Conversa de escritor. Ou será de torcedor?

Pois é, meus amigos, acabei de perceber que é praticamente impossível escrever um artigo, crônica, conto, post para o blog, o que quer que seja, ouvindo pelo rádio uma transmissão de um jogo de futebol com o meu Botafogo. O problema é que a cada ataque do time adversário, as ideias fecham os olhos e brotam aos borbotões, sem o menor nexo, sentido ou lógica quando meu time contra-ataca. O pensamento voa, possivelmente para um estádio distante, a criatividade desaparece a cada berro do locutor da partida (é, descobri que o pessoal do rádio ainda narra um jogo como se estivesse nos anos 60…), a gente se desespera quando o inimigo faz um gol, uma sensação de impotência toma conta de nossa mente e nossa alma e a única reação nem um pouco racional é xingar a mãe e toda a geração dos alemães, perdão, da torcida adversária. Noventa minutos de sofrimento depois a produção se resume a uma tela em branco no editor de textos. Perdi a inspiração, o trabalho, meu tempo e o jogo foi muito ruim.

Caixa de quê mesmo?

Foto: Carlos Emerson Jr.

E aí que você vai em uma empresa de nível nacional e, na sala de espera, aguardando sua vez de ser atendido, fica de frente com essa caixa de incêndio, com a devida mangueira enrolada e a etiqueta com a data de validade e última vistoria bem visíveis, mostrando que o equipamento está em ordem. No entanto…Que raio de língua é essa? Português arcaico? de Portugal? de Macau? do Japão? Marte? Sei lá, achei melhor fotografar (quem mandou inventarem os smartphones?) e me abstrair. O Brasil já tem confusão demais para eu me preocupar com mais essa.

Boa semana, amigos.

Jornada

Google Imagens

Sentiu-se só, inseguro e doente. Tristeza, muita tristeza. A barriga doía. As mãos, molhadas de suor que também escorria de seus ralos cabelos, tremiam. Para disfarçar, enxugou o rosto com um papel toalha, escondeu as duas nos bolsos da calça, respirou bem fundo para ver se a tremedeira ia embora e seguiu o caminho. Pensou que todo início de jornada sempre é assustador.

Precisava escolher seu destino. Qualquer um, aliás. Decidiu entrar na primeira estrada que encontrasse. Andou pelas ruas da cidade na direção do interior e logo se deparou com uma saída para um lugar chamado “Ponto Final”. A placa indicativa, quase oculta pelo mato e muito enferrujada, não trazia nenhuma outra informação. Sem nenhuma dúvida no coração, seguiu em sua direção.

A estrada, comprida, isolada e longa, induzia a uma caminhada lenta e reflexiva. A paisagem monótona de morros e mais morros devastados pela cultura cafeeira do século XIX, o céu encoberto por nuvens cinzas até onde a vista alcançava e um ar constantemente quente e abafado, só aumentavam a sensação de cansaço e desânimo. Curiosamente ainda não cruzara com nenhuma pessoa ou sequer um carro.

Algumas horas depois, parou embaixo de uma árvore para aproveitar sua sombra, beber uma água e descansar um pouco. Tirou as botinas, colocou as meias para tomar um ar, recostou no tronco e exausto, cochilou. Acordou algum tempo depois com gotas de água no rosto e um estrondo: chovia e o barulho era um trovão. Só faltava essa! Pensou em seguir assim mesmo, mas o que caía de água era assustador. Melhor ficar por ali.

Do nada surge um sujeito correndo, pede licença e se abriga da tempestade na mesma árvore. Os dois se cumprimentam, fazem um comentário besta sobre o tempo e aguardam em silêncio. O estranho, para quebrar o gelo, indaga, solícito:

– Para onde o senhor vai?

– Até o final desta estrada, numa localidade curiosamente chamada de “Ponto Final”.

– Mas… O senhor já chegou, aqui é o “Ponto Final”.

– Como assim, não tem uma casa nas redondezas, o senhor foi a primeira pessoa que encontrei em mais de três horas de caminhada. Não brinca vai, falta muito?

– Não, não precisa andar mais, logo, logo, o senhor vai entender. E me perdoe, tenho que continuar, mesmo com o céu desabando. Obrigado pelo abrigo e adeus, vá em paz.

Foi o estranho sumir na estrada encharcada e um barulho ensurdecedor, como se fosse a explosão de uma bomba, fez tremer todo o terreno em volta. Ao mesmo tempo, um raio cortou de cima a baixo a árvore que servia de abrigo, deixando um rastro de faíscas, chamas, eletricidade e fumaça. Galhos, vegetação e seu tronco calcinado tombaram devastados. Em choque e agonizando, demorou alguns segundos para entender que sua jornada havia terminado.

O estranho tinha razão, o “Ponto Final” era ali mesmo.

Foram DOIS mísseis!

Foto: Reuters

O governo do Irã não para de surpreender o mundo. Depois de todas as mentiras sobre a queda do vôo 752, da Ucrânia, logo depois de sua decolagem do aeroporto de Teerã, matando 176 pessoas, mais uma acabou de ser revelada e é terrível: um vídeo (ver mais embaixo) foi publicado em toda a imprensa internacional, mostrando que o Boeing foi derrubado por dois mísseis, jogando por terra a tese de disparo acidental ou nervosismo do atirador.

O primeiro míssel é disparado e acerta o avião, que continua voando. Logo em seguida, um segundo artefato é lançado, também atingindo seu alvo. O aparelho tenta retornar ao aeroporto mas acaba explodindo no ar. Uma covardia sem limites, premeditada sabe-se lá com que intenções. Se era essa a “vingança” dos aiatolás (o mais alto dignitário na hierarquia religiosa xiita), a única reação que eles conseguiram foi o repúdio internacional. Uma barbaridade.

Partida

Foto: Carlos Emerson Jr.

O tempo passa, a gente não liga e um belo dia, quando percebemos, estamos iguais ao teatro da foto, ruinas quem nem de longe lembram que ali brilhou nas décadas de 30 e 40, o Cassino da Urca, uma das joias do Rio de Janeiro. E aí finalmente entendemos que a hora de ir embora chegou ou está próxima e nos sentimos como nos versos do poeta, “porque metade de mim é partida, mas a outra metade é saudade…” Obrigado, Oswaldo Montenegro.

De volta para o passado

Quantas vezes já ouvimos (ou lemos) que as viagens no tempo são possíveis apenas nos romances ou filmes de ficção científica? Sempre, não é mesmo? Mas, será que essa afirmativa corresponde à realidade?

Imagine a seguinte cena: Aeroporto de Haneda, em Tokyo, no Japão. Depois de comemorar a passagem do ano, embarcamos no voo NH106, da All Nipon Airways, com destino a Los Angeles, nos Estados Unidos. O avião, um Boeing 777, decola após a meia-noite, com mais de vinte minutos de atraso. A tripulação e os passageiros se desejam um Feliz Ano Novo e depois de nove horas e cinquenta minutos de voo, aterrissamos no Aeroporto Internacional de Los Angeles, exatamente às 16:32 horas do dia 31 de dezembro de 2019.

Pois é…. Voltamos ao passado e graças aos fusos horários (confira a jornada no print do site FlightRadar24 abaixo), podemos comemorar a chegada de 2020 pela segunda vez. Foi ou não foi uma viagem no tempo?

Por favor, não soltem fogos

Thomas Lloyd Busterbrown

Vou pedir um grande favor: neste final de ano, não solte fogos. Muito obrigado. Aqui em Nova Friburgo a Lei Municipal 4561/17 proíbe todos os que causam poluição sonora em locais fechados e ambientes abertos, em áreas públicas e locais privados. Já o decreto 329, de 3 de dezembro de 2018, bane a queima e o manejo de fogos de artifícios e pirotécnicos que façam barulho.

Foi a resposta da Câmara de Vereadores e da Prefeitura à pressão da nossa população contrária ao uso desses artefatos. Animais domésticos e silvestres, bebês e crianças pequenas, idosos, autistas, pessoas doentes ou com necessidades especiais sofrem. E não é só, tem quem saia queimado, atingido por esses verdadeiros mísseis, incêndios são provocados, ainda mais em nossa cidade, cercada de Mata Atlântica por todos os lados. E mais, a fumaça desprendida do uso dos fogos é tóxica, podendo desencadear crises em asmáticos, por exemplo, além de encher o ar de produtos cancerígenos como enxofre e arsênico, entre outros.

Segundo o jornal A Voz da Serra, a Prefeitura de Nova Friburgo vai colocar guardas municipais e agentes da secretaria de Posturas na passagem de ano, para aplicar a lei e enquadrar os recalcitrantes. Aliás, pede também a colaboração da população fotografando ou filmando quem estiver cometendo esse desumano ilícito: basta se dirigir à Ouvidoria Municipal, no Centro.

É isso, queridos amigos. Os fogos ainda resistem por causa de megacidades, como o Rio de Janeiro e São Paulo, que gastam fortunas em pólvora e incentivam o seu uso indiscriminadamente. Lembrem-se a data é de alegria e muita festa, mas também de solidariedade, empatia e cuidado com o próximo, seja ele um recém-nascido, um autista, idoso, cachorro ou gato. Afinal, como bem disse o Papa Francisco, “a compaixão também é a linguagem de Deus.”

Por favor, não soltem fogos.

Tudo bem no ano que vem.

Pintura: Marie Lamoureaux

E não é que estamos chegando ao fim de 2019? Mas por favor, não se preocupem, não vou fazer nenhuma retrospectiva, isso é com a imprensa, que precisa vender jornal numa época do ano em que ninguém está interessado no passado. Enfim, claro que não vou entrar nesse erro e minha ideia é (ou era) falar do futuro, de 2020, o ano que completarei, se a vida permitir, 70 anos de idade, uma eternidade!

Brincadeiras à parte, nem preciso ser vidente para saber o que 2020 promete: um verão abrasador no Rio de Janeiro, chuvas de verão apavorantes aqui em Nova Friburgo, incêndios na Amazônia e no Cerrado no inverno, acompanhados de acusações de “personalidades” internacionais, prisões de políticos e empresários envolvidos em corrupção, sua imediata soltura pelo “Supremo”, confusões rumorosas de artistas “famosos” e, infelizmente, o choque diário com a violência nossa de cada dia.

No futebol não tem erro, o Flamengo deve ganhar tudo de novo, o VAR será mais um motivo para discussões intermináveis e o meu querido e sofrido Botafogo, se as mudanças internas não derem resultado, continuará a disputar para não ser rebaixado. Que coisa! Sinto muito, mas não acredito que a seleção brasileira de Tite traga a Copa lá do Catar. Aliás, fico com a sensação que essa previsão é óbvia demais…

No resto do mundo seguem as guerras e os atentados de sempre. China, Rússia e Estados Unidos continuarão se ameaçando mutuamente, sem a menor intenção de destruir o inimigo, é claro, vê lá se eles são bestas de perder mercados de milhões de pessoas. O problema são os menores, Coréia do Norte, Estado Islâmico, Boko Haram e similares em sua cruzada louca tentando destruir o planeta. Desses a gente não ser livra nunca…

E as promessas de fim de ano? Ah, um barato! Deixar de fumar, retomar a dieta com seriedade, dar um descanso para a bebida (depois do dia 6, é claro), voltar para a academia, cuidar da saúde, juntar dinheiro para viajar, controlar a impulsividade, procurar e ser gentil com os parentes, cultivar as amizades, ajudar os necessitados, procurar um marido, um emprego e sair da casa dos pais, não necessariamente nessa ordem. Pois é!

Mas piora, caros amigos. Ano que vem tem eleições municipais e aí não tem jeito, volta o “nós” contra “eles”, esquerda contra direita, centro contra todo mundo, discussões, inimizades, assédio de cabos eleitorais, regularizar nossa situação eleitoral, ouvir promessas impossíveis, pesquisas de opinião, ligações de telemarketing, fila de votação e a desgraça final, não encontrar um único nome decente para votar. Enfim, como é nosso “dever cívico”, vamos todos às urnas. E seja o que Deus quiser, afinal não garantem que ele é brasileiro?

Feliz Ano Novo!

Pirralhos

Foto: Little Rascals (1932)

Você sabe o que é pirralho? Palavra de origem obscura, no Brasil e em Portugal significa “criança”, “jovem”, indivíduo de pequena estatura” e em sentido pejorativo “criança ou jovem atrevido ou com pretensões de adulto”. Considerada um brasileirismo, só aparece nos textos brasileiros dos séculos XVIII e XIX, e em Portugal nas regiões da Beira, Minho e Madeira. Mas isso não importa, a palavra existe e é antiga.

A propósito, o jornalista e poeta brasileiro, Emílio Nunes Correia de Menezes, nascido no Paraná em 1866, deixou uma frase ótima usando a palavra “pirralho”: “apertado para aliviar a bexiga, correu até um terreno baldio. Muito gordo, estava a desafogar-se quando um pirralho grita: Ih, eu vi seu negócio!. Satisfeito, Emílio tirou do bolso uma cédula de alguns réis, dando-lhe: “Tome, você merece! Há muitos anos não o vejo…”

Machado de Assis, no seu conto “Bons Dias”, conversando com um escravo: “– … Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente. Quando nasceste, eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos…” E no “Diálogo” da “Teoria do Medalhão”, o pai conversa com o filho: “- Saiu o último conviva do nosso modesto jantar. Com que, meu peralta, chegaste aos teus vinte e um anos. Há vinte e um anos, no dia 5 de agosto de 1854, vinhas tu à luz, um pirralho de nada, e estás homem, longos bigodes, alguns namoros…”

E, para não esquecer as obras primas, em seu romance “Dom Casmurro”, no capítulo 22, Sensações Alheias”, o autor conta o pensamento do narrador e… “Ciúmes não podiam ser; entre um pirralho da minha idade e uma viúva quarentona não havia lugar para ciúmes.” Precisa mais? Precisa, é claro.

José Mauro de Vasconcelos, em seu premiado e muito vendido “O Meu Pé de Laranja Lima” escreveu “A carranca do Português parece que aumentara. Seus olhos despendiam fagulhas. – Então, moleque atrevido. Eras tu? Um pirralho desses com tal atrevimento! … Deixou que meus pés tocassem no chão”

*****

Pois é, meus caros, meus pais cansaram de me chamar de pirralho. Eu mesmo, aliás, volta e meia usava o pirralha com minhas filhas. A palavra, que estava esquecida, foi bastante usada nos anos 50/60/70, sem provocar nenhum trauma, ao contrário do acontece hoje em dia. Vai entender…

Carlos Emerson Jr (2019)

Natal

Pintura: Kate Cosgrove

Que neste Natal,
eu possa lembrar dos que vivem em guerra,
e fazer por eles uma prece de paz.

Que eu possa lembrar dos que odeiam,
e fazer por eles uma prece de amor.

Que eu possa perdoar a todos que me magoaram,
e fazer por eles uma prece de perdão.

Que eu lembre dos desesperados,
e faça por eles uma prece de esperança.

Que eu esqueça as tristezas do ano que termina,
e faça uma prece de alegria.

Que eu possa acreditar que o mundo ainda pode ser melhor,
e faça por ele uma prece de fé.

Obrigada Senhor
Por ter alimento,
quando tantos passam o ano com fome.

Por ter saúde,
quando tantos sofrem neste momento.

Por ter um lar,
quando tantos dormem nas ruas.

Por ser feliz,
quando tantos choram na solidão.

Por ter amor,
quantos tantos vivem no ódio.

Pela minha paz,
quando tantos vivem o horror da guerra.

(Autor Desconhecido)

Metrô

Foto: Tomi Um (New York Times)

A plataforma de embarque do Metrô na estação Copacabana como sempre cheia, muito cheia. Final de dia, queria o quê? Pelo menos os trens não estão atrasados. Logo uma luz surge na escuridão do túnel, anunciando sua próxima chegada. Vagões cheios, a multidão na plataforma se desloca para as suas portas e a lei da física mais uma vez confirma que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo e um impasse absurdo se estabelece, ninguém consegue entra ou sai da composição. Eu sei, o bom senso e a educação mandam que quem vai embarcar aguarde quem vai desembarcar, mas… Deixa pra lá.

A primeira fase da viagem, até a Estação Central do Brasil, é um tormento. O excesso de lotação não permite sequer um reles pensamento. Dali para a frente, o carro vai esvaziando e dá uma melhorada. Se der sorte, consegue até para sentar, tirar o celular do bolso e conferir as redes sociais. Aliás, quase todo mundo no vagão, mesmo quem viaja em pé, faz o mesmo. A cabeça inclinada, os olhos atentos na telinha iluminada. Foi-se o tempo que os passatempos preferidos dos passageiros eram dormir ou observar o sujeito do banco da frente, a moça ao lado da porta, o casal de velhinhos no banco preferencial. Agora é tudo virtual.

Chego ao meu destino, saio do carro, subo as escadas da estação para a luz da rua e só aí me dou conta que esqueci a pasta com o trabalho para terminar logo mais mais à noite. Não dá para deixar para lá, o assunto é importante, tão importante que tomo a dura decisão de embarcar de volta ao escritório, pegar minha pastinha e retornar para casa. Mais uma ou duas horas perdidas. Acontece. Numa das colunas um cartaz com um Cristo Redentor acima de uma cidade maravilhosa improvável, me observa desalentado. Neste instante as portas se abrem, sento lá no fundo do vagão, fecho os olhos e tento cochilar um pouco. Afinal, o Metrô leva, o Metrô traz. Simples assim.

O trem de Nova Friburgo

Um trem em plena Avenida Alberto Braune e ainda por cima na contramão? Brincadeira de Photoshop? Negativo.

Segundo o site Estações Ferroviárias, a estação de trens de Nova Friburgo foi inaugurada em 1873, como parte da Estrada de Ferro Cantagalo, que ia de Porto das Caixas, em Itaboraí até o hoje município de Macuco.

Em 1887 a ferrovia passou para a Leopoldina e foi desativada, com todas as suas estações, em 30 de maio de 1967.
A estação Nova Friburgo hoje em dia é ocupada pela Prefeitura Municipal da cidade, mantendo seu estilo arquitetônico.

A linha do trem atravessava a Alberto Braune e as praças Dermeval Moreira e Getúlio Vargas. Para evitar confusão no trânsito da cidade, o trajeto entre a atual Prefeitura e a estação de Conselheiro Paulino tinha que ser feita em, no máximo 10 minutos.

Aliás, existe a ideia de transformar esta estação no “Museu do Trem”, com o acervo das Estradas de Ferro Cantagalo e Leopoldina. Mas como as coisas demoram um pouco para acontecer, aguardemos…

*****

Esta crônica foi escrita em maio de 2009 para o site “Contos de Nova Friburgo”.

Velejar

Foto: Carlos Emerson Jr.

Se tem uma coisa que tenho saudades do Rio é o mar. Nascido e criado em Copacabana, tendo sua praia como única área de lazer, lá aprendi a nadar e, principalmente, conhecer os humores e respeitar o oceano. Vi ressacas históricas, peguei muito jacaré como quase todo mundo nos anos 60, fui queimado pelas traiçoeiras águas-vivas e, certa vez mergulhando, dei de cara com uma baita arraia e seu ferrão. Não sei onde fui consegui coragem para virar e nadar até a faixa de areia, completamente apavorado!

Um dia resolvi aprender a velejar. O cais aí da foto, lá na Marina da Glória, no Parque do Flamengo, era onde ficava o veleiro escola, um barco pequeno e robusto, fácil de manejar. Foram alguns meses de aulas, sempre aos sábados depois do almoço, com sol, chuva, vento ou nevoeiro. Afinal, Machado de Assis já dizia que “não é em terra que se fazem os marinheiros, mas no oceano, encarando a tempestade”.

Velejando descobri que o mar da Baia da Guanabara é diferente do mar aberto do oceano. Se as ondas por aqui são suaves, os barcos estão por toda a parte. Grandes, pequenos, feios, bonitos, modernos, velhos, veleiros, traineiras, botes, canoas, iates, o que o freguês imaginar. E dos atracadouros do Iate Clube, do Quadrado da Urca e do cais do Forte São João, saem ou chegam os barcos que cortam essas águas antigas levando gente para outras paragens.

Tudo bem, nunca nos aventuramos fora da Barra. Íamos até a boca para curtir o tamanho das ondas e retornávamos felizes. Só isso bastava.O importante era a técnica, o domínio da embarcação, não a aventura, até porque não há mais terras para descobrir. Mas podemos sonhar que ainda há peixes para pescar, praias para conhecer, ondas para enfrentar, nevoeiros para desbravar, correntezas para desviar. Aos barcos, rumo ao horizonte navegar: “marujos, levantar ancora, içar velas, soltar as amarras!”

Um belo dia o pequeno veleiro cortava a Baia da Guanabara, perto da Praia do Flamengo, quando o instrutor avisou, onda à frente. Embiquei a proa em sua direção, subimos até o alto de sua crista e descemos, prontos para encarar a próxima. Mas não veio nenhuma outra. O mar voltou a ficar liso e o vento manso. Acho que aquela onda foi só uma brincadeira. Do tipo, acorda aí, marinheiro!

Que pena… Nunca mais velejei.

Elizabeth Bishop, um poema de amor

Nagy Gallery, New York

A Arte de Perder
de Elizabeth Bishop

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia.
Aceite, austero, A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subsequente

Da viagem não feita.
Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe.
Ah! E nem quero

Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas.
E um império Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles.
Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça

(Escreve!) muito sério

(Tradução de Paulo Henriques Britto)

oOo

Considerada uma das maiores poetas de língua inglesa, a norte-americana Elizabeth Bishop morou no Brasil durante 20 anos (Rio de Janeiro, Petrópolis e Ouro Preto), onde conheceu Lota de Macedo Soares, Dona Lota, sua grande paixão. O poema acima, no entanto, foi escrito quando sua primeira namorada após o suicídio de Dona Lota, a americana Alice Methfessel, avisou que iria deixá-la. Sua história é trágica, feliz, intensa, solitária e criativa. Lésbica, alcoólatra e asmática. Uma grande poeta. Dê um Google e veja como essa mulher foi interessante. Vale a pena.

A propósito, merecidamente Elizabeth Bishop será a escritora homenageada na próxima FLIP.

Os vagalumes ainda estão aqui

Foto: Carlos Emerson Jr.

No último dia 15 de novembro completaram-se dois anos de nossa mudança definitiva da cidade do Rio para Nova Friburgo. A adaptação foi rápida e parece que já moramos a vida inteira aqui na serra. Descobrimos que nosso apartamento, comprado ainda na planta a quase vinte e quatro anos, é um dos poucos que se manteve original. Também, pudera, só era usado nos feriados e algumas férias mais prolongadas. Hoje, abriga sua família, mas visivelmente precisa de reformas nos banheiros, pintura nos quartos, estofamentos novos na sala.

Ah, sim, qualquer hora dessas vou testar a lareira, desativada já tem tempo, quando descobrimos porque fuligem e fumaça nunca são lembrados quando o pessoal elogia o charme desse sistema de aquecimento que vem acompanhando a humanidade desde…. A descoberta do fogo?

Na cozinha a situação pede mais cuidado. A máquina de lavar, que não era nenhuma Brastemp mas segurou a barra esse tempo todo, não resistiu ao uso diário e faleceu. Em seu lugar entrou uma Brastemp legítima, é claro. O microondas, um velho Panasonic cansado de guerras, também cansou e, apesar do lado afetivo (pipocas e filmes na TV com as filhas pequenas), teve seu merecido repouso. A geladeira e o fogão devem ir pelo mesmo caminho, mas por enquanto, seguram a barra com galhardia!

Temos dois bons closets e um porão enorme. E é aí, coitado, atulhado de caixas de todos os tipos, origens e documentos possíveis, que está o nosso maior desafio. Temos que abrir pacote por pacote, estudar documento por documento e imbuir a alma do mesmo sentimento que tivemos quando saímos do Rio, um desapêgo brutal. A essa altura, com mais de vinte anos, não temos a menor idéia do que tem ali dentro e fico com a sensação que de útil mesmo, vamos aproveitar uma ou duas caixas.

A parte elétrica está ok e, como agora tenho um escritório em casa para chamar de meu e de escritório mesmo, atualizei a conexão à rede pelo sistema de fibra ótica, ligado diretamente na operadora do serviço. Melhorou mil por cento e a internet só cai quando falta luz que, por sinal, evoluiu. Bastava chover, ventar ou cair raios que apagava tudo. Agora, só quando tem tempestade de raios.

Foi bom voltar a conviver com quadros, pratos ornamentais (é isso mesmo?) e demais enfeites que espalhamos ao longo desses anos pela nossa casa. Ainda estão bonitos e cada um tem uma história. Um ótimo marceneiro salvou o estrado de nossa cama de casal. Falta só trocar o colchão por um mais moderno para ficar ok. Pois é, estou notando que falei muito e não disse nada sobre Nova Friburgo, não é mesmo? Peço perdão, mas casa da gente é muito bom. E olha que nem contei como está bonito o bosque que separa os chalés, o silêncio das noites, os passarinhos que vem conversar na jardineira do quarto todos os dias, bem cedinho.

Mas o melhor de tudo aconteceu na semana passada, numa dessas faltas de luz generalizadas: no escuro, percebemos que ainda existem vagalumes, muitos vagalumes por aqui. Quase chorei de emoção.

As cidades exterminadas

Foto: Carlos Emerson Jr.

Uma observação para os “jornalistas profissionais” e “colunistas especializados” do Globo: desde ontem, o jornalão carioca e o Portal G1 noticiam continuamente que o governo federal vai extinguir mais de 1.000 cidades que não preencham requisitos mínimos financeiros, densidade populacional e por aí vai. Aliás, a foto do post foi feita com uma matéria da edição impressa de hoje, dia 6 de novembro, na página 20.

O site Brasil Escola, explica de maneira didática e simples a diferença entre município e cidade:

Por cidade, entende-se o espaço urbano de um município delimitado por um perímetro urbano. Para ser considerada cidade, é preciso ter um número mínimo de habitantes e uma infraestrutura que atenda minimamente as condições dessa população, mesmo que essa cidade seja dependente de outras que se localizem próximas a ela.”

Por município, entende-se o espaço territorial político dentro de um estado ou unidade federativa, é o espaço administrado por uma prefeitura. O município possui a sua zona rural e a zona urbanizada. Um mesmo município pode ter várias cidades, também chamadas de distritos, de forma que o nome do município será o mesmo da cidade principal ou do distrito sede, e é nesse distrito que se encontra a administração ou prefeitura.”

Extinguir 1.254 cidades só com armas nucleares, bombardeios aéreos de saturação, barragens de artilharia, mega operações de engenharia de demolição e por aí vai. E ainda nem falei dos refugiados. Onde vamos abrigar os dois, três, quatro mil moradores das cidades “exterminadas”? No Projac? Pois é. E aí vem o diretor de jornalismo do Globo garantir que eles são sérios. Estou morrendo de rir.

Vendeu a alma e não foi ao teatro

Foto: Carlos Emerson Jr.

Platéia e palco vazios. Uma sensação de abandono e desesperança ocupam os lugares esquecidos, coxias às escuras, camarins desertos, bilheterias fechadas. Ninguém vai aparecer para apresentar um espetáculo que ninguém assistirá. Infelizmente acabou, c’est fini.

Este post é dedicado a alguns colunistas da imprensa (eles sabem quem são) que, por motivos diversos, perderam todo o sentido, todo o conteúdo, toda a alma e, é claro, toda a honestidade. Meus sentimentos.

O caso das senhas expostas

Google Imagens

E não é que de repente, do nada, o Google abriu uma janela pedindo para que eu revise 111 sites que acesso com uma senha que foi exposta. Não satisfeito, abre uma aba listando todos os infelizes, sugerindo que eu comece imediatamente. Caramba, deve ser grave, pensei com meus botões (apesar de estar vestindo uma blusa de moletom, sem nenhum botão…). Missão dada é missão cumprida, pensei lembrando os tempos de exército. Sem procrastinar, soldado!

Devo ter acessado a grande maioria dos sites citados na época que a internet era conectada pelo telefone, um serviço tão ruim, lento, inseguro e instável que fiz questão de apagar do meu banco de memórias. Pois é… E aí o Google resolve reativar antigas e obscuras sensações. Eu, heim! Mas voltando à vaca fria (isso existe?), cerca de 80% dos locais onde as senhas foram acessadas, não existem mais, talvez apenas nas centrais de dados da gigantesca buscadora.

Salvei a listagem e resolvi deixar a pesquisa para um fim de semana chuvoso e frio. A ideia é entrar nos sites que ainda existem e, se for o caso, cancelar minha conta. Um trabalhão só, mas vale a troca, os jogos do Botafogo não tem sido motivo para nenhuma emoção ou torcida. Aliás, talvez o Google, que tudo vê e tudo sabe (e olha que não é nenhuma divindade), esteja me dando uma oportunidade de “melhorar” meu humor e me “divertir” um pouco.

Pelo menos na cabeça dos seus processadores.

Um crime bárbaro

Redes Sociais

A cena é dantesca, brutal, violenta. O indivíduo vai de bicicleta até a casa da ex-companheira, num condomínio em Mury, aqui em Nova Friburgo, discutir qualquer coisa sobre dinheiro. Não se entendem, ele puxa uma tesoura e a atinge em um braço e nas nádegas. Ela corre para dentro de casa, pedindo socorro para uma amiga que a estava visitando. As duas se escondem dentro de um dos banheiros. O “coisa ruim” não se afoba: tranca a porta por fora e, aproveitando que essa parte da residência tem muito acabamento em madeira, provoca um incêndio. Isto feito, rouba o carro da ex e foge em direção à Lumiar.

Os vizinhos, desesperados, tentam entrar na casa em chamas para soltar as duas mulheres. Mas o fogo lambe a madeira e parte do telhado cai, provocando queimaduras em até 90% do corpo delas. Os bombeiros rapidamente chegam, resgatam as duas ainda com vida e somente após duas horas de luta conseguem apagar as chamas. Com 90% do corpo queimado uma delas é removida para o hospital de queimados de Nilópolis e a outra vai para o hospital da Unimed. Seu estado de saúde é desesperador.

Nervoso e cheio de ódio, o criminoso provoca um acidente na estrada. A polícia, já devidamente ciente e tendo iniciado as buscas, prende e leva o indivíduo para a Delegacia de Friburgo, onde ele confessa o crime bárbaro. A tragédia tem seu desfecho na quarta e na quinta-feira, quando as vítimas não resistem e morrem, para consternação geral da nossa cidade.

E agora?

Pois é, a pena para feminicídio vai de 12 a 30 anos, podendo ser aumentada em 1/3 até a metade se o crime for cometido durante cumprimento de medida protetiva de urgência o que, aparentemente, não era o caso. E aí, como estamos no Brasil e a justiça permite (e incentiva) todo o tipo de recursos, corre o risco do advogado desse “coisa ruim” entrar com todos tipos de recursos, inclusive laudos comprovando que o cliente é louco varrido. Não, isso não podemos permitir.

Lembro que em outros tempos crimes violentes como esses eram punidos com penas de esquartejamento, forca, guilhotina, fuzilamento e cadeira elétrica, entre os mais “populares”. Hoje somos civilizados e vamos acreditar que esse celerado possa ser reabilitado. Aplaudir quando a lei fizer a progressão de sua pena para o regime semi-aberto. Entender que ele tem direito a saídas da prisão no dia dos pais, natal, ano novo e assemelhados. Sorrir felizes e recebê-lo de braços abertos quando a justiça finalmente suspender sua pena e mandá-lo de volta ao seio da sociedade. Ou, bárbaros que somos, comemorar quando os outros presidiários, revoltados, fizerem justiça com as próprias mãos.

Que Deus me perdoe.

Esta crônica é dedicada à Alessandra Vaz e Daniela Mousinho. Que seu sacrifício não tenha sido em vão.