo e limão?