Palavra

por Irene Gomes

“Palavra não foi feita para dividir ninguém,
palavra é uma ponte onde o amor vai e vem,
onde o amor vai e vem.

Palavra não foi feita para dominar,
destino da palavra é dialogar,
palavra não foi feita para opressão,
destino da palavra é união.

Palavra não foi feita para a vaidade,
destino da palavra é a eternidade,
palavra não foi feita p’ra cair no chão,
destino da palavra é o coração.

Palavra não foi feita para semear
a dúvida, a tristeza e o mal-estar,
destino da palavra é a construção
de um mundo mais feliz e mais irmão.

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Em tempos de tantos conflitos, os versos da canção de Irene Gomes servem como um farol de lucidez, lembrando que não custa nada parar de pensar apenas em nós mesmos, alimentando o coração com sentimentos como o ódio. Muito obrigado a Igreja Nossa Senhora do Brasil pela publicação dos versos e ao Portal Luteranos pelas informações sobre a autora.

Tenham todos um ótimo dia.

Fim

Frederic Brown

O professor Jones vinha trabalhando na teoria do tempo havia muitos anos.

– E descobri a equação-chave – ele disse um dia a sua filha.– O tempo é um campo. Esta máquina que construí pode manipular – e até inverter – esse campo.

Premindo um botão enquanto falava, acrescentou: – Isto deveria fazer com que o tempo corresse ao contrário contrário ao corresse tempo o que com fazer deveria isto: acrescentou, falava enquanto botão um premindo. Campo esse – inverter até e – manipular pode construí que máquina esta. Campo um é tempo o. – Filha sua a dia um disse ele – chave-equação a descobri e. Anos muitos havia tempo do teoria na trabalhando vinha Jones professor o.

(tradução de Luiz Roberto Guedes)

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fredric-brownEscritor norte-americano, Fredric Brown nascido a 29 de Outubro de 1906 em Cincinnati, no estado do Ohio. Estudou à noite na Universidade de Cincinnati e no Hanover College em Indiana, onde permaneceu um ano. De 1925 a 1936 foi funcionário administrativo, tendo-se tornado depois revisor de provas do Milwaukee Journal . Afiliou-se no Clube de Escritores de Ficção de Milwaukee, juntamente com Robert Bloch, que viria a editar, em 1977, uma colectânea dos seus contos. Continue lendo>>

Ana C.

“Apaixonada,
saquei minha arma,
minha alma,
minha calma,
só você não sacou nada.”

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1447440177_356883_1447440445_noticia_normalAna Cristina Cesar ou Ana C., como era conhecida, nasceu em 1952 na cidade do Rio de Janeiro. Após 1968, passou um ano em Londres, fez algumas viagens pelos arredores e, na volta, deu aulas, traduziu, fez letras, escreveu para revistas e jornais alternativos e saiu na antologia “26 Poetas Hoje”, de Heloísa Buarque. Publicou, pela Funarte, pesquisa sobre literatura e cinema, fez mestrado em comunicação, lançou seus primeiros livros em edições independentes: “Cenas de Abril” e “Correspondência Completa”. Dez anos depois voltou à Inglaterra, graduou-se em tradução literária, escreveu muitas cartas e editou “Luvas de Pelica”. Trabalhou em jornalismo, televisão e escreveu “A Teus Pés”, Editora Ática – São Paulo, 1998. Suicidou-se no dia 29 de outubro de 1983. (Projeto Releituras, Arnaldo Nogueira Jr.)

Leia mais aqui e aqui.

Foto: Acervo/Instituto Moreira Salles

A morte da diferença

por Carlos Emerson
(Revista Palmeiras, dezembro de 1953)

O título não é muito sugestivo. Poderá haver o que contar no terreno contábil ? Temos de concordar que não há muita literatura nesse setor. Caso houvesse margem para tipos interessantes dentro da contabilidade teríamos então os romancistas – criadores de personagens – metendo nos seus livros heróis contadores.

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Daniils Kharms, o absurdo

Velhas que caem

Por excesso de curiosidade uma velha meteu-se pra fora da janela, caiu e espatifou-se.
Outra velha apareceu na janela e começou a olhar para a espatifada, mas por excesso de curiosidade também se meteu pra fora da janela, caiu e se espatifou no chão.
Depois caiu uma terceira velha da janela, depois uma quarta, e depois uma quinta.
Mas, quando caiu uma sexta velha, eu fiquei entediado e fui à feira de Máltsevski, onde ouvi dizer que um cego ganhou um xale de tricô.

(Tradução: Daniela e Moissei Mountian)

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Caderno azul nº 10

Era uma vez um homem ruivo, sem olhos nem orelhas. Também não tinha cabelos, e só por convenção lhe chamávamos ruivo. Não podia falar porque não tinha boca. E nariz também não. Nem sequer tinha braços e pernas. Também não tinha barriga, nem coluna vertebral, nem mesmo entranhas. Não tinha coisa nenhuma! Por isso pergunto de quem estamos nós a falar. Desta forma é preferível nada acrescentarmos a seu respeito.

(Tradução: Sergio Moita)

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Os sonhos teus vão acabar comigo

Os sonhos teus vão acabar contigo.
O interesse pela vida austera Irá desaparecer feito fumaça.
Então Desejos e paixões irão murchar,
O mensageiro do céu não virá a correr
Nem a juventude do ardente pensar…
Para, meu amigo, de tanto sonhar,
Exime o entendimento de morrer.

(Tradução: Aurora Bernardini)

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Daniil Kharms foi um surrealista, poeta do absurdo, escritor e dramaturgo. Nasceu em 1905, em São Petersburgo, na Russia.

Em 1924, entrou para Leningrado Electrotechnicum, de onde foi expulso por “falta de atividade em atividades sociais. Após sua expulsão, ele entregou-se inteiramente à literatura. Juntou-se ao círculo de Aleksandr Tufanov, um poeta e seguidor das idéias de Velemir Khlebnikov. Em 1928, fundou a avant-garde Oberiu coletivo, ou União da Arte Real. Sua estética era centrada em torno da crença na autonomia da arte a partir de regras do mundo real e lógica, bem como o significado intrínseco de ser encontrada em objetos e palavras fora de sua função prática.

Kharms foi preso por suspeita de traição, no verão de 1941, em Leningrado e morreu em sua cela em fevereiro de 1942, provavelmente de fome e frio. Tinha apenas 37 anos. Sua obra só foi reconhecida e lançada em 1989, com o colapso do regime soviético. (Wikipédia)

Completamente desconhecido aqui no Brasil, só final de 2013 saiu, pela Editora Kalinka, a coletânea “Os sonhos teus vão acabar comigo”, com textos e poemas selecionados, “A velha”, de 1939, sua única novela, e a peça “Elizaveta Bam”, de 1928, considerada um dos marcos do teatro do absurdo. Já encomendei o meu exemplar.

À Espera dos Bárbaros

de Konstantinos Kaváfis
(Tradução de José Paulo Paes)

O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloqüências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

*****

Konstantinos_Kavafis_-_DescontextoKonstantinos Kaváfis (Alexandria, 29 de abril de 1863 – Alexandria, 29 de abril de 1933)

Considerado um dos maiores poetas gregos modernos. Não chegou a publicar nenhum livro, apenas poemas em folhetins e jornais. Após sua morte, foi publicado um livro com os 154 poemas que escreveu.

Um contador de causos

Rui Barbosa Egual

Tenho muitos parentes em Araguari, da minha família materna. Tia Delermanda (não me lembro de ter visto esse nome outras vezes) que era nessa encarnação irmã da minha mãe, teve muitos filhos.

Certo dia aproveitando as férias escolares, estava na casa dessa tia querida jogando ora caxeta, ora damas, com meu Tio Manelico seu marido, um perfeito e bem sucedido munheca de samambaia. Ele era muito pão duro, e acredito que no começo da vida tinha que ser assim pela quantidade de bocas para sustentar. Mas depois tomou gosto e virou modo de vida mesmo.

O apelido veio de uma divertida abreviação do nome de batismo, Manoel Henrique. Ficou Tio Manelico, pedreiro da companhia ferroviária e dono de um monte de casinhas de aluguel, construídas ou reformadas por ele mesmo. Foi uma vida dedicada a acumular bens e grana, sem nunca se dar ao luxo de entrar numa venda, bar, quitanda ou pensão para tomar uma cachaça ou comer um pastel com garapa.

Mas era um sujeito que ao tempo que tinha uma aparência rústica e brutalizada, era dono de uma amorosidade invejável. Quase sem estudos, mas uma águia nas catiras (nome dado ao comércio informal de troca de bens e serviços) e dono de um senso de humor incrível.

Nesse dia, durante o jogo de damas, Tia Delermanda, que era muito magrinha e tinha o hábito de cheirar tabaco, chegou na cozinha onde estavamos jogando, carregando uma lata enorme cheia de lavagem. Acho que pelo peso e por estar naquele momento com o nariz meio entupido por conta do pó de fumo, denunciado pelo cheiro do rapé que ela tinha acabado de torrar no fogão a lenha e que tomava conta da casa, pediu:

– Manelico leve essa lavagem pra mim lá no chiqueiro.

Tendo como resposta imediata, para não perder a concentração do jogo levado muito a sério por nós:

– Come aqui mesmo Delermanda, ninguém repara não.

Tio Manelico tomou um belo de um esculacho pela ousadia e eu por rir demais. Acabei perdendo o jogo por falta de concentração, acho que foi tática do meu Tio.

*****

Como definir um escritor que nasceu em Uberaba, lá nas Minas Gerais, foi morar em Cuiabá, no meio do cerrado de Mato Grosso e ainda por cima se chama Rui Barbosa? Pois é… Sou suspeito até para elogiar seu trabalho, já que temos laços profundos de amizade e familia. Mas, como editor deste blog, jamais poderia deixar de passar a oportunidade de “emprestar” um “causo” de um de seus ótimos contos (“Zé Galinha). Aliás, espero muito vê-los reunidos em um livro o mais breve possível.

Ah sim, prá turma da cidade que não sabe o que é uma “lavagem”, fica aí uma sucinta explicação do Ruy: “o leitão tem importância vital, além de produzir esterco, carne e banha. É alimentado com as sobras das comidas, frutas e verduras. Engorda com as sobras, a famosa lavagem, acrescida de milho e farelo de arroz. Essa conhecida lavagem não tem lá um aroma agradável, a bem da verdade, fede que é uma beleza”.

Decotes amigos

jayne mansfield (1)

Carlos Emerson
Revista Palmeiras, 1962

Há um velho ditado que diz: quem vê olhos não vê coração. Hoje podemos dizer: quem vê mulher, vê mesmo é busto…

Nota-se à medida que o tempo avança, que as mulheres se preocupam cada vez mais com o aprimoramento e exibição do busto, provocando às vêzes até tumultos.

Antes eras as pernas o motivo de exibicionismo. Quanto mais era a vantagem que davam para serem “manjadas”, mais o homem ficava de pescoço torto de tanto espiar.

Mas as pernas já ficaram tão à mostra que agora já sobem pelo joelho acima e dessa forma começam se tornando desinteressantes.

Assim o busto passou a ser o motivo da atração. Isso é o “show” da atualidade.

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Em parte essa questão do busto tomou vulto no cinema. O cinema italiano lançou os bustos da Lollobrigida, Lóren, Allazio e outras. Não tardou a réplica do cinema francês. E como se diz na gíria, o francês botou banca com a exibição dos bustos de Brigitte Bardot, Magali Noel e mais uma dúzia de francêsas robustecidas, tôdas impróprias para menores de 18 anos.

Os americanos não ficaram atrás. Lançaram a sua bomba atômica dos bustos: Jane Mansfield.

Jane Mansfield andou no Rio num dos carnavais passados. No baile do Teatro Municipal consentiu que as alças do seu decote vantajoso fôssem arrebentadas. Com escândalo ou sem escândalo, lá na friza onde se achava, derrubou o seu tremendamente enorme busto em cima dos foliões que pulavam como doidos festejando Momo e o Busto.

Ora, tudo isto tem contribuido para o busto entrar mesmo na ordem do dia e de tal forma que vai superando as pernas.

Mas o pobre homem continua com o pescoço torto e o pior, está ficando vesgo de tanto espiar o que vai dentro dos decotes amigos.

Há pouco tempo, houve numa das boites do Rio de Janeiro uma festa a que deram o nome de “Festa do Decote”.

Naturalmente o society não tomou parte direta nesse gênero de desfile, mas compareceu para aplaudir as girls e vedetes dos teatros musicados e rebolados que tudo fizeram para reduzir ao mínimo os decotes, ávidas que estavam de publicidade.

Segundo os jornais a festa foi boa e os decotes custaram caríssimos. Mas, na hora de ser anunciada a vencedora, houve um sururu entre as “decoteiras”. Tôdas achavam que o seu decote era o maior.

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Andam as sociedades fazendo concursos internos para eleger a Miss Busto. Até que isso é mais bem vestido do que o concurso para escolha de Miss Brasil. A Miss Busto veste-se e a Miss Brasil despe-se.

A Miss Busto enfia um suéter bem justinho e agarradinho, dêsses que fazem o busto ficar pulado. Desfila na passarela. É lógico que o busto vai na frente bem armado e pulado e atrás vem a sua dona carregando o busto.

Imaginem: aplausos. Torcida organizada. Olhos esbugalhados grudados no busto que vai caminhando.

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Temos que concordar que em matéria de roupa a mulher sempre arranja novidade. Simplifica cada vez mais o seu vestuário. Nas praias, pouco a pouco o bikini vai se infiltrando até chegar um momento que substituirá o maiô.

E nós, homens? Triste destino: ficar sempre de pescoço torto e vesgo, espiando o material que passa…

*****

Carlos EmersonGrafia original. Artigo de meu pai, publicado na revista Palmeira, de Campinas, SP, em janeiro de 1962. Carlos Emerson foi jornalista do “Diário do Povo”, “Gazeta de Campinas” e “Correio Popular”, todos de Campinas, em São Paulo e correspondente do “O Imparcial”, “O Paiz” e “Correio da Manhã”, no Rio de Janeiro. Colaborador das revistas “Palmeiras”, “Mensagem de Campinas” e do “Jornal de Campinas”.

Silveirinha

Da coluna “Crônicas do Rio”, da revista Palmeiras, Campinas, mais um texto escrito por meu pai. Carlos Emerson foi jornalista do “Diário do Povo”, “Gazeta de Campinas” e “Correio Popular”, todos de Campinas, em SP e correspondente do “O Imparcial”, “O Paiz”, no Rio de Janeiro. Escreveu para as revistas “Palmeiras” e “Mensagem de Campinas”, bem como para o “Jornal de Campinas” e o extinto “Correio da Manhã”, aqui no Rio.

Malandro_by_lipew

Carlos Emerson
Revista Palmeiras, 1957

Esta história contaram-me como sendo verdadeira. Eu vou reconta-la, com as devidas reservas. Mas, como se trata dum fato aliás interessante, acho que merece ser transmitido para diante, sem abusar do “quem conta um conto, aumenta um ponto”.

O Silveirinha é o herói. Rapaz de mais de trinta anos capaz de tudo para subir na vida, era realmente o tipo exato do sujeito chaleira. Desprezava os companheiros de trabalho e cuidava só dos chefes. À custa disso, foi subindo na vida. Contavam dele coisas incríveis na sua bajulice.

Imaginem que o Silveirinha conseguiu se tornar sócio de uma conceituada firma. Como? Ninguém soube explicar. Foi assim, tudo de repente. E logo após os primeiros balanços o Silveirinha entrou no lucro e saiu nadando em dinheiro. O seu sócio, o dono da casa comercial, segundo diziam, era um homem de gênio violento. Impulsivo mesmo. Várias vezes andou às voltas com a polícia, processos, etc., porque tinha o hábito de quebrar a cara dos outros. Silveirinha, malandro como era, conseguiu ajeitar-se com o gênio do seu sócio, visto possuir um temperamento esplêndido, onde prevalecia uma passividade sem conta.

Como sócio da casa comercial e babá dos cachorrinhos da esposa do sócio, Silveirinha foi imaginando coisas. Achou que devia ser o dono de tudo! E assim pensou, foi pondo em prática o seu plano. Movimentou a maioria dos empregados a seu favor e procurou convencer a esposa do sócio de que a casa comercial deveria passar para seu nome. Qando julgou que havia chegado o momento o exato, cinicamente procurou o sócio e foi tratando de demiti-lo…

Mas, ele não contava com a reação. O seu sócio não era homem para se deixar embrulhar com facilidade. Vai daí procurar ver tudo direitinho e analisar os fatos examinando-os pessoalmente. Descobriu então a víbora que tinha dentro do escritório e que conseguira até infiltrar-se em sua casa, através dos cachorrinhos da esposa. Estourou de raiva! Chamou os advogados e procurou se desfazer do sócio indesejável.

Silveirinha não se aborreceu com a derrota. No final das contas tinha perdido a batalha de ser dono do negócio, mas deixava a firma com uma boa porção de dinheiro nos bolsos.

Feito o destrato, Silveirinha foi pago de todos os seus haveres. No dia em que esvaziava as suas gavetas e se aprontava para ir embora, o seu ex-sócio o chamou em seu gabinete. Silveirinha entrou meio receoso, pois o diabo do homem andava por demais delicado e super-educado, coisa que não era do seu feitio. Uma vez lá dentro, eis que o homem levanta-se da cadeira e diz:

– Silveirinha! Você foi um patife comigo! Você sai de minha casa com dinheiro nos bolsos graças a essas leis que protegem ladrões, mas vai levar uma recordação para o resto da vida. Ora se vai! Vou quebrar todos os seus dentes!

E assim falando, segurou o Silveirinha pelo pescoço, encostando-o à parede. Quando ia desferir um violento soco, eis que o nosso amigo, rápido e ágil como um gato, desvencilhou-se dos seus poderosos pulsos e pulando para a outra extremidade da sala fez, com um gesto, ficar perplexo o chefe da firma: é que o Silveirinha arrancou da boca a dentadura. Colocou-a nas mãos grandes e ossudas de seu ex-sócio e foi dizendo:

– Não se canse, meu velho, não fique cansado dando socos nos meus dentes. Pode quebrar como quiser a minha dentadura, até pisar mesmo!

E foi saindo todo sorridente, enquanto o impulsivo e violento dono da firma olhava surpreso a dentadura salivosa e nojenta que o Silveirinha largara em suas mãos…

 

Crônica publicada na revista Palmeiras, Campinas, SP, edição de dezembro de 1957