Cerejeiras de Nova Friburgo

Foto: Carlos Emerson Jr.

Nem sequer três dias
este mundo vê passar –
Cerejeira em flor!
(Ôshima Ryôta—1716/1787)

Vocês já repararam como nossa cidade está bonita? Pois é, as cerejeiras floriram floraram e durante duas semanas, devidamente acompanhadas por um sol digno de serra, enfeitam ruas, parques, jardins, campos, sítios e fazendas de Nova Friburgo. Os “culpados” são os japoneses, é claro, que em 1927, quando saíram do Japão para morar nas terras altas do Estado do Rio, trouxeram uma de suas tradições mais bonitas e delicadas, o Hanami, contemplação da beleza das flores, “sakura” ou cerejeira. Pena que sua floração só dure duas semanas.

As fotos foram feitas nas Braunes, bairro onde moro, acolhedor o suficiente para abrigar tantas árvores tão belas. A propósito e como era de se esperar, anualmente acontece a Festa da Cerejeira de Nova Friburgo, na zona rural, num local lindo apropriadamente batizado de Florlandia da Serra. Organizada pela colônia japonesa, a festa é um espetáculo de simpatia, gastronomia, tradições orientais e um túnel de cerejeiras de tirar o fôlego.

ありがとう、日本の隣人
Arigatō, Nihon no rinjin

Foto: Carlos Emerson Jr.
Foto: Carlos Emerson Jr.
Foto: Carlos Emerson Jr.
Foto: Carlos Emerson Jr.

Fala mais alto!

Você está ouvindo pouco? Seu sono é agitado? Anda irritado com as pessoas, o cachorro e a patroa? Não quer saber de sexo? As palavras que você mais usa são “fala mais alto”, “heim?” e “não entendi nada, repete”? Está se sentido deprimido, cansado, com dores de cabeça, zumbido nos ouvidos. sem apetite? Nem tudo está perdido, meu amigo, acho que tenho uma boa notícia para você.

Seu problema é provocado pela poluição sonora urbana, aqueles barulhos cotidianos irritantes como serra elétrica em obras, aceleradas de motocicletas, automóveis com descarga aberta e som mais potente que baile funk nas comunidades, carga e descarga de caçambas de entulhos a qualquer hora do dia (e da noite), montagem de feiras livres de madrugada, torcidas organizadas, aos berros, assistindo jogos de futebol nos bares com tv (todos, né?), pessoas conversando aos berros no celular, som alto na casa do vizinho e, para quem morou na Urca, aproximação de aviões para aterrissar no porta-aviões Santos Dumont, digo, aeroporto dos anos 30, voando baixo, com as turbinas rugindo com força para tudo o que é lado e você rezando para o bicho não cair dentro de sua sala.

Ninguém merece, não é mesmo? Infelizmente, tenho também uma má notícia: a cura dessa doença social é complicada, talvez impossível, principalmente se você mora numa cidade entregue às baratas com quase dez milhões de vizinhos. Mas tem remédio, claro. Primeiro, saiba escolher bem o seu prefeito. Eu sei, é difícil, tem uma turma de incompetentes ou coisa pior agarrada ao poder de pai para filho desde que Cabral (o português) chegou a essas terras. Cobrar, reclamar, chamar a polícia, acionar o Bope e dar queixa ao Papa ajuda muito. O problema é que… Bom, como todo mundo no Rio acredita piamente que tem todos os direitos e nenhum dever, uns dois dias depois a zona volta a se restabelecer.

Um belo dia juntei as poluições sonora e ambiental com a óbvia insegurança, decadência econômica, favelização descontrolada, falência da administração pública e resolvi ir embora da cidade onde nasci, cresci e morei exatos 68 anos. Estava me sentindo infeliz, surdo, estressado, sem perspectiva alguma, com medo de levar um tiro e, para piorar, numa cidade muito cara. Juntei meu povo e fomos embora para a serra, continuar nossa jornada numa cidade com menos de 2% da população do Rio, ainda segura, ainda calma, ainda ordenada, onde você conhece seus vizinhos, não tem medo da polícia, de ser “premiado” com uma bala perdida e pode dormir à noite toda, tranquilo como um bebê.

Enfim, esse texto todo é para defender que o melhor remédio contra a poluição sonora urbana (e outras mazelas) é morar no interior. Sério! Não dá nem para explicar, só o fato de perceber que você não tem dez milhões de vizinhos já é um alívio enorme. Não seja preconceituoso, meu caro leitor, experimente. Vai que você gosta?

O soldado de Berlim

Autor desconhecido

Berlim, 1932. O exército alemão começa a se reorganizar e reequipar. As tropas voltam aos treinamentos, enquanto políticos decidem o futuro do país. Mal sabem que no ano seguinte, a ascensão de um cabo austríaco ao poder vai se transformar em uma tragédia. Enquanto isso, em alguma rua da capital, um fotógrafo anônimo flagra um soldado em seu descanso consultando suas mensagens no seu celular….

Pera aí, em 1932 não existiam smartphones! Sequer celulares. Os telefones eram de magneto e poucos tinham acesso aos seus serviços. Tem alguma coisa fora de lugar nessa foto e eu é que não sou! Seria o soldado um viajante do tempo? Alguém que saiu do século 21 para assistir ou até mesmo tentar impedir a ascensão do nazismo? Se foi isso, não deu certo…

Por outro lado, quem garante que o militar não era um alienígena recebendo instruções de sua nave espacial, devidamente camuflada para não espalhar o pânico? Hum, sei não, o sujeito tem cara de alemão de cinema mudo mesmo! Talvez o celular fosse apenas apenas um espelho e o jovem estava dando uma de Narciso. Também não parece possível, com certeza o resto da tropa estaria em volta às gargalhadas.

A foto provocou discussões, mas a explicação mais viável é que alguém passou por um set de filmagem, percebeu o ator fardado com o smartphone nas mãos, fez um pequeno retoque para dar um ar de anos trinta no ambiente e pronto, nasceu uma foto no mínimo curiosa, que serviu até de inspiração para o post de hoje. De qualquer maneira, se você tiver uma explicação melhor, pode mandar para o blog. Teorias & Conspirações são comigo mesmo!

Ressacas

Acervo O Globo

Pois é… Recebo notícias da ressaca que bateu nas praias do Rio de Janeiro, vejo algumas fotos nos jornais cariocas e fico com pena de não ter descido nenhuma vez para curtir o fenômeno, comum nos meses de inverno. Mas não tem importância, eu vi, acreditem ou não, a grande ressaca de 1963, que invadiu a pista (ainda única) da Avenida Atlântica, tomou conta das ruas transversais e chegou na Avenida Copacabana. Aliás, diz a lenda que a Confeitaria Colombo, na esquina da Rua Barão de Ipanema com a Avenida Copacabana, ficou cheia de água do mar! Não vi, mas não duvido nada.

O extinto jornal carioca “Correio da Manhã”, na época assim registrou:

“Sábado, cêrca de 20 horas, o mar começou a agigantar-se de maneira impressionante. A ação da lua cheia avolumando a maré, coincidindo com os ventos fortes nesta época do ano, provocou o fenômeno. Pela madrugada de domingo, a fúria das ondas se intensificou e as águas invadiam os porões e garagens dos edifícios, destruindo tapêtes, quebrando vidraças e alagando tudo. Do Leme até o Pôsto 3, a ressaca teve maior gravidade e as ondas chegavam a atravessar a Avenida Atlântica indo estourar na porta dos edifícios. Em conseqüência, ocorreram vários acidentes de automóveis, pois muitas ruas transversais à orla da Praia de Copacabana também foram invadidas pelas águas. O ruído do mar chegou a causar pânico naqueles que acreditam na proximidade do fim do mundo.”

Pena que nos anos 60 crianças não tinham máquinas fotográficas mas, com a ajuda do acervo do O Globo, aí vão algumas boas imagens. E é isso, meus caros amigos. Ressacas, marítimas ou etílicas, sempre acontecem e é bom lembrar que prevenir os seus efeitos colaterais é responsabilidade exclusivamente nossa.

A imersão do Zé

Telefonou para o amigo, lá no Rio:

— Oi, Lisete, o Zé pode atender?

— Seu Carlos, o Dr. Zé está em São Paulo, fazendo imersão.

— Fazendo o quê, Lisete?

— Ele está em São Paulo fazendo imersão.

— Como assim, imersão? Um curso de mergulho submarino?

— Não sei não senhor, seu Carlos.

— Ele só pode ter se metido com um curso de mergulho submarino. Mas logo em São Paulo, aqui pertinho, em Macaé, está cheio de boas escolas… sei não Lisete, a mulher dele foi junto?

— Foi, seu Carlos, os dois viajaram ontem e voltam no domingo.

— Mas que raio de curso de mergulho é esse que só dura dois dias?

— Ah, sei não. O senhor quer deixar algum recado?

— Não, pode deixar, na segunda ligo de novo. Obrigado, Lisete!

— Tchau.

Coçou a cabeça foi comentar essa história esquisita com a mulher.

— Mas você está velho mesmo, meu Deus! Imersão é o nome que dão a um tipo de curso onde você fica isolado um fim de semana todo só pensando naquilo, quer dizer, no tema do curso, é claro!

— Pô, isso é uma imersão? No meu tempo chamava-se intensivão ou coisa que o valha. O que essa gente do marketing não inventa! Imersão! Cada vez mais tenho a certeza de que morro e ainda não vi tudo! Mas vem cá, fazer uma imersão de um curso de mergulho submarino na idade dele… não é uma ideia meio maluca?

— E quem falou em mergulho submarino, você bebeu? O curso é de alergia alimentar, vê lá se o Zé vai mergulhar. Acorda!!!

Achou melhor pegar o jornal e ler a seção política para relaxar. Em meia hora esgotara todo o estoque de asneiras do mês!

(2010)

Humanos

Desenho: Eduardo Cambuí Junior

José Saramago, o grande escritor português, uma vez afirmou que “nossa maior tragédia é não saber o que fazer com a vida”. Que ela não é fácil isso não se discute, mas a maneira como a vivemos, as expectativas que criamos, decepções com sonhos não realizados, amores não correspondidos e a inexorável jornada para a morte são mais do que suficientes para gerar frustrações e ressentimentos.

Durante nossa breve existência temos que conviver com a disputa pelo poder, o consumismo desenfreado, preconceitos, ódio e o mais importante, nossa própria ignorância! É claro que somos recompensados com amores, amizades, esperança e curiosidade, mas a grande dificuldade sempre foi e será o que fazer com a vida que recebemos. Somos racionais, mas movidos por emoções. E, é claro, humanos, simplesmente humanos.

Arte

Esqueceram de mim!

Imaginem a cena. Já é noite, o trabalho no escritório em outra cidade, do outro lado do país foi exaustivo, tudo o que a mulher deseja é chegar logo no aeroporto, embarcar, voltar para casa, tomar um banho bem quente, cair na cama e dormir até o dia seguinte, de uma enfiada só. Muito justo, aliás. Assim que o avião decolou, reclinou a poltrona (licença poética, hoje em dia isso não existe), se encostou na janela e apagou profundamente, um sono sem sonhos e nenhuma turbulência.

Despertou bruscamente com muito frio, sem entender direito onde estava. A escuridão era completa, assustadora mesmo. O silêncio, absoluto. Para piorar, descobriu que ainda estava presa com o cinto de segurança na poltrona. Caramba, será que o avião caiu? Morri e ninguém me avisou? Gente, cadê meu celular? Me esqueceram no avião!

O celular estava no chão, quase sem bateria. Ligou para uma amiga mas, quando ia pedir socorro, o infeliz desligou. Suspirou profundamente, soltou meia dúzia de palavrões, levantou e foi até uma das portas. Gritou, implorou, esmurrou, chutou, tudo em vão. Não sabia sequer que horas eram. Alguma coisa fez um barulho do lado de fora. Pela janela viu um vulto passando por baixo da aeronave empurrando uma espécie de carrinho. Meteu a mão em uma alavanca da porta e… Milagre, a infeliz abriu.

O funcionário, assustado, avisou a administração que tinham deixado uma passageira trancada dentro de uma aeronave. Providenciaram uma escada, a empresa aérea mandou uma manta para proteger do frio, um automóvel e reserva em um hotel no centro da cidade. Nossa “heroína” não quis nem saber: embarcou no carro e mandou seguir para sua casa. Já havia vivido emoções demais para um dia.

Pois é, meus caros, quando a gente pensa que a ficção é muito mais criativa do que a vida real, me aparece uma aérea de primeiro mundo, em pleno aeroporto de Toronto, para provar o contrário. Minha solidariedade à passageira, tomara que ela não fique com medo de voar ou de aeroportos. E pensar que eu sempre achei que algum dia ia ficar trancado dentro um shopping center carioca qualquer, um vexame. Vê lá se isso é motivo para pânico!

A notícia desse “esquecimento” pode ser lida aqui.

O caso dos termômetros

Foto: Rogério Dias

Algumas coisas são difíceis de explicar, ou melhor, de entender mesmo. Os termômetros de Nova Friburgo, são um bom exemplo, um caso misterioso, digno de um estudo das equipes do CSI ou do FBI. Tá bom, estou exagerando, o pessoal da Abin mesmo também pode chegar a alguma conclusão, se eles estiverem com tempo, verba e disposição para investigar esse fenômeno.

Pois muito bem, vamos aos fatos. Nossa cidade dispõe de uma estação meteorológica automática do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, apropriadamente instalada no distrito de Salinas, nas instalações do IBELGA, o renomado Instituto Bélgica Nova Friburgo. A leitura dos dados da estação é disponibilizada na internet, atualizada hora a hora, durante as 24 horas do dia. E só ir lá e consultar.

Já na cidade, instalaram alguns relógios digitais, desses que dão a hora, a data, a temperatura e tem um baita anúncio na parte de cima, mas quebram um galhão quando você precisa saber que horas são e o celular prende no bolso traseiro da calça. Enfim, eles tem em comum com a estação automática o funcionamento 24 horas mas de onde vem a medição da temperatura eu não faço a menor ideia.

Na última sexta-feira, dia 7 de junho, o relógio termômetro da centro da cidade, o mais visível, foi fotografado (aí em cima) pelo radialista Rogério Dias, da Friburgo AM, às 5:30 da manhã, marcando “agradáveis” 4º, um frio danado que todos sentiam, é claro. Por volta das sete horas, outra foto foi publicada, desta vez indicando 3º. Pois é, não dá para negar, o inverno chegou e arrebentando corações, mentes e agasalhos de friburguenses, turistas e pior, cariocas que resolveram morar na serra, como esse cronista que vos fala.

Acordei por volta das sete e trinta morrendo de frio. Enrolado em uma manta de lã, levantei e fui preparar um café bem quente para me despertar e, porque não, aquecer minhas geladas entranhas. Fui até a janela e fiquei surpreso, na minha cabeça, havia nevado a noite inteira do lado de fora! Liguei o computador e acessei o site do INMET: a mínima registrada na estação de Salinas, às 6 horas, foi 6.5º.

E agora, quem está com a razão? Na varanda do meu quarto, no segundo andar, tem um pequeno termômetro de mercúrio, bonitinho, estilo alemão que, infelizmente não serviu para nada, já que o sol saiu, inflacionando a temperatura. Aí vocês dirão, com toda a razão aliás, que isso é frescura, preciosismo que não leva a nada, já que 3, 4 ou 6 graus é frio pra caramba. Sem dúvida, é frescura e muito frio! Mas e o psicológico, onde fica? Frio também tem sensação térmica e, com certeza, quanto mais baixa a medição, mais perto do zero grau a sensação.

Meus caros, em 1999, quando vim morar aqui no Sans Souci, a temperatura chegava no zero, a água parava de jorrar nas torneiras e havia quem jurasse que de madrugada formou geada. Quantas vezes acordamos, vimos o tamanho do prejuízo térmico, pegamos o carro e voltamos para o Rio, de pijama, touca e xale no pescoço em busca do calor perdido.

Os tempos mudaram, Friburgo ainda é fria mas não congela mais ninguém e hoje em dia não temos mais onde nos abrigar no litoral, nossa casa é aqui na serra, até sempre. Aprender a viver no inverno é de lei e vamos levando o frio com aquecedores, lareira, moletons, edredons, meias de lã e qualquer coisa que esquente, incluindo aí uma boa sopa, um chá e até mesmo, em caso de desespero, a boa e velha cachaça.

Se suíços e alemães aguentaram, não seremos nós, cariocas, que vamos dar vexame numa hora dessas. ¡Que venga el invierno!

Íris

Foto: Carlos Emerson Junior

Seria essa flor uma Íris legítima? Segundo o Google sim mas, como ele adora pregar uma peça nos incautos, relaciona logo a seguir diversas espécies parecidas com nomes distintos, como “Íris-da Sibéria” (bem apropriada com o frio que tem feito à noite aqui na serra), “Íris-Amarelo”, “Iris Tectorum”, “Íris Versicolor” (linda, puxando para os tons de vinho, branco e amarelo), “Iris Reticulata”, “Íris Pálida” (bem óbvio, azul clarinho, bem desbotado), “Íris Sanguínea” (azul forte, vibrante, mas não perguntem por que esse nome numa uma flor azul.), “Íris Aquática”, “Íris Variegata”, “Íris Negra” (roxa, bem escura, quase negra mesmo. Uma maravilha), “Íris Láctea” e a curiosa e completamente diferente das outras “Íris Confusa”, pequena, quase uma florzinha de mato.

A lista é longa, possivelmente trabalho para todo um dia. Gosto muito de flores e morar numa cidade produtora de flores (a segunda do Brasil), onde em qualquer terreno baldio ou mata virgem você dá cara com todas elas, nas quatro estações do ano, é um presente para fotógrafos, amantes da natureza e amigos das flores, esse milagre da natureza que, entre todas as suas utilidades nos remete ao nosso melhor sentimento, o amor.

O banquete dos mendigos

Foto: Fabio Rodrigues (G1)

Bobó de camarão, camarão à baiana, frigideira de si, moquecas capixaba e baiana e medalhões de lagosta. Aliás, as lagostas devem ser servidas com molho de manteiga queimada.As bebidas não ficam atrás: uisque com 10,15 ou 30 anos, espumantes, vinhos Tannat ou Assemblage, safra 2010 e que tenha vencido pelo menos 4 (quatro) premiações internacionais. Além do mais, deve ter sido envelhecido em barril de carvalho francês, americano ou ambos, de primeiro uso, por período mínimo de 12 (doze) meses. O valor da licitação é de R$ 1,13 milhões. (Estadão)

Pois é errei o título do post, esse banquete não é sequer para os brasileiros.

O Imperador da Paz

O imperador da paz
Foto: Ytsuo Ynouye

O 125º Imperador do Japão, Akihito, quinto filho do imperador Hiroito (aquele mesmo da segunda guerra mundial), nasceu em 1933 e assumiu trono em 1989, onde reinou até hoje, dia 30 de abril, quando abdicou em favor do seu filho Naruhito, depois de 30 anos, por motivos de saúde (um câncer e coração). É o primeiro imperador a abrir mão do trono em 200 anos.

Confesso que cresci vendo a figura icônica do seu pai, o primeiro imperador japonês que foi ao rádio avisar ao seu povo que o Japão não podia mais continuar a guerra. Com o tempo, a história foi sendo escrita, revista e descobri que o filho Akihito era seu oposto, tendo visitado mais de 37 países, a maioria deles para pedir perdão pelos sofrimentos da guerra. Apoiou materialmente e pessoalmente as vítimas dos terremotos e da usina de Fukushima, tragédias que devastaram o Japão nos anos recentes. Em suma, era um imperador da paz.

Aliás, uma de suas últimas frases, que vai ficar marcada na minha memória, foi quando ele afirmou que sua “maior alegria era saber que durante seu reinado nenhum soldado japonês morreu numa guerra ou conflito armado”. Até onde eu sei, só o Papa pode afirmar algo semelhante.

Vai com Deus, Imperador Akihito. E oremos para que Naruhito não se meta em aventuras militares de terceiros, o mundo precisa muito de paz.

E o futuro, gente?

Pintura: Diego Rivera (1932)

Caramba, o que está acontecendo com o Brasil? Ou melhor, com os brasileiros? Quanta energia jogada fora! No domingo o pau comeu entre a turma que acha que o 31 de março de 1964 foi um golpe e os que acreditam em uma revolução redentora. Na segunda começou o mimimi sobre o nazismo: é de esquerda ou direita? Gente, vamos baixar o facho. Estamos olhando para trás, para fatos ocorridos no Século 20, há exatos 55 e 86 anos! Vocês não tem um prato para lavar ou uma calça para passar em casa? Jornalistas, analistas, sociólogos, políticos, filósofos, professores, militares, todo mundo olhando para o passado. Acabou, gente, o tempo passou na janela e os brasileiros do Século 21 não viram (e tem raiva de quem viu). Lembrem-se que viagens no tempo ainda são fisicamente impossíveis e nosso caminho, aliás, o de toda a humanidade, é para a frente, buscando um futuro melhor. É válido e obrigatório conhecer nossa história, admitir os erros e lutar por tempos melhores. Mas do jeito que estamos, daqui a pouco vamos nos odiar por causa, sei lá, da Guerra do Paraguai, que este ano completa 155 anos. Bom senso, meus amigos e calma, muita calma nessa hora. Ainda dá tempo de pensar no futuro do Brasil.

Morro de vergonha

Arte: Brian Stauffer

Morri de vergonha quando vi a prisão do quinto ex-governador do Estado do Rio, todos por corrupção. Cinco! Deve ser um recorde mundial, digno (na verdade, indigno) de constar no Guiness. Mas eles não estão sozinhos. Dois ex-presidentes, uma penca de deputados da Alerj, prefeitos, ministros, secretários, assessores, vereadores, empresários, caramba, a lista não tem fim! Senti vergonha, sim. De ser brasileiro e carioca. Não levamos eleições a sério, nem hoje, nem nunca. Eleição é tratada como um jogo de futebol, uma obrigação chata que, para quem mora no Rio, acaba atrapalhando a praia.

Votamos mal porque um parente pediu, um vizinho recomendou, um amigo avalizou. Votamos mal porque o candidato nos dá telhas para o telhado de casa, promete uma assessoria para nossos filhos, contratos milionários e certos para nossas empresas nas licitações das prefeituras. Votamos mal porque, talvez, sejamos tão corruptos quanto os canalhas que acabaram com a economia do nosso Estado do Rio, com a Segurança Pública, com a Educação e a Saúde. Vocês já perceberam como nossas cidades estão quase todas na miséria?

Pois é… Cinco governadores! Morro de vergonha.

Somos bárbaros

Candido Portinari (A Criança Morta)

Mas que humanidade é essa? Será que estamos precisando de uma reedição da segunda guerra mundial para aplacar as bestas que tomaram conta de nossas mentes e almas? Reconstruir os campos de concentração para exterminar todos os que pensam diferente de nós? Trazer de volta a doença, a fome, a sede, a miséria e morte? É esse o empoderamento que tanto falam?

Não me conformo com o massacre da escola de Suzano, os oito mortos, os dez feridos, as centenas de crianças que vão carregar para sempre um trauma horrível, conhecer a morte tão cedo, na sua frente, cega e implacável. Um dos dois atiradores tinha apenas 16 anos, tão jovem quanto suas vítimas. Qual o sentido de tudo isso?

Não me venham com papo de liberação de armas, apologia à violência. Isso tudo existe há muito tempo, quando descobrimos que matar o próximo era possível, desde que em nome do Rei, do Estado, da Lei, da Ordem, da Moral, da Religião, do Partido, da Inveja, do Preconceito, da Ignorância,de tudo! Atentados à escolas ocorrem no mundo inteiro, inclusive aqui no Brasil. Tomamos alguma atitude? Que nada, ainda estamos discutindo abobrinhas, em gênero, número e grau.

Enquanto isso, crianças morrem. Até quando, Meu Deus, vamos aceitar passivamente tamanha barbaridade? Quando trouxerem de volta a segunda guerra mundial, por favor, não se esqueçam das bombas atômicas. Talvez elas deem um jeito em nossa desumanidade.

Ano: 2050

Foto: Nattanam726/Shutterstock

Em 2050 a população do planeta chegará ao espantoso número de 9.6 bilhões de pessoas. A expectativa de vida média será de 76 anos. A Índia será o país mais populoso do mundo, enquanto a Europa registrará um decréscimo demográfico de 14%.

Em 2050, 7.2 bilhões de pessoas (75%) viverão em cidades, com as preocupações de sempre: saúde, transporte, educação, segurança e gerenciamento de emergências. Cidades pequenas e médias serão engolidas por cidades cada vez maiores, as megacidades. Dois terços dessas grandes cidades estarão localizadas em países subdesenvolvidos.

Em 2050, 3 bilhões de pessoas viverão em situação de pobreza, morando em locais sem água potável, saneamento, eletricidade, saúde e educação. Cidades imensas degradadas, possivelmente sem governo de fato. Convivendo com epidemias, violência e miséria. E, como atualmente, migrando de um lugar para outro em busca de esperança de vida.

Em 2050, mais de 65 milhões de idosos representarão quase 29% da população brasileira. Como a taxa de fecundidade vem caindo desde 1970, o índice de filhos por mulher chegará a 1,50 e, já em 2030, o Brasil irremediavelmente será um país velho.

Em 2050 terei 100 anos de idade, possivelmente não estarei por aqui, mas não é por isso que vou virar para o lado e fazer de conta que o futuro não é comigo. É bom lembrar que o quadro acima não leva em conta nenhuma anormalidade, como um desastre climático, uma guerra nuclear, uma pandemia letal ou um apocalipse espacial.

Todos os números citados, com exceção do meu centenário, são divulgados exaustivamente pela ONU, Unesco, IBGE e derivados (no presente, por óbvio). Não se trata de futurologia, é claro. É um assunto sério, envolvendo nossos descendentes e, principalmente, o futuro do planeta.

Lembrem-se, só faltam 31 anos para 2050…

Pequenas distrações

Gil Elvgren (Belle Ringer 1941)

Atire a primeira pedra: quem nunca foi para o trabalho com o controle remoto da TV ou o telefone sem fio na bolsa? Ou colocou o leite no copo e jogou a caixa de leite, cheiinha, na lata de lixo? Se arrumou toda para um evento social e se mandou com as sandálias havaianas?

Pôs a água para ferver, esqueceu da vida e a água evaporou. Repetiu a operação e esqueceu novamente! Saiu de casa correndo, debaixo da maior chuva e não conseguiu abrir a porta do carro. Viu que pegou a chave do marido, voltou para casa e retornou com a chave do carro do filho. E tome chuva!

Foi fazer o exercício diário na praia com a camiseta do lado do avesso. Preparou um café na Bialetti sem água no recipiente próprio. E pior, no supermercado, ao invés do açúcar, comprou sabão em pó. Saiu de carro e voltou de ônibus. Duas vezes. Revirou a casa inteira atrás do celular, que só foi localizado na manhã seguinte, dentro da geladeira.

Entrou na fila do banco: quando chegou no caixa descobriu que não tinha levado o dinheiro que ia depositar. Resolveu tomar uma chuveirada e esqueceu de tirar os óculos. Trinta anos de casados depois, pergunta para o marido qual o dia do seu aniversário. Deixa a carteira com dinheiro e documentos no médico. No dentista. No oculista. No restaurante. No açougue. Na padaria.

Salta do ônibus no ponto errado. E piora, porque aí descobre que embarcou no ônibus errado. Reclama do troco quando pagou com o cartão de débito. Ou o de crédito. Deixa o filho esperando no colégio. Deixa a filha esperando na academia. Deixa o marido de castigo na porta do shopping. Sai de casa com a câmera fotográfica compacta ao invés do celular.

Bateu a porta de casa, deixando as chaves do lado de dentro. Bateu a porta do carro, deixando as chaves do lado de dentro. Bateu a porta do trabalho, deixando as chaves do lado de dentro. Tocou a campainha de casa, com as chaves nas mãos. Tentou abrir a porta da casa do vizinho com suas chaves. Duas ou três vezes.

Coloca uma meia de cada cor, atravessa a rua sem olhar o semáforo, para na banca de jornal para folhear uma revista, gosta de um artigo e leva sem pagar. Usa os óculos do marido e entra em pânico porque não está enxergando nada. Está sempre em dúvida se já tomou a medicação diária para a memória.

É como diz uma amiga, não está fácil para ninguém.

Carlos Emerson Jr. (Junho/2015)

Fuzil

Foto: Robert Capa

Aí você prepara a pipoca no micro-ondas, liga a TV, senta na velha e aconchegante poltrona, aproveita que a patroa não está em casa e coloca os pés na mesinha de centro de estimação e quase tem um “treco” quando a apresentadora do programa de entrevistas afirma para o governador recém-eleito que um homem com um fuzil nas mãos, em plena via pública, não pode ser considerado uma ameaça, um risco à segurança de terceiros.

Mas piora. Para tentar justificar a sandice, a emissora chama uma “cientista política” que candidamente explica que “as políticas de seguranças estimulam a compra de mais fuzis pela bandidagem, para combater os fuzis das forças de segurança.” (Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=1ZK58NlOPXM). Decididamente essa gente não tem a menor noção do que é um fuzil, além de “desconhecer” a Lei 13.497/2017, que qualifica a posse desse tipo de armamento como crime hediondo.

Quando estava no Exército o uso de um fuzil era cercado de muito treinamento, conhecimento profundo de toda a sua estrutura (desmontar, limpar e remontar) e responsabilidade pela arma e cada cartucho de munição usado. Após seu uso eram todos recolhidos a um paiol, devidamente trancado e guardado. Fuzis são armas de guerra, feitos para matar o inimigo. Seu emprego é controlado, sua operação restrita e, principalmente, seu porte jamais deve ser visto como atividade “sem riscos”, até mesmo (e principalmente) por militares. Por favor, não repitam qualquer bobagem que ouvirem por aí, principalmente se vocês forem da grande mídia.

Pega muito mal.

oOo

A foto que ilustra o post é de autoria do renomado fotógrafo húngaro Robert Capa (Endre Ernő Friedmann). Foi tirada em Córdoba, em setembro de 1936, em plena Guerra Civil Espanhola.

Dois de setembro

Em uma noite o Brasil, o Rio de Janeiro e todos nós perdemos um pouco de nossa História, Cultura e Ciência. Em uma noite perdi parte de minha infância, da minha educação, de minha brasilidade. O incêndio que destruiu o Museu Nacional acabou sendo o legado, um infeliz símbolo das verbas públicas e privadas desviadas para fins escusos por políticos e empresas dos mais diversos matizes. Um símbolo da vaidade que norteou as fortunas aplicadas na Copa do Mundo de 2014, nos Jogos Olímpicos de 2016 e nas inevitáveis obras de embelezamento do Rio. O incêndio levou o Palácio Imperial do Brasil, onde foi assinada a nossa independência, em 1822. Independência para quê, incendiar a História? Os bombeiros não tinham água para apagar o fogo. O prefeito do Rio, como era de se esperar, não deu as caras. O governador, acuado no Palácio Laranjeiras, idem. Nenhuma autoridade, aliás. Pessoas choravam, assistindo uma parte da cidade e do país ardendo nas chamas.

Temo que o incêndio, indiferente e impiedoso, tenha levado de vez o nosso futuro.

Foto: TV Globo

Ilusões perdidas

Mais uma eleição, mais esperanças de dias melhores e, com certeza, mais decepções, quadro que vem se repetindo desde que, criança ainda, vivi a campanha de Jânio Quadros, aquele mesmo que renunciou sete meses após a posse, pressionado por “forças ocultas”. Aliás, bem que meu pai brincava que essas tais forças ocultas deixavam uma ressaca das bravas…

Daí para frente, ou melhor, de 1960 em diante, não demos uma dentro. Jango Goulart,seu vice que assumiu em seguida, fez um governo panfletário, tentou ser reformista, coisa que ele nunca foi e deu no que deu, um longo período de governos militares de triste memória. No período de 1964 até 1985, 21 anos portanto, tivemos cinco presidentes eleitos indiretamente pelo Congresso e, de brinde, uma Junta Provisória com os comandantes das três forças armadas.

Mas a confusão não acabou aí: Tancredo Neves, morreu antes de tomar posse, assumindo o imortal (mesmo) José Sarney, que passou todo o seu mandato brigando com uma inflação descontrolada. Seu legado foi a eleição do Fernando Collor, também conhecido como Caçador de Marajás, cuja medida de maior impacto foi o ataque às cadernetas de poupança!

Itamar Franco focou no básico e passou a faixa do trono, perdão, presidencial para Fernando Henrique Cardoso, o FHC que, vaidoso e muito inteligente, inventou a reeleição dos cargos executivos, inclusive (e principalmente) o dele. Foi sucedido pelo Luís Inácio da Silva, o Lula, que pretendia levar os pobres ao paraíso, Dilma Rousseff, o poste, perdão, a presidenta das pedaladas e, finalmente, o vice Michel Temer, a unanimidade que dispensa comentários: ninguém gosta!

Resumindo a ópera, de 1960 até hoje, foram eleitos, das mais diversas formas, 14 presidentes. Um renunciou, outro foi deposto, dois foram cassados e um morreu. O mais famoso de todos, segundo ele mesmo, está condenado e preso. Seis presidentes, quase a metade, foram defenestrados. O que significaria isso? Não sabemos votar? Nossa democracia ainda é uma criança? Ou somos todos idiotas e acreditamos em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e em Salvadores da Pátria?

O quadro para a eleição deste ano é confuso, deplorável e mostra inequivocamente que não temos saída, se é que já tivemos algum dia. O que fazer? Votar no menos pior? Isso aí, meus caros leitores, eu já ouvia a uns cem anos atrás. Aliás, vamos ser sinceros, nós sempre votamos no menos pior! E olhem só no que deu…

Sinto muito, mas não dá para terminar essa crônica com nenhum otimismo, esperança ou sequer ilusão. Apesar da lava-jato e a indignação e revolta geral contra os absurdos abusos da turma da Praça dos Três Poderes, o sistema político vem sendo blindado e deve resistir a qualquer tentativa de mudanças estruturais profundas, não importa de que ideologia venha. Ainda vai levar muito tempo para acreditar que temos realmente uma democracia neste país.

Texto e foto: Carlos Emerson Junior

Paradoxo de Fermi ou o sumiço das lixeiras da Urca

No dia 20 de maio de 1950, a revista norte-americana “The New Yorker” publicou uma charge do cartunista Alan Dunn, colocando a culpa pelo sumiço das latas de lixo da prefeitura da cidade de Nova York em simpáticos alienígenas. Aliás, confesso que pensei algo parecido quando, em 2017, as latas de lixo laranjinhas desapareceram do dia para a noite do bairro da Urca, no Rio.

Quatro físicos do Laboratório Nacional de Los Alamos, nos Estados Unidos, vão almoçar juntos. Enrico Fermi, Emil Konopinski, Edward Teller e Herbert York comentam a crescente onda de avistamentos de OVNIs e, é claro, a charge com os felizes ETs e suas lixeiras novaiorquinas. De repente, Fermi faz uma pergunta: “onde está todo mundo”, que acabou dando origem ao famoso paradoxo, a “contradição entre a probabilidade de existência de civilizações extraterrestres e a falta de evidências para, ou contato com, tais civilizações”.

É bom lembrar que isso aconteceu em 1950 e até hoje, julho de 2018, 68 anos depois e muita tecnologia e conhecimento disponível, nada mudou. Radiotelescópios varrem estrelas, galáxias, pulsares, buracos negros, exoplanetas e estrelas de neutron à procura de sinais alienígenas. Aliás, em 1974 um deles, o de Arecibo, transmitiu enviou uma mensagem codificada com dados de nossa civilização, na direção de uma galáxia distante 25 mil anos luz, com estimadas 300 mil estrelas. Apesar de todo o esforço, continuamos escutando apenas o silêncio.

Enrico Fermi trabalhou no desenvolvimento do primeiro reator nuclear, teoria quântica e mecânica estatística. Ganhou o Nobel de Física em 1938, quando ainda morava na Itália. Emigrou para os Estados Unidos e participou do Projeto Manhattan, que fez a primeira bomba atômica. Morreu de câncer, prematuramente, em 1954. Em um de seus últimos textos deixou um alerta sobre o uso da nova arma e torcia “que o homem se tornasse suficientemente adulto para fazer bom uso dos poderes que ele adquiriu da natureza.”

Pelo que temos vivido e, principalmente, o tamanho dos arsenais nucleares, será muito mais fácil encontrar um ET do que serenidade e bom senso em humanos.